Contos alucinantes – Todos a bordo

A narrativa seguinte aconteceu quando eu, Nelson e Joelson decidimos passear no Rio Grande do Sul. Não espero que ninguém acredite em mim. Mas acho que vale a escrita por mais incrível que ela seja. Aliás, por ser incrível é que vale a pena.  Leia o meu primeiro relato aqui para entender bem o deste post.

Então, como disse, estávamos os três fazendo turismo lá na terra dos gaúchos. Paramos e entramos em uma lanchonete para comermos uns sanduiches. Tínhamos acabado de receber nosso pedido, quando alguém passou por nossa mesa e derrubou meu refrigerante e por pouco não me molhou todo. Um homem de rosto oriental se virou para mim e pediu muitas desculpas e pelo sotaque vi que não era mesmo brasileiro. Disse que estava tudo bem, trocamos cordialidades e ele decidiu pagar nossa conta. Ele estava acompanhado e juntamos mais uma mesa para lancharmos todos juntos. 

Foi então que ele contou que era comandante de um navio cargueiro. Tinha costume de sempre cumprir uma rota, onde uma das paradas era o Brasil. Declarou amor pelo nosso país e aproveitava o tempo que em que a embarcação recebia a carga para passear nas cidades dos portos brasileiros onde atracava. Comecei a perguntar a ele sobre a vida de marinheiro. Ele falou que era tailandês e que desde menino se apaixonou pela vida no mar. Contou seus esforços para aprender até chegar a ser comandante de um navio cargueiro. Todos nós ouvíamos com admiração, menos os seus imediatos que comiam como se já tivessem ouvido o comandante com suas estórias várias vezes. 

-E vocês? Não gostam do mar? 

– Eu não tenho nada contra. – Respondi ao comandante em tom de brincadeira como alguém que não quer dizer nada sobre o bom amigo do outro. Nelson me repetiu e Joelson deu de ombros com a boca cheia de pão com hamburguês. 

-Então porque brasileiros não viajar com comandante? Muito bom. Conhecer mundo… Lugares diferentes. Brasileiros aprender bastante. Eu garanto. 

Ficamos surpresos com o convite do comandante e ficamos olhando uns pros outros. Não dava pra responder logo assim… De repente. Ele percebeu. 

-Eu fico mais 3 dias. Dou um jeito pra tudo… Tudo pra vocês viajarem. Quer conhecer navio primeiro? Navio humilde, mas…. – o comandante desatou a rir – Vamos no porto e vocês decidem, vamos… 

Concordamos em visitar o navio do comandante e investigar se aquilo não era nenhuma pegadinha. E de qualquer formar, nunca fomos no porto de Rio Grande, nem tão pouco entramos em nossa vida em nenhuma embarcação. Imagine de primeira entrar em um navio cargueiro. Para três jovens, aquilo era uma aventura. E era isso que procurávamos naquelas férias.  

Entramos todos em dois taxis e fomos para o porto. Chegando lá, o comandante Thaksin foi atravessando contêineres, galpões, caminhões e saudando a todos com alegria e sendo recebido da mesma maneira, quando chegamos no atracador o comandante apontou o dedo e disse que era aquele pequeno ali. 

A embarcação que ele apontou era enorme. O leviatã de aço era todo vermelho e tinha escrito em letras brancas no seu dorso SVANE AV HAVET. Ficamos impressionados. Um guindaste acomodava contêineres no navio e ficamos por alguns minutos observando toda a movimentação com espanto e admiração. Tudo parecia ser grande e magnifico. O comandante nos convidou para subir. Quando estávamos indo em direção a escada, um gato gordo e grande passou em nossa frente e subiu na embarcação. O comandante franziu as sobrancelhas e subiu em passos rápidos a escada e fomos seguindo ele, junto com os imediatos. 

Chegando lá em cima, o comandante se encontrou com um homem loiro que estava acompanhando a organização dos contêineres e começou a reclamar com ele. Não entendemos nada do que eles falavam. Imaginei que o comandante estava zangado por terem deixado um gato na embarcação. Mas depois ele se virou para nós e em português explicou que o bichano fazia parte da tripulação, junto com mais três cães. E disse que tinha pedido à tripulação para os animais não descerem no porto para não se perderem. 

