Passeio no Mercado Central de Belo Horizonte-MG

Fiz uma visitinha rápida no Mercado Central de BH pra matar a saudade. É um ponto de encontro dos mineiros e uma atração para os turistas. Um lugar onde é possível encontrar produtos tipicamente mineiros, seja em artesanato ou alimentos.

Eu acho que a escolha do lugar como o mais representativo da cidade foi bem acertada. Naquele pequeno espaço somaram todos os elementos que faz a mineiridade. É um ótimo programa cultural.

Sobre a manifestação dos caminhoneiros

Imagino que muitos estão surpresos com a o impacto da manifestação dos brasileiros caminhoneiros, já que não imaginavam que suas reivindicações ganhariam a solidariedade de vários grupos que formam a nossa sociedade.

Foi uma manifestação feita sem o uso de métodos populacheiros . Foi uma manifestação popular memorável e mostrando que quando o povo – não o populacho – quer ser senhor da construção do destino da nação, o povo assim o pode.

Acredito que os administradores de nosso Estado verdadeiramente saíram de sua zona de conforto. Eles estão sendo pressionados a ceder às autênticas e nobres necessidades dos nossos queridos profissionais do transporte rodoviário.

Somente a solidariedade entre todos os brasileiros e a tomada de consciência do poder da cidadania, podem realmente purificar e fortalecer nossa democracia. A manifestação dos caminhoneiros poderia muito bem caber em uma dessas matérias oferecidas por alguns doutores acadêmicos. Certamente o estudo deste evento, seria muito mais útil e honesto do que certas matérias que tem por objetivo a hipnose politiqueira dos menos experientes.

Uma eleição nos aguarda no final do ano. Vamos manter estes últimos dias na memória como guia para escolha dos novos representantes que irão decidir os rumos de nosso país em 2019. Quem sabe aparece um corajoso que proponha e saiba fazer o aumento e restauração das ferrovias e também de hidrovias.

Baseado de fatos reais – Fart is not life

A seguinte narrativa foi ouvida em uma fila de desempregados.

Um cidadão animava em uma fila, compatriotas do reino do desemprego tropicaliensis, contado causos de sua própria vida. Eis aqui a que mais me interessou.

Dizia ele que quando era menino, ia com os pais visitar seus avós no período de férias, que moravam numa roça na lá região de Muriaé. Tinha um avô que já estava com seus 80 anos e que era um velho sem muita educação.

O velho tinha o péssimo costume de peidar nos momentos mais inconvenientes. Exemplo, peidar depois do almoço. O neto perguntava surpreso na mesa, depois de um peido perdido.

– Que foi isso?

– É a vida, meu neto. Isso é vida. – Respondia o velho com umas risadinhas assim: Ê..ê..ê..ê..ê.  Às vezes, para cada “ê”, uma pocada de bufa acompanhava suas risadas que se misturava com as de toda família.

A avó mandava o netinho chamar o avô que tava lá na roça. O menino chegava correndo lá.

– Vôôôô… A Vó tá lhe cha…. – Pruuuuuuuuu…pum…pum.. praaa papapapaaaaa. O cidadão menino dizia que chegava a colocar as mãos na orelha. O avô apenas respondia:

– Seu vô tá vivo. Isso é a vida. Só peida quem tá vivo. Diz pra vó que já tô terminando aqui com os “pé” de mandioquinha e já tô indo.

Uma vez foram no comércio do centro de Muriaé, no mercado da cidade. Quando comprava umas varas de pescar e foi pagar, soltou um pum na lojinha, constrangendo a todos ali dentro. O velho era imbatível, respondia com orgulho e ainda se fazia de educador público.

– Gente, peido é vida. Só peida quem tá vivo. Tem vergonha de peidar não. Faz que nem eu…ó… Pruuuuruuuuuu pá…pumpum…trararrraatata…. poc, poc, tum. Ê…ê…ê…ê…ê.

Nosso amigo visitou seus avós várias vezes e aquilo fez parte da sua vida, tendo belas e humoradas recordações do seu avô. De certa forma, aquilo o influenciou e quando peidava, sentia-se como seu avó. No entanto, não tinha a falta de vergonha dele. Sempre foi um cidadão muito bem polido, até mesmo na soltura de seus gases intestinais.

