Contos alucinantes – Manual de Amorcismo ( Parte 1 )

Parte 1


O gato sobe na mesa e faz um pruuu. Para ele, a longa mesa encostada na parede é uma passarela de vários livros em suportes de leituras. Ele anda pelos livros e começa a mordiscar o de capa amarela com uma mão segurando uma flor. Uma mão se estende até a cabeça do gato e o acaricia. O felino sente o afago e aproveita o máximo do carinho do seu tutor. O gato cinza e branco derruba um livro no chão. Ao perceber o que fez, pula para uma janela de vidro fechada e senta no parapeito, olhando para as pessoas que passam lá embaixo. Seus olhos miram como se já tivesse visto todas as pessoas do mundo.
O homem vê seu gato ir até a janela e fecha um livro que estava lendo, cheio de figuras com estatuetas de uma era antiga, mas que ainda se esconde sob a fina camada dos tempos modernos. Um exemplar do Livro das Horas foi resgatado do piso que estava frio, mas não tanto quanto o frio que estava lá fora. É inverno. Ele coloca o livro ao lado do outro mordiscado pelo gato. O livro amarelo é aberto pelas suas mãos e uma página declara:
“Aquele para quem não existe a outra margem, nem esta margem, ou as margens deste e daquele lado, que é destemido e depreendido -, a este brâmane eu chamo”.
O Dhammapada é fechado. As mãos abrem o Livro das Horas e olhos leem no acaso das páginas:
“ Quando eu chamo, respondei-me…”
O smartphone toca. O homem para de ler e ao ver o nome na tela, se apressa em atender.
– Alô… Sim. Tudo bem. E o senhor… Certo. Posso sim… Qual o nível? O médico está presente na casa? Muito bom… Certo. Isso acelera meu traba… Ok. Tudo bem. Pode enviar para o meu e-mail… Sim, senhor. Farei o que for possível.
De repente, o rosto do homem recebe sua mão pelo rosto com a barba por fazer. Sua face mostra uma ligeira contrariedade. O gato continua a olhar para a janela como um vigia. O homem troca o smartphone de lado do rosto e olha para o notebook. Um e-mail chegou com com um link para uma pasta criptografada em um serviço de armazenamento na nuvem.
– Não sei porque vocês insistem nessa idéia. Gosto de trabalhar sozinho. Onde está aquele…como era o nome dele mesmo… Ah. Isso. Se você lembra o nome dele, deve lembrar também o que aconteceu com ele… É… Espero que esteja melhor… Quem? O senhor está brincando? D. Ezébio que recomendou… – Risinhos escondem um nervosismo crescente no homem que segura o smartphone, enquanto ele abre os arquivos no notebook.
– E o outro? Hum… Certo… Certo… Sim, posso recebe-los, mas eles terão que permanecer sob minhas ordens e tenho direito de dispensá-los… O paciente está em primeiro lugar… Sim… Eu sei… Mas já conversamos sobre isso… Mas são poucos que tem cabeça e estômago para este tipo de trabalho. Não, tudo bem. Vou receber os dois…Certo… Tudo bem. Obrigado…Obrigado. Para o senhor também… Sim. Eu enviarei o relatório com todos os detalhes assim que eu terminar o serviço. Tchau.
O homem desliga o telefone e o deixa ao lado do notebook. Começa a ler na tela sobre o caso. A foto de um jovem rapaz de 16 anos está na tela com outros dados. Lê todo o caso. Existe alguns vídeos e os assiste. Percebe que existe algo novo… Algo que não se enquadra nas dezenas de casos anteriores. Sentiu um ímpeto maior. Assiste os videos novamente. De repente olha para o relógio do sistema e percebe que já se passaram 50 minutos, desde o telefonema. O gato parece pressentir o movimento de seu dono e sai da janela, pula para o chão, faz um puurrr e sai correndo para o quarto.
Uma vida de 56 anos se ergue da cadeira e sai em direção ao banheiro para fazer a barba. Logo as visitas chegarão. É preciso arrumar também os instrumentos do ofício. Antes de chegar ao banheiro, vê seu gato na cama. Olha para ele e o gato devolve o olhar mexendo devagar as pálpebras. Por um momento ele teve a impressão de ter visto as pupilas do gato se contraírem em slow-motion.