O comandante fez questão de nos apresentar o navio e enquanto ele explicava coisas sobre as embarcações, recebia a tripulação e era informado sobre alguma coisa ou dava ordens. A nós três, tudo era entusiasmante. E a coisa ficou melhor quando entramos na sala de comando. Depois de nos explicar até onde poderíamos entender, o comandante Thaksin perguntou: 

-Brasileiros vir com comandante para aventura em alto mar? 

-Mas comandante. Não queremos ser clandestinos. Como fica a situação burocrática? 

-Eu acerto tudo..Tudo. Tem muitas amizades. Brasileiros tem passaportes… Tem na mochila? Fiquem tranquilos. – E o comandante piscou o olho esquerdo para nós, com as mãos agoniadas pedindo nossa documentação. 

Aceitamos o convite. Mas por minha vez, liguei para casa e expliquei a situação para meu pai. Ele ficou desconfiado, mas como tinha alguns contatos no Itamaraty pediu para que desse todos os detalhes sobre o navio e o comandante. Eu não escondi isso do comandante e o mesmo cedeu todas as informações que pedi entre risos. Após um dia, meu pai retornou a ligação dizendo que estava tudo correto. Inclusive que o comandante já tinha sido motivo de um documentário norte-americano. 

Então topamos viajar. O comandante disse que sairíamos do porto do Rio Grande e seguir pelo litoral brasileiro. Mais alguns portos subindo pela América Latina, depois o navio iria atravessar o canal do Panamá e seguir para seu destino principal, o porto de Shangai, onde iria descarregar todo o navio. Interroguei ao comandante como iriamos nos ocupar durante a viagem. Ele disse que sempre tinha trabalho a ser feito no navio, mas que ficássemos despreocupados, pois ali éramos convidados e que não faríamos nada que tirassem nossa diversão. 

Confirmamos nossa viagem e o comandante chamou alguém da tripulação e falou algumas palavras que não entendemos. Dessa vez o marinheiro na nossa frente tinha traços orientais como o comandante e ao receber as ordens dele, venho todo alegre até nós e nos saudou com palavras que não entendíamos, mas era de boas-vindas. Segurou com suas duas mãos calejadas as nossas com entusiasmo e nos levou até nossa cabine.  

A seguir veio outro marinheiro que em inglês nos explicou o que fazer em caso de emergências. Nelson era fluente em inglês e foi traduzindo pra gente os procedimentos. Ao final das explicações e de uma ligeira simulação, o marinheiro com sotaque irlandês pergunta se havia alguma pergunta. Dos três, Joelson levanta a mão e pergunta se tinha alguma roupa azul, porque aquela de cor laranja ele achava feia. Ele recebeu um tapa na cabeça do irmão que nem traduziu aquilo para mr.Kevin. 

Bom. Eu poderia escrever sobre todo divertimento que tivemos durante a viagem, mas aí isso viraria um livro e não um conto. Mas aprendi muitas coisas sobre a arte da navegação com o comandante e ficávamos durante horas com ele na ponte de comando, ouvindo os casos da vida dele. Quando não estava com o comandante, ia pra cozinha ajudar na alimentação da tripulação ou na manutenção da embarcação. Brincávamos no convés com os cachorros: um boxer branco com uma mancha preta no rosto, um border collie e um pug. O gato aparecia quando ele queria e sempre se interessa mais por mim do que por Nelson e Joelson. Um dia eu estava no refeitório almoçando e ele apareceu e ficou roçando nas minhas pernas. Nelson lembrou do caso da piscina e do gato que apareceu naquele dia. Disse a ele que existia milhões de gatos pelo mundo e que uma coisa não tinha nada a ver com a outra. 

