Para ser homem

(…) cada homem não é apenas ele mesmo; é também um ponto
único, singularíssimo, sempre importante e peculiar, no qual os fenômenos do
mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais. Assim, a história de
cada é essencial, eterna e divina, e cada homem, ao viver em alguma parte e
cumprir os ditames da natureza, é algo maravilhoso e digno de toda a atenção.
Em cada um dos seres humanos o espírito adquiriu forma, em cada um deles a
criatura padece, em cada qual é crucificado um Redentor.
Poucos são hoje os que sabem o que seja um homem. Muitos o
sentem e, por senti-lo, morrem mais aliviados, como eu próprio, se conseguir
terminar este relato.
Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem
que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros: começo a
ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim. Não é agradável a minha
história, não é suave e harmoniosa como as histórias inventadas; sabe a
insensatez e a confusão, a loucura e o sonho, como a vida de todos os homens
que já não querem mais mentir a si mesmos.
A vida de todo ser humano é um caminho em direção a si
mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro. Homem algum
chegou a ser completamente ele mesmo; mas todos aspiram a sê-lo, obscuramente
alguns, outros mais claramente, cada qual como pode. Todos levam consigo, até o
fim, viscosidades e cascas de ovo de um mundo primitivo. Há os que jamais
chegam a ser homens e continuam sendo rãs, esquilos ou formigas. Outros que são
homens de cintura pra cima e peixes da cintura para baixo. Mas cada um deles é
um impulso em direção ao ser. (…)
Hermann Hesse