Fez um curso para vigilante patrimonial e assim trabalhava para cuidar de sua vida. Até que um dia foi escalado para trabalhar num cemitério de Belo Horizonte. Lá foi ele para o novo posto de trabalho. Segundo ele, nunca teve medo de almas penadas e coisas do outro mundo e recebeu com muita normalidade a escalação.

Na primeira noite no cemitério, foi fazer a primeira ronda para proteger os ancestrais restos dos depravados ladrões de covas. Acontece que nosso amigo não tinha nenhum conhecimento patológico das reações químicas pós-morte. E ele disse que passava por um corredor de tumbas, quando ouviu um estalo e em seguida um som como um ssssss…tratrec trec…sssss… pá…pá.

Ao ouvir o som, ele não pensou duas vezes. Saiu correndo para administração do cemitério e ligou para o 931, pedindo pelo amor de deus uma equipe de resgate, pois tinham enterrado uma pessoa viva.

Aquilo foi um furdúncio que chegou a sair até nos noticiários. Como todos podem presumir, eis o motivo do cidadão estar desempregado e ter perdido a sua autorização como segurança.

Todos nós rimos naquela fila, esquecendo por alguns minutos as dificuldades que ainda passamos.

FIM

Contos alucinantes – Parque Municipal de Belo Horizonte 1920

Em 1920 visitei o Parque Municipal de Belo Horizonte. Parei em frente ao laguinho e fiquei me distraindo com os peixes que nadavam sob o reflexo das luzes cristalinas. De repente, vi um dos barquinhos do lago se aproximando de mim. Vinha vagoroso e percebi que a pessoa que remava mantinha os olhos fixos em mim, sem piscar suas pálpebras e nem olhar para os remos. Parecia ter certeza que não me perderia de vista.

Fiquei ali sobre o parapeito fingindo calma. Talvez fosse um cidadão solitário que queria apenas uma prosa, durante o horário de almoço. O senhor de terno e chapéu xadrez, ancorou o barquinho do meu lado e começou a falar.

– Tudo bem? – O homem de uma tez muito branca e de bons traços no rosto, abriu um sorriso com mil dente para mim, saudando-me com o chapéu arrendondado nas mãos. Achei-o muito magro e o vento parecia o atravessar como as velas de uma antiga embarcação.

– Prazer. Tudo bem. Muito calor hoje, né? – Limitei-me apenas a estas palavras, usando do bom comportamento reservado dos mineiros.

– Gostei dos seus contos em 2018.

– Como é? – Respondi como quem encarava um louco. Deduzi que tinha encontrado um destes que perambulam pela cidade, procurando a quem ocupar com suas sandices.

– É sim. Eu gostei. Gostei mesmo. Mas só eu entendi. – O homem formou uma parábola com os lábios, enquanto balançava devagar a cabeça em aprovação. O jeito foi entrar na conversa do cidadão com olhos enormes que lembrava os de Marty Feldman.

– Ah sim. Muito obrigado. Um é melhor que zero. Não é mesmo?

– É sim. Gostei tanto que vou lhe pagar pelos contos. Toma aqui. – O homem enfia a mão no terno e volta a suspendê-la a mim. Quando abre a mão uma moeda de quarter dólar aparece.

– Tome. É sua.

– Obrigado, mas eu não tenho troco.

Ao dizer isso, o homem magrelo explodiu em risadas que espantou passáros, fez peixes pularem e o vento assobiar pelas árvores do parque. Pingos de lavas cristalinas desceram pelo seu rosto e começou a manchar o barquinho com manchas negras como carvão.

– Você é demais. Ninguém faz isso comigo, só você. Agora é a minha vez. Abra sua bolsa.

Boquiaberto com aquele fenômeno, abri minha bolsa e para minha surpresa encontrei dezenas de moedas. Como eu gostava de numismática naquela época, logo pude ver dracmas, denários, conchas, escudos, florins, dobrões e tantas outras mais antigas. Fiquei espantado com aquilo e mudei de idéia sobre aquele homem em pé no barquinho. Talvez fosse um daqueles mágicos. As moedas eram lindas e eu estava encantado por elas quando ele me tirou daquele transe.

– Dá-me este denário. Quem sabe refresca esta tua cabeça.