Quando o navio saiu do canal do Panamá e entramos no oceano pacifico, o tempo foi mudando. A cada hora que passava, pouco a pouco o mar ficava agitado e o céu azul ia ficando cinzento. O comandante Thaksin, disse que aquilo não era normal. Mas que estava tudo bem. Perguntei se a embarcação aguentava uma tempestade. Ele olhou para mim como um professor para um garoto de escola primária e disse que até um furacão. E desatou a rir. 

Muito bem. Mas aquele tempo foi piorando e um dia lá pelas 23 horas, a coisa foi ficando braba. O comandante e seus imediatos estavam em um estado de concentração que nunca tínhamos visto antes. Educadamente e não querendo nos preocupar o comandante pediu para nos três irmos para cabine descansar e que nos esperava para contar um caso qualquer que nós íamos rir bastante. Obedecemos e fomos até a cabine e quando abrimos a porta, o gato entrou correndo e subiu na minha cama. Nos olhamos e a primeira coisa que falei para os irmãos é que se lembravam dos procedimentos de emergência. Eles disseram que sim e fomos nos deitar em silêncio. O gato foi dormir em meus pés. Ao longe, ouvíamos os cães latindo. A situação se mostrava a mais incomum da viagem. 

Logo dormi embalado pelo sobe e desce do navio que de todos aqueles dias de viagem era a primeira vez que me lembrava que eu estava em uma embarcação, deslizando pelo oceano. De fato, as ondas deviam estar altas. Então, eu estava sonhando com a Bettie Page e quando ela começava a beijar todo o meu rosto, acordei assustado com luzes vermelhas e o alto falante a berrar um som que nos fez sair da cama e vestir os trajes de sobrevivência. O navio balançava e parece que íamos pular e bater no teto. Nos vestimos e saímos pelo corredor do navio, o velho coreano nos chamou e ensinou um outro caminho para ir até a sala de comando. Não passamos pelo convés e entramos na sala por uma porta quase ao lado do comandante. Quando me aproximei dele, ele simplesmente nos olhou e disse: 

-Perdão..Perdão… Não pensei que seria assim. Nunca aconteceu isso antes.  

-Qual a nossa chance comandante? – Perguntei já sabendo a resposta quando olhei pela janela de vidro e vi o tamanho das ondas gigantes. O navio pulava e balançava. E ainda toneladas de água do mar entravam no convés e mal demorava de ser escoado, outra onda vinha e enchia mais de água. 

-Estou tentando o meu melhor. – Foi a maneira discreta dele dizer que a situação era trágica. 

Nos agarramos nas alças da sala de comando e vi o comandante passando ordem e recebendo informações dos imediatos e da tripulação. Um dos imediatos estava no rádio repetindo as mesmas palavras que com certeza informava a posição do navio e pedindo ajuda. 

Em determinado momento vi que o comandante ficou duro como uma estátua. Eu fui até ele. Ele segurava o volante da embarcação e seu corpo tremia. Estava todo duro e respirava com tanta força que podia ser ouvido cada inspiração. Eu me aproximei do comandante e chamei pelo nome dele várias vezes. Ele continuou tremendo e olhando para frente. Gritei para os imediatos e pedi para o Nelson falar em inglês que o comandante estava em choque e que precisa de um médico. Os imediatos foram até ao comandante e foi difícil tirar as mãos dele do volante. O navio agora chocalhava estupidamente e os contêineres batiam um no outro fazendo um estrondo terrível. Eu segurei o volante institivamente e Joelson e Nelson ficou cada um ao me lado. 

-Você sabe dirigir navio? – Perguntou o Nelson pra mim. Em outro momento teria dado um cascudo na cabeça dele. Mas me dei conta que estávamos vivendo as últimas horas de nossas vidas. 

-Joelson. Se você puder chamar um daqueles pretos-velhos que a Ritinha te ensinou… Tá mais do que na hora. – Falei sorrindo pra ele como que me despedindo. Não sei se ele tinha noção do que estava para acontecer. Mas não queria e nem tinha como explicar pra ele. Olhei para Nelson que continuava a olhar para a frente e tinha um rosto resoluto. Ele sabia. 