Túlio molha o rosto em frente ao espelho que revela suas rugas. Ele sorri para o espelho e vê o mesmo homem de 25 anos atrás. Se lembrou do primeiro caso. Foi em um bairro humilde de Roma. Logo viu que do seu jeito seria bem melhor. Mas quanto problema isso lhe causou. Mas…Os pacientes… Sim, ele chamava de pacientes e não da maneira como aprendeu na escola do vaticano. Os casos eram resolvidos com um sucesso admirável. Um sucesso que lhe custou um processo. Mas hoje, eles é que o procuram e seu método não é questionado.
Metade do rosto livre dos pelos. Quando começa o outro lado, a campainha da porta do apartamento toca. Deve ser as visitas. Vai para a porta e olha pelo olho mágico. Destranca a fechadura e vê duas pessoas em sua frente.
Um homem vestido de preto, blazer e clerical ao lado de um mais jovem de tênis, jeans e camisa casual e jaqueta com uma letra grega pendurada no pescoço. A cena não poderia ser mais díspare. Túlio pede para que entrem no apartamento e ambos passam ao lado de um homem vestido de moleton com uma camisa surrada e com meias nos pés.
-Quem é o pe.Clécio e quem é o Roberto? – Pergunta Túlio.
-Eu sou o Pe. Clécio Pereira, Ordem dos Pregadores. – Responde o homem de preto, estendendo a mão para Túlio que por sua vez limpa a mão na camisa e aperta a do padre. Durante a saudação, Túlio vê que a outra mão do padre segura uma maleta.
-Prazer. E você é o Roberto. Tudo bem? – Falou Túlio apontando o dedo para o jovem que mostrava alguns riscos de suor na testa. O rapaz abriu um sorriso e recebeu a mão do Túlio com as duas mãos. O rapaz parecia um calouro e carregava uma mochila nas costas.
-Sim, eu sou o Roberto. Sou postulante no Convento da Redenção dos Frades Menores. Muito prazer.
-O prazer é todo meu, Roberto. Eu preciso terminar de fazer a barba. Querem água, café…
-Água seria uma boa. – Falou Roberto com um rosto que confessava sua sede, através dos pingos de suor que minavam de sua cabeça.
-Fique a vontade. Pode ir ali na geladeira e sirva-se. – Túlio apontou para a cozinha no estilo americano.
-Eu estou bem assim. Posso me sentar? – Pe.Clécio deu um sorriso sério e falava com os jeitos dos tribunais.
-Ah sim. Claro. Pode se sentar. Não vou demorar. – Enquanto o padre dava as costas para Túlio, ele se sentiu novamente no Vaticano e teve uma péssima sensação. Aquele homem mais atrapalharia do que ajudaria seu próximo paciente. Conhecia bem aquele tipo. Começava a desconfiar o motivo de sua presença. Mas ficou tranquilo, pois afinal de contas, não era funcionário do Vaticano e quem estava no comando era ele. E era ele que estava prestando um favor a D.Ezébio e não o contrário. Olhou para cozinha e viu o jovem terminando de beber o copo d’agua. Já tinha simpatizado com aquele. A situação não era de todo ruim. Talvez D.Leandro tenha enviado alguém que valesse a pena.
Túlio desapareceu pelo corredor e voltou ao banheiro. O padre estava sentando no sofá da sala com as pernas cruzadas e não mostrava muito interesse por Roberto que saiu de trás da cozinha americana, mirando os quadros pendurados na parede. As paredes seguravam cenas estranhas de seres antropomórficos. Outros de aparência terrível pareciam dançar em nuvens negras, outros em fogo. Anjos e demônios em lutas. Homens e mulheres com aros dourados em torno da cabeça a acenar com as mãos para pessoas de aparência retorcida.
Em outra parede da sala viu um homem que parecia com o Túlio em várias fotografias com pessoas de todos os tipos. Pareciam sacerdotes de religiões de toda parte do mundo. Inclusive viu uma foto do próprio Túlio com uma saia gigante em chapéu de pelo, girando com outros vestidos da mesma maneira.