Dei um denário ao homem e ele me deu o quarter dollar. Quando fui colocar o metal americano com as outras moedas, vi que todas tinham desaparecido. Voltei a olhar para o homem que rapidamente pegou em minha mão como dois cavalheiros fazem quando terminam um trato comercial. E começou a cochichar várias coisas em meu ouvido. Não entendi nenhuma delas. Às vezes, ele parecia falar ao contrário. Noutras as palavras saiam mais pelo nariz afilado. As únicas que entendi foi alguma coisa  em latim, pois todo domingo eu ia na capelinha da Nossa Senhora do Rosário e ouvia o padre rezar as missas na língua morta de Roma.

Ele afastou sua cabeça da minha, mantendo ainda firme nossas mãos atadas. Meu sangue gelava. Uma sensação terrível de deja vú possuiu minha mente. E aquela alegria inexplicável invasiva e rápida, deixava-me aturdido. Que loucura era aquela. Tudo que eu quis naquele dia, foi me distrair e me refrescar nas brisas do parque.

– Você pensa que eu sou louco, né? Mas você é que é. Como consegue? – O homem levantou as sobrancelhas,  mexendo os grandes olhos para lá e para cá, e apontando com o queixo tudo em volta. Sua mão era fria e ossuda. Lembrava galhos de uma árvore. Fez um pedido. – Ajude-me a sair do barco.

Ajudei o cidadão misterioso a sair do barco. Ele não largava minha mão. Começou a falar novamente como que em segredo, movimentando a sua mão livre como um guia em um tour turístico mostrando todo o parque.

– O Demiurgo, meu caro… O Demiurgo. Ele está nervoso. Sobre o manto negro do universo seus pés se agitam, enquanto estrelas desobedientes riem de suas ordens. Seus espectros desesperados cantam roucos sobre almas que não estão querendo mais ouvi-lo.  O Um está feliz, muito feliz…

– Eu, eu…Não entendo nada do que você está falando. – Falei gaguejando, mas senti que algo dentro de mim mentia. Mas não sabia explicar aquilo.

O homem misterioso começou a passar as mãos no terno e a esticá-lo. Tirou o chapéu arredondado da cabeça e fez algumas conferências nele. Deu umas batidinhas com um dos pés calçados de sapato preto. Quando mexeu seu pé, percebi que seu corpo não fazia sombra. Ele notou minha descoberta e mostrou aquela milhar de dentes, falando-me com o olhar diretamente nos olhos.

– E agora? Lembrou do seu amigo de viagem?

– Meu caro senhor, fiz apenas uma única viagem durante este meus 37 anos. Uma viagem de trem até o Espírito Santo para visitar minha tia Martinha. E não lembro de tê-lo visto na estação, no vagão ou seja lá onde senhor deveria estar naquela viagem. – O homem virou seu olhos para cima e fez um gesto com as mãos como quem desiste e se cansa. Ajeitou o chapeuzinho na cabeça e deu uns tapinhas em meus ombros.

– Deixa pra lá. Vou andando. Estou de olho em você para sempre. Mas olha… Ande por ali, vire naquela jaqueira. Quando você chegar lá, um passarinho vai pousar em um banco perto de uma moça. Aí ele vai voar e vai dar uma cagadinha na roupinha ousada Jacques Doucet dela . Vá até ela e a ajude a limpar o vestido com seu lenço e sejam felizes para sempre. – Falou o homem, enquanto ajeitava minha gravata borboleta.

– Vamos nos ver novamente? – Perguntei eu sei nem saber ao certo porque quis perguntar aquilo.

– Ah tá! Mesmo que você não quisesse. Agora tenho que ir cuidar dos outros. Até a próxima. – O homem saiu da minha frente, andando pelo meu lado. Eu me virei para segui-lo com meus olhos e vi que ele se desviou quando o fruto de um ipê foi caindo sobre sua cabeça. É como se ele soubesse o que ia acontecer. Quando o fruto caiu no chão, ele apenas apontou um dedo indicador para o céu, continuando sua marcha elegante para a saída do parque. E ainda pude vê-lo tirando o chapéu e saudando algumas senhoras.

Quando ele sumiu de vista, segurei firme minha bolsa e fui ver o que me esperava depois da jaqueira.

FIM