Chegou o momento. Uma onda gigante se formou a nossa frente e o navio começou a se inclinar para cima como um foguete que é guinchado vagarosamente na área de lançamento. Eu vi o comandante várias vezes acionar uma manivela para aumentar a força do motor e foi o que fiz. Aquilo não adiantou nada. Quando meus pés começaram a escorrer para trás e o navio não mais avançava na onda, apenas pensei em uma coisa: Morri. A embarcação iria virar de cabeça pra baixo e era assim que entraríamos na outra dimensão.  

Mais um pouco, quando já não tínhamos como nos segurar no painel de controle, ouvimos um chiado enorme como se tivessem lançado milhões de antiácido estomacal no mar. A embarcação parou. E quando pensamos que não havia mais pavor para suportamos, o mar como que congelou. Na verdade, gelatinou. É o máximo que posso explicar para ser entendido. Imagine gelatina sem cor. Foi assim que ficou a onda a nossa frente e por alguns segundos ficamos ali estacionados, quando algo estourou um pouco abaixo da crista da onda. Um objeto enorme passou por sobre o navio e lentamente a embarcação foi descendo e o mar se abrindo a nossa frente.  

Quando o navio ficou nivelado, saiamos da sala e olhamos a nosso redor. Estávamos sobre um mar de gelatina. É o que posso dizer. A textura da água estava mudada. A nave que passou sobre nós e que fez um furo na onda, deixou pedaços daquela aquela gosma gelatinosa sobre toda a embarcação. Saímos da sala de comando e olhamos para o céu e vimos pequenos objetos zunindo para lá e para cá e por onde eles passavam as nuvens iam se dissolvendo e mostrando o céu azul. 

Olhei para a popa da embarcação e vi que a nave começou a se aproximar. Eu corri para a sala de comando e peguei um binóculo. Nelson e Joelson foram depois de mim e voltaram também com binóculos e miramos na nave. Ela foi se aproximando lentamente ao lado da embarcação e vimos uns homens sobre a nave. Bom. O que posso dizer é que pareciam vestir algum tipo de roupa ou armadura que lembrava muito uma dessas figuras que encontramos em manuais de anatomia que os estudantes de medicina estudam para estudar os músculos do corpo.  A cabeça não tinha olhos, nem nariz boca ou ouvidos. A couraça, roupa, armadura, seja lá o que era aquilo, era branco. E quando eles ficaram alguns metros lado a lado do navio. Os objetos que estavam no céu desceram como um enxame de abelhas e entraram na nave que parecia um submarino voador no formato de um tubarão sem nadadeiras 

O céu estava todo azul e conseguimos ver o sol a oeste. Então um daqueles homens iluminou seu traje como um vagalume e riscos dourados apareceram por todo o seu corpo. E nos mostrou seu ombro esquerdo, onde tinha um conjunto de signos que lembrava muito um daqueles cartuchos egípcios. Ele passou o dedo indicador e mínimo da mão direita pelos símbolos e apontou depois pra gente. Os outro 4 que estavam com ele fizeram a mesma coisa. Depois disso, bem na frente dos nossos olhos, eles se dissolveram. É como consigo explicar. É como se cada átomo deles virassem um pingo de água e caíssem no mar. O mar a nossa volta voltou ao normal e a gosma que estava na embarcação escorregava como água salgada pelo aço do navio 

-Vocês viram o que eu vi? – Falei estupefato para os irmãos. 

-Metaleiros eles não eram. – Falou Nelson imitando meio que estupefato o homem que apontou os dedos para nós. 

-Eram viajantes do tempo.- Falou Joelson ainda com os binóculos no rosto, procurando mais alguma coisa no horizonte. 

-Ah é? E como o Einstein sabe disse?  – Perguntou o Nelson olhando para o irmão que continuava a segurar os binóculos. 

-Eu vi isso numa revistinha. 

-Revistinha? – Perguntei olhando pra ele. Joelson abaixou os binóculos e respondeu como se eu fosse a pessoa mais idiota do mundo. 

-É gibi, quadrinhos… P***ra! Nunca leu um não? 