Os olhos de Roberto foram para as estantes de livro e viu algo que chamou sua atenção. Se agachou em um dos móveis e viu uma coleção colorida de HQ’s e Mangás. Conhecia algumas edições e quando tentou puxar um exemplar, ouviu os passos de alguém que aproximava. Sentiu uma vertigem e caiu no chão.
-Ô… Que é isso assim? – O homem estende a mão para o rapaz sentando no chão e meio sem graça. Roberto aceita ajuda e é erguido. Quando se levanta começa a falar
-Seu Túlio. Eu também uma coleção dessas.
-É mesmo? Talvez seu conhecimento literário seja de grande valor para ajudar nosso paciente. Inclusive eu gostaria de fazer algumas observações prévias. – Neste momento, Túlio e Roberto notaram o pe.Clécio que estava na cozinha cuspindo alguma coisa e lavava a boca na pia.
-Algum problema, pe.Clécio?
-Este café… Parece tinta de caneta… – O padre continuava a levar água para a boca.
-Embaixo…Aí no armário… Tem um um bule e filtro. Você pode fazer seu próprio café se quiser.
-Não…Tudo bem. – O padre continua a lavar a boca. Túlio e Roberto se olham como se entendessem toda a situação. O padre ajeita sua roupa e confere o clerical em um espelho da cozinha e retorna para a sala, onde os outros dois o aguarda. O homem de preto chega perto deles, fazendo um barulho com seus sapatos que incomodariam o teto do inferno.
-Muito bem. A primeira coisa é que vocês precisam usar isso aqui. – Túlio tira de uma sacola duas fraldas geriátricas. – Vocês podem ir lá no banheiro se vestir. Mas por favor não demorem.
-Roberto olha para as fraldas desconcertado e pe.Clécio expressa uma indignação que lhe abre os poros.
-Perdoe-me a franqueza, mas eu não vou vestir isso. É algum tipo de brincadeira? Por que se for eu considero isso algo muito desrespeitoso.
-Pois então, o senhor perdoe a minha franqueza, caro pe.Clécio, de lembrar-lhe que eu sou o doutor aqui. E sei muito bem que tipo de trabalho é este e o que pode acontecer. Se o senhor não quer vestir, o problema é seu. Mas em outras situações ou o senhor obedece as minhas recomendações ou vou pedir que deixe-me conduzir o meu trabalho sem me ocupar com sua presença. Quantas vezes o senhor fez este tipo de trabalho?
-Será minha primeira vez. Acabei de terminar o curso pela pontifícia universidade de Santo Afonso de Ligório. – Falou o padre que tentou conter sua raiva com o orgulho de sua formação e impor respeito a Tulio, apontando para um lugar que ele conhecia muito bem.
-Meus parabéns. Então você vai me fazer um favor. Enquanto você estiver comigo, jogue fora todos os manuais e todo aquele teatro que você aprendeu lá. É do meu jeito ou o senhor esta dispensado.
O padre cerrou um pouco seus olhos e balançou vagarosamente a cabeça para Túlio. Queria utilizar todo o direito canônico contra o homem bem na sua frente que estava vestido de calças jeans, blusa branca, jaqueta e tênis azul listrado nos pés com um boné e óculos esportivos. Mas sabia que aquilo não teria nenhum efeito sobre ele. E o próprio Euzébio pediu para ele paciência diante da ousadia e petulância do excomungado “doutor das almas”.


Roberto assistiu aquela desconfortável cena e sem falar nada, apenas pegou uma das fraldas e foi apressado ao banheiro, balançando a letra grega no pescoço e sacudindo a mochila. Para aliviar a tensão, pe.Clécio questionou Túlio, fingindo bonança.
-E sua maleta?
-Eu não preciso disso. Não funciona comigo. Para mim estes ritos são mais um espetáculo, um teatro do que um tratamento eficiente que possa ajudar um paciente. Se você conhecer alguém interessado, diga que tenho uma nova com todos os itens e paramentos. Usei apenas uma vez e foi a maior lambança. – Túlio percebeu pe.Clécio morder sua mandíbula com força. Sentia a ortodoxia do padre sangrando pelos olhos deles.
-D.Ezebio deve ter me apresentado a você. Deveria saber que tipo de pessoa está na sua frente. Não era para você ficar surpreso. E imagino como ele narrou a você todas os adjetivos que fazem de mim o que sou, das quais muito me orgulho. Saiba que alguns casos o martelo de Thor pode ser mais útil do que um Malleus Maleficarum. Estou aqui para ajudar as pessoas e não fazer jograis com demônios. Então, enquanto você estiver sob minhas ordens, você não vai abrir esta maleta. Estamos combinados?
-Estamos. – Pe.Clécio responde seco e jurando vingança em silêncio a Túlio.
Roberto volta do banheiro todo esbaforido e avisa que está pronto. Túlio mostra a Roberto que também está vestindo uma fralda e o jovem se sente menos ridículo. Na rua pensariam que Túlio e Roberto seriam dois pops seminaristas seguindo seu superior vestido todo de preto. Mas como dizem, o hábito não faz o monge.
– E aí Roberto, você assinou o documento? – Túlio pergunta apontando para Roberto que acena positivamente com a cabeça e tira a mochila das costas para mostrar o papel rabiscado com suas letras que estava guardado em uma pasta.
– E o senhor, pe.Clécio?
– Sim, está assinado.
– Então vocês estão cientes que o que vão presenciar é altamente confidencial. E espero que assumam as implicações disso.
O homem de preto e o jovem guardando novamente o papel na mochila responderam com um sim, acenando suas cabeças. O selo no documento falava por si. As formalidades das cláusulas disfarçavam as punições para os que faltassem com os compromissos assinados.
Túlio olhava para Pe.Clécio e ficava se perguntando porque o instituto permitiu a presença dele, sabendo de toda a sua história pessoal com o vaticano, suas peculiaridades naquele tipo de trabalho e o que ele pensava sobre gente como ele. Apesar de trabalhar de maneira independente, a pessoa do outro lado do telefone era a única que conseguia fazer Túlio ceder. Provavelmente mandou o garoto franciscano como se fosse para contrabalançar a situação e conseguir a tolerância dele. E o homem do outro lado da linha estava certo, pois Túlio simpatizou com o rapaz.
– Nós vamos para uma casa no bairro Sion. Vocês devem ser discretos e não tomar nenhuma iniciativa se eu antes não permitir. Entrem na casa como se estivessem pisando no mais sagrado dos templos. Não expressem sua crença e respeite as dos moradores. Diante de algum inconveniente inerente a este tipo de trabalho, façam imediatamente o que eu ordenar. – Túlio falava como um militar que instrui os seus soldados antes de começar alguma missão. Pe.Clécio era bem mais alto do que ele e curvava a cabeça para Túlio, pois apesar do modo determinado, ele falava baixo como se as paredes estivessem ouvindo algo que não poderiam ouvir. Roberto era da mesma altura de Túlio e ele acenava positivamente a cada palavra dele, mas escondia as mãos nos bolsos, tentando manter suas mãos secas da transpiração.
– Vocês têm alguma pergunta antes de sairmos?
– Seu Túlio, posso beber mais um copo d’agua antes de sairmos? – Roberto pergunta a Túlio, levantando o dedo indicador como se estivesse em uma sala de aula e tivesse pedido permissão para perguntar.
– Oh…Claro. Enquanto isso, vou só colocar mais algumas coisas na mochila. E você Pe. Clécio?
– Estou pronto. Podemos ir. – Pe.Clécio, responde da maneira habitual piscando lentamente os olhos e mantendo a lividez de seu rosto.
Túlio tirou a mochila das costas e foi em direção a mesa perto da janela onde estava seu notebook. Colocou o computador na mochila e pôs a bolsa novamente nas costas. Foi para o quarto e olhou para o gato que continuava na cama parecendo uma esfinge.
– Não vai me dar um tchau? – O gato olhou para um quadro pendurado na parede com um ser com rostos múltiplos em chamas e voltou a olhar para Túlio.
Túlio riu do gato, mas entendeu o motivo do felino se precaver no quarto. Voltou para a sala e quase esbarrou em Roberto saindo da cozinha.