De repente senti algo roçando em minhas pernas. O gato do navio ronronava e esfregava a cabeça em meus pés. Peguei o animal e segurei em meus braços e me lembrei dos três cães e fui ver se tinham sobrevivido.    

A tripulação estava bem. Todos estavam vivos. O comandante estava melhor e pediu para que se fizesse uma verificação completa no navio, antes de saber onde estavam e qual era o porto mais próximo que poderia receber a embarcação. Tirando a bagunça dos objetos que ficaram espalhados por todo navio, quando ele pulou as ondas gigantescas, tudo estava em ordem. Estranhamente em ordem. Até mesmo os contêineres estavam preservados e devidamente “amarrados”. Nós vimos que eles estavam já escorregando para fora do navio. 

Depois que tudo foi reorganizado e o navio limpo, o comandante Thaksin informou que iriamos para o porto de Suva em Fiji. Ali o navio poderia ser verificado com mais detalhe para continuar seu destino final que era Shangai. O comandante já se sentia aliviado por não ter perdido nenhum contêiner e nenhum dos seus marinheiros. Para nós ele sempre olhada diferente, mas sentíamos que não era nada ruim sobre nós. O comandante disse que iria colocar o navio na nova rota e conversaria apenas com nós três. Fomos para nossa cabine descansar. 

Mais tarde, o comandante pediu para que o mesmo marinheiro que nos mostrou as dependências no primeira dia na embarcação, nos levasse até ele para a conversar. Fomos com um sentimento de apreensão. Certamente não fomos os únicos a ver aquele submarino voador com aquelas pessoas. O comandante iria fazer perguntas. 

O sorridente marinheiro com traços orientais, pediu para que entrássemos na sala e assim fizemos. Ele entrou conosco e fechou a porta atrás de nós em seguida. O que vimos foi o comandante Thaksin com um cigarro na boca, em pé em e andando em torno de mesa quadrada com 8 cadeiras. Ele estava terminando de colocar gelo nos últimos dos 5 copos de vidro que estavam sobre a mesa, em frente a cada cadeira. O comandante pediu para sentarmos e começou a servir uma bebida. Foi quando Joelson chamou pelo meu nome e ficou me apontando com a cabeça a garrafa que o comandante segurava. Quando percebi, senti um arrepio por todo corpo. Senti cada fio de cabelo de minha cabeça ficar eriçado. Era um Chivas Regal. 

-Algum problema? – Perguntou o comandante percebendo nossos rostos assustados. 

-Não senhor. Mas me lembro do senhor me dizer que não bebia e não fumava e por isso é que mantinha a forma e a boa saúde. 

-É verdade. Mas brasileiro… Depois de tudo… Momento pede comemoração. Beba, beba… Muito bom.  

Aceitamos e concordamos com o comandante. Eu bebi o copo de uma só vez. Quando a bebida desceu na garganta, ardendo e queimando, imediatamente lembrei de Lindalva. Aquela mulher tinha a volúpia de uma bacante e a sabedoria de uma Beatriz de Dante.  E foi ela que me ensinou a usar estar metáforas, pois como engenheiro estava mais habituado a números e linhas. Ela era filha de um cônsul americano no Brasil e estava estudando ciências humanas na mesma universidade onde estávamos. Aquela mulher me viu e não sei o que percebeu em mim que me perseguiu até que conseguiu ficar comigo. Ninguém entendia como ela tinha escolhido ficar com o que hoje os mais jovens chamariam de nerd. Mas passar algumas horas com ela era sublime e delicioso. E tenho certeza que ela teria alguma teoria sobre aquilo que vimos. 

O comandante estava do outro lado da mesa. Esperou que experimentássemos da bebida. Deu uma baforada e bateu o cigarro num cinzeiro que tinha a forma de um dragão oriental. 

-Então… Vocês sabem o que foi aquilo? – Perguntou o o comandante olhando para as cinzas no cinzeiro. Não sei como, mas senti no comandante alguma vergonha. Talvez por ter entrado em choque no momento que ele percebeu que seria o fim de todos. Eu mesmo me perguntava como também não morri, antes mesmo da onda gigante virar o navio. 