– Precisa de mais alguma coisa, Roberto?
– Não senhor.
– Então simbora!
Túlio estava curioso com este caso. Estava empolgado. Viu alguma coisa fora do padrão e isso significava algo novo a ser aprendido. Mas ele não esquecia que o mais importante em seu trabalho era livrar a pessoa daquele sofrimento e conduzir a melhor situação para todos os envolvidos.
Ele pegou as chaves do carro em uma porcelana, abriu a porta do apartamento para seus acompanhantes e a fechou quando estavam todos no corredor do prédio. Seguiram em direção ao elevador com os passos dos sapatos do Pe.Clécio incomodando todos os deuses do hades e os tênis listrados de Túlio e Roberto pedindo desculpas aos mesmos deuses pelo pés do homem de preto.

*****

O carro entrou na rua Terra Nova, número 1160 diante de um portão que se abriu tão logo o carro estacionou em frente. Um vigilante em uma pequena guarita pediu para os visitantes seguirem a estrada que logo chegariam na casa.
A estrada de paralelepípedo atravessava um bosque. Túlio percebeu um olhar interrogativo em seus acompanhantes.
-Fiquem sabendo que este tipo de coisa é muito democrática. Já estive em choupanas e palácios. Eles não se importam com o valor econômico das pessoas.
O carro chegou em frente a uma fonte que servia de rotatória em frente a mansão. Fazia frio. Os três saíram do carro e um servo uniformizado estava na porta. O homem tinha os olhos inchados, mas sorria para os visitantes e expressava pressa para eles. Entraram em uma ante-sala e o servo pediu para aguardarem.
– Estão sentindo algo no ambiente? – Perguntou Túlio aos seus dois acompanhantes.
– Sinto com se uma sombra maligna cobrisse essa mansão. Parece que a minha pele ficou carregada de eletrostática, desde que chegamos aqui. Imagino que tipo de demônios tomou posse dessa família.
– E você, Roberto. Sente alguma coisa?
– Desculpe, seu Túlio. Pra falar a verdade, eu não sinto nada. A não ser um pouquinho de frio. Mas sou novato, não tenho o treinamento que você e o Pe.Clécio tem.
– Não se preocupe, Roberto. Eu também não estou sentindo nada. E isso é… Digamos… Diferente.
O pe.Clécio sentiu todo o sangue de seu corpo ferver e latejar as veias de sua cabeça. Sentiu-se humilhado e mentiroso. E de fato estava sendo as duas coisas. Mas ele tinha sido avisado por Túlio que aquele trabalho não era baseado em romances a la William Blatty.
Não demorou muito e um homem com um cigarro na mão veio em passos rápidos, levantando a mão antes mesmo de se aproximar de Túlio.
– Prazer em conhecê-lo, Túlio.
– O prazer é todo o meu. O senhor deve ser Humberto, pai de Alberto.
– Eu mesmo. Disseram-me que apenas o senhor pode tratar dessa situação. Já tentamos tudo que a medicina e psicologia podem oferecer e também outras alternativas e nada deu certo.
– O médico responsável pelo rapaz ainda está na casa?
– Sim. Está com minha esposa na sala. Por favor, sente-se um pouco conosco.
– Prefiro ir direto ao Alberto se o senhor me permite. Quanto mais cedo começarmos o tratamento, melhor.
– Acha que meu filho irá voltar a ter uma vida normal?
– Certamente. Nunca falhei.
O homem meio calvo e bem vestido com um blazer chumbo risca de giz, camisa azul e calça preta, levou o cigarro para a boca com a mão meio que tremendo, tentando evitar as lágrimas que já tinham enchido as órbitas de seus olhos.
– Apague o cigarro, enquanto eu estiver aqui. Por favor. Isso me atrapalha. Vamos para a sala e começar. Tente ficar tranquilo a partir de agora, tudo bem? – Túlio falou gentilmente para o homem calvo que concordou e os levou para a sala. Era um homem poderoso, responsável por vários empreendimentos em Minas Gerais e de grande influência na sociedade mineira. Mas Túlio naquele momento, apenas viu um homem carcomido pelo sofrimento e falta de esperança. O filho era único. Ele sabia que pessoas como Humberto, pensam que este tipo de coisa nunca acontece com eles. E quando acontece é como uma árvore gigante, caindo bem devagar e esmagando tudo em sua volta.
Entraram na sala e Túlio foi imediatamente até a esposa de Humberto, D.Nara. Disse algumas palavras de consolação para ela. Trocou algumas palavras com o médico e confirmou a leitura do relatório dele, elogiando a preocupações com os detalhes. Pediu em seguida para que chamasse todos os funcionários da casa para que ouvissem suas recomendações.
Este era seu método. Fazia o máximo para retirar todo o clima de luto e drama. Mesmo se o relatório indicasse um caso difícil, Túlio acendia alegria nas pessoas envolvidas com o paciente, através de uma voz gentil e alegre.
– Estão todos os da casa reunidos aqui na sala? Muito bem. É… Bom.. Mantenham-se aqui o máximo que puderem, enquanto estou com o Alberto. Aconteça o que acontecer, não venham até ele, se eu não pedir. Isso é importante. Se isso faz vocês se sentirem melhor, podem rezar de acordo com a crença de vocês, mas em silêncio. Seu Humberto, avise ao vigilante para não deixar ninguém entrar, até que eu termine. Algum problema com isso?
– Não, nenhum problema. – O homem calvo foi para um telefone na sala e imediatamente passou a ordem.
– Agora sentem-se no sofá, enquanto eu faço algumas coisinhas aqui. – Túlio tira a mochila das costas e retira de lá de dentro uma pequena caixa de madeira. Acena para Roberto que se levanta logo e vai em sua direção.
– Segure a caixa e mantenha ela aberta. Ande comigo do meu lado direito, seguindo meus passos.
O rapaz abre a caixa e vê 5 pedrinhas verdes meio que em estado bruto sem sinal de lapidação. Túlio pega uma pedrinha e vai para um canto da sala, concentrado como se estivesse em algum tipo de liturgia. Deixa a pedrinha em cima de uma mesinha. Vai para outro canto e deixa outra pedrinha. E assim mais três vezes, até que na última pedrinha ele anda de costas com Roberto, se afastando em direção ao centro da sala, como se tivesse acionado uma bomba. De repente, um susto.
Na janela da sala, um pardal pousa no parapeito e canta alto disparadamente. A pequena ave fica se sacudindo e arrepiando suas penas. Aquilo gerou uma comoção em todos na sala e até o pe.Clécio abriu seus beiços frios com olhos espantados diante daquilo.
– Como é que você faz isso? – Roberto perguntou baixinho para Túlio, tão surpreso quanto os demais.
– Estas pessoas precisam de esperança e eu preciso que elas confiem em mim. Você está com suas fraldas secas?
– An? Ah sim… Secas. Por que?
– Bom. Porque talvez ainda precise delas. Isso aí é a parte bonitinha de quem quer entrar neste ofício. Pode ser que você testemunhe as partes feias. Eu torço para que não aconteça…Mas… E aí, meu irmão… Se você quer fazer o que faço, preste muita atenção em mim e aprenda. – Túlio se vira com um sorriso para os que estão na sala.
– Todo mundo, permaneçam entre as pedrinhas que estão na sala o máximo que puderem. Se o pardal for embora, avisem daqui mesmo para mim, bem alto para que eu ouça. Conversem o mais baixo possível e não mexam com o pardal. Deixe ele voar, pular pelo chão da sala… Se ele pousar em vocês não tenham medo. Ele não está aqui de enfeite. Agora eu vou subir com o Roberto e pe.Clécio. Logo, logo vai ter uma festa das boas aqui. Alguém vai descer com uma fome voraz. Me dá licença Seu Humberto?
Seu Humberto não falou nada, apenas acompanhou Túlio até ao começo da escada com o rosto úmido pelas lágrimas, mas feliz. Os 3 homens começaram a subir as escadas. Pe.Clécio ia por último, com a maleta batendo nas pernas a cada passo dos seus sapatos despertador dos infernos. Para cada toc toc daqueles sapatos, Túlio repetia um mantra para se livrar deles.

Continua…