-Comandante, sabemos tanto quanto o senhor. 

-Acha que aquilo foi coisa de UFO? 

-Não acredito nisso. Vi quatro pessoas com cabeça, corpo e membros como nós. Mãos que tinham cinco dedos. 

-Foi coisa de americanos? 

-Existe alguma coisa neste navio que é de interesse dos Estados Unidos ou de qualquer outro país? O comandante olhou para nós três por alguns instantes, fumou mais e disse. 

-Não, não… Se tem algo em contêineres, eles devem saber tudo, tudo… A companhia trabalha para muito países. Estados Unidos também. Eu aporto lá umas 3 ou 5 vezes anos. 

-Sendo assim, poderíamos dizer que foi coisa de chineses, russos, alemães, britânicos… Eu não acredito nisso comandante. 

-No que você acredita então? – O comandante tragou novamente o cigarro e assoprou para o lado, mantendo o cigarro entre os dois dedos indicador e médio, sobre o cinzeiro. 

-Eu acredito que seja lá o que foi aquilo ou eles, salvaram nossas vidas. Isso é o que importa. – Respondi olhando bem nos olhos do comandante. Fiz questão de aproximar meu rosto bem junto ao do comandante, tentando mostrar a ele que eu não tinha como responder as dúvidas dele que também eram as minhas. 

-Mas meus marinhos dizer que viu eles apontarem para vocês o braço. 

-É verdade comandante e em seguida desapareceram em minúsculas gotas d’água. Mas acredite em nós. Não temos culpa sobre o que aconteceu. 

-Oh não…Não é isso. Eu pensar contrário. Brasileiros trouxe sorte. Comandante não culpar vocês. Eu ter convite para vocês. – Neste momento o cigarro do comandante tinha sido todo consumido até o filtro. Ele com muita delicadeza apagou o que restou no cinzeiro. Juntou as mãos sobre a mesa e olhou para nós três. 

-Eu ter homens de mundo todo neste navio. Ver Myung-Dae? – Neste momento o capitão passou o braço sobre os ombros do velho marinheiro que sorriu alegre – Ele soldado de guerra Coreia. E vocês viram Italiano, Francês, Alemão, Mexicano, Inglês, Norueguês, Americano, Árabe… Assim que gosto. Mas queria brasileiros. Faltar brasileiros… E eu gostar de Brasil. Eu encontrar vocês e gostei de vocês. Quer trabalhar com comandante Thaksin?  

Eu, Nelson e Joelson nos entreolhamos e tentamos em alguns segundos imaginar nosso futuro em um navio cargueiro viajando pelo mundo. Enquanto pensávamos, o comandante Thaksin explicou todas as oportunidades que a companhia do navio oferecia aos tripulantes dedicados e interessados. Ele disse que um dia poderíamos até ser como ele e começou a lembrar alguns casos de outros marinheiros. Ele já estava entre muitos risos e enchia mais uma vez seu copo do Chiva Regal. Toda vez que eu via aquela garrafa, só lembrava da nossa piscina. 

 Falando por todos, lembrei ao comandante que éramos estudantes e queríamos concluir nosso curso de engenharia. Mas que mantivesse o convite aberto. O comandante disse que já nos considerava parte da tripulação e que quando voltássemos ao Brasil, quando quiséssemos, quando ele estivesse em um porto brasileiro, sempre poderíamos nos integrar aos seus marinheiros seja nas férias ou permanentemente. 

Fomos dispensados pelo comandante, não sei antes ele dizer algumas palavras como se algum tipo de prece oriental sobre nós e sorrindo muito. Disse para nos divertimos o máximo e que estávamos livres para fazer qualquer coisa no navio e que não tivéssemos vergonha de pedir nada. E quando chegássemos em Fiji, iria pagar um passeio para nós na ilha. 

Saímos da sala aliviados e felizes. Mas encucados com a garrafa de whisky Chiva Regal.  

-Mas que p***a tá acontecendo com a gente? – Falou Nelson, enquanto nos dirigíamos para o convés. 

-Pergunta pra seu irmão Einstein, aí. Ele que entende dessas coisas. – Falei sério olhando para Joelson. Mas ele apenas me mostrou o dedo médio e fomos ver o oceano pacifico, enquanto o navio deslizava calmo sobre ele em direção a Fiji. 

Na ilha tivemos um baita de um passeio turístico em lugares paradisíacos. O comandante pagou tudo e nos melhores hotéis. Em Fiji senti muita falta de Lindalva. Alguns lugares eram ótimos para uma lua-de-mel e comecei a divagar sobre um futuro junto com ela. Senti a saudade chegar a um ponto que quase combinei com Nelson e Joelson para pedir ao comandante uma viagem de volta ao Brasil, sem voltar par ao navio. Os irmãos também já tinham comentando que já começavam a sentir saudades dos pais.  

Enquanto decidíamos sobre isso. Estávamos aproveitando nosso passeio pela ilha com um guia turístico, quando vimos uma multidão fazendo uma festa em plena rua. Era população nativa e vi que um homem segurava uma garota sentada em seus ombros, dançava e cantava com os demais. A menina segurava um papel, imaginei que era cartolina onde tinha uma figura pintada a lápis de cor que não conseguia definir o que era pela distância que estávamos. Imaginando que seria alguma celebração religiosa e me lembrando de Lindalva, pedi ao guia para perguntar o que estava acontecendo. Ele se aproximou de um da multidão. 

Ele voltou explicando que aquele homem que estava segurando a garota era um dos proprietários da maior rede hoteleira da ilha. E que era a filha dele que estava nos ombros. Que ela estava gravemente doente e já tinha sido considerada caso perdido para os médicos. Que ela já estava de coma, até que por milagre ela se levantou da cama do hospital como se nada tivesse acontecido. E o papel que ela segurava era dos deuses que tinham curado ela. Então o pai estava oferecendo uma festa em homenagem aos deuses e pela cura da sua filha. 

Ouvi tudo aquilo e pensei que Lindalva ia adorar a cena. Nós três estávamos encostados em uma parede quando a multidão foi chegando mais perto da gente com muita cantoria e algazarra. A procissão foi caminhando sobre nossa frente e quando o pai com a menina passou sobre nós, ela começou a gritar para o pai e começou apontar para gente. Parece que pedia para descer, o que o pai fez e veio correndo até onde estávamos. Sem fôlego e falando no idioma que não entendíamos, ela nos mostrou a cartolina e o desenho que ela tinha feito. Nós três seguramos a cartolina e o que vimos nos apavorou. 

Meus Deus! – Eu gritei e comecei a tremer.  

No desenho tinham três homens em uma sala. Cada um deles tinham aquelas pequenas esferas que vimos no submarino voador, flutuando ao lado da cabeça deles. Uma para cada um. O que parecia com Nelson olhava para uma garota na cama, enquanto outras esferas estavam sobre ela. O outro estava de braços cruzados, observando a situação da garota, parecia comigo. E o outro parecido com o Nelson, apontava o dedo médio para uma garrafa. Era a mesma Chiva Regal que bebemos com o comandante. Do lado do desenho com os três homens e a garotinha, aqueles símbolos parecidos como a do homem que apontou para nós lá no navio. A menina desenhou o rosto de cada um em detalhes. E podíamos ver que éramos nos três. Vestidos com uniformes parecidos como o dos homens que vimos sobre a nave. 

Pedimos a nosso guia para nos tirar dali imediatamente, puxando-o para o carro e que nos levasse ao porto. Entramos no navio e decidimos ir embora para casa a partir de Shangai. 

 O comandante exigiu que todos os tripulantes fizessem um juramento que não iriam contar aqueles eventos a ninguém para o bem de todos. E mais ainda o comandante insistiu que nos éramos parte de sua tripulação. A mesma resposta dei ao comandante Thaksin quando bebemos juntos e ele tinha terminado de fumar seu cigarro e jogar a ponta na boca do dragão.  

FIM.