A Verdade sobre Lilith ( Parte 1 )

 

Este conto é uma adaptação e troquei nomes e lugares para não identificar seus verdadeiros personagens.

A muito tempo atrás, seguia em num ônibus e em uma das paradas de pontos, vi uma faixa num prédio que dizia o seguinte: Clube Judaico Shalom Israel. Abertas inscrições para Curso de Gematria. Como gostava do assunto e tava com o tempo, decidi descer no próximo ponto de ônibus e voltei ao anterior, onde estava o clube e coletar informações.

Entrei no prédio e fui a um balcão na portaria, onde tinha duas jovens garotas. Uma delas me atendeu e me deu as informações sobre o curso. Quando ela me disse os custos para aprender gematria, vi que não teria como pagar. Agradeci o atendimento e fui guardando os panfletos na mochila que recebi da moça e indo embora, quando um homem sentado em uma cadeira, dessas que as pessoas sentam para aguardar sua vez de ser atendido, fez um “ei” pra mim e me chamou.

– Quer aprender gematria? – Ele apontou a cadeira ao lado dele, convidando para que eu sentasse, enquanto mexia em um smartphone. Sentei ao seu lado. O homem era deveras gordo e mantinha as pernas abertas por força da barriga. Tive que juntar minhas pernas para que meus joelho não tocasse o dele.

– Sim, eu quero. Mas o curso é caro.

– Hadassah, traz um papel e caneta pra mim, por favor.

A moça que me atendeu saiu de trás do balcão e fui rápida atender o homem velho e barrigudo. Ela atendeu o pedido do homem com um sorriso e ficou próxima de nós, esperando atender mais algum favor.

– Vá até a este endereço, neste dia e horário. Lá você vai aprender Gematria sem precisar pagar pelo curso.

– Obrigado. – Agradeci ao homem olhando para o papel que ele me deu . Ele se levantou, disse obrigado à tal de Hadassah e saiu em passos firmes apesar de todo aquele peso. Vestia uma camisa branca, calças cinzas com sapatos pretos e suspensórios que decoravam suas costas encurvadas.

– Você sabe quem é esse homem? – Hadassah me perguntou.

– Nunca o vi. Isso é algum tipo de pegadinha? – Disse a ela mostrando o papel com o endereço.

– Não é não. Aquele ali é o dono das lojas Trabelesh. Seu Aaron Aryeh.

– Você tá de brincadeira?

– Tô falando sério. – Hadassah foi andando de volta para o balcão e eu fiquei olhando para porta do clube meio abobado. As lojas Trabelesh estavam em todo território nacional. Era umas dessas lojas que vendem de tudo: móveis, eletrônicos, eletrodomésticos, roupa, cama, mesa e banho. O homem devia ser milionário.

Quando voltei pro ponto de ônibus. Um carro passou e alguém no banco de trás, acenou pra mim. Era Aaron Aryeh indo embora em um carro com motorista particular.

No dia combinado fui para o endereço que sr. Aaron Aryeh me deu. O bairro era daqueles de gente com muito dinheiro, muros grandes e casas espetaculares. Cheguei no número 5325. Um portão largo de aço, entre muros cobertos de unha de gato. Toquei o interfone e porta menor ao lado do portão maior se abriu. Entrei e dei de cara com uma guarita. Ouvi um som de uma descarga de sanitário. De repente aparece o sr. Aaron Aryeh com papel toalha entre as mãos, enxugando os dedos, olhando para mim como pra ver se era eu mesmo.

– Aqui seu Aaron, pode jogar o papel aqui neste cesto. – Falou o homem saindo da guarita e levando um cesto destes de colocar lixo de escritório. Aaron se virou para um homem enorme vestido de roupa de segurança patrimonial. Jogou o papel no lixo, ajeitou a calça e suspensórios e veio em minha direção com um sorriso.

– Você demorou. Fiquei esperando você aqui no portão e tive que ir ao banheiro. Desculpe.

– Desculpe, sr. Aaron Aryeh. Mas eu nunca tinha vindo aqui nesse bairro. Sou uma pessoa muito pontual, mas do ponto de ônibus até aqui demorou 20 minutos. Foi uma andada boa.

– Desculpe então. Da próxima vez mando meu motorista buscar você.

– Vamos parar de dizer desculpas um para o outro, sr. Aaron Aryeh. Mas eu aceito a carona do seu motorista.

Então Aaron Aryeh me convidou para ir à casa dele. Caminhamos conversando entre árvores que margeavam uma estradinha que levava até uma moderna casa. Um Welsh Corgi Pembroke nos acompanhava, o que me divertia muito.

 Aaron fazia comentários sobre a casa que estava a nossa frente, me apresentou empregados e uma de suas filhas. Dizia que era a que sobrou, pois todos os outros 3 filhos já tinham se casado. O cachorro com patas nanicas foi para uma mulher jovem na casa dos seus 30 anos. Naamah era o nome da filha. Tinha cabelo curto, preto, umas tatuagens no braço. Estava de saia relativamente curta. A mim não pareceu uma moça tradicional da cultura judaica. O que vim confirmar mais tarde, pois existe ainda muito preconceito sobre o povo judeu. A moça me olhava desconfiado, mas me recebendo bem. Logo ela desapareceu com o cão atrás dela, subindo em uma escada e entrando em um corredor que eu imaginava ser dos quartos.

Passei um bom tempo com Aaron Aryeh conhecendo a casa dele. Nossa conversa era tranquila como se fossemos amigos de muito tempo. No final do nosso encontro, estávamos na biblioteca da casa.

– Então, Jonas. Você vai precisar comprar este livro, este aqui também. Um dicionário desse também é importante. Acho que pra começar é isso.

– Seu Aaron Aryeh. Tô sem condições. Naquele dia que nos encontramos, eu estava vindo de uma entrevista de emprego. Tô sem grana e não recebi nenhum retorno da agência de emprego. – Seu Aaron, olhou para mim, passou uma das mãos no rosto e foi até um notebook na mesa da biblioteca. Perguntou meus dados pessoais. A impressora funcionou e ele veio até a mim.

– Você disse que mora no bairro Trobolopolis, não é?

– Isso mesmo.

– Conhece uma loja que eu tenho lá?

– Não tem como não conhecer, é enorme. Os ônibus do bairro passam lá.

– Muito bem. Apresente estes papeis lá na loja. Você vai trabalhar no estoque. É um trabalho fácil e já escrevi alguns detalhes sobre você. Você vai passar o dia subindo e descendo o elevador. O dinheiro vai ser o suficiente para os livros que precisa e ainda vai ganhar bônus e outras vantagens.

– Muito obrigado, seu Aaron. – Falei com os olhos úmidos e com sorriso enorme.

– Você agora é meu empregado e aluno, mas acima disso somos amigos. E é bom ter alguém de confiança em minhas lojas. Vou pedir para meu motorista levar você pra casa.

-Obrigado pela confiança. Mas acabamos de nos conhecer.

– Jonas, tenho 75 anos e a vida já me ensinou o suficiente sobre as pessoas. Apenas aceite.

Saí da mansão do sr. Aaron Aryeh, sentindo-me como se tivesse ganhado milhões na loteria. Cheguei em casa, contando os detalhes para minha família e todos ficaram entusiasmados.

Mais tarde, quando eu já estava para dormir, recebi um telefonema. Um número que nunca tinha visto. Atendi e uma voz feminina perguntou se era realmente o Jonas que realmente estava. Falei que sim.

– Aqui é a Naamah. Vou ficar de olho em você Jonas. – Eu ouvia a respiração da filha de seu Aaron Aryeh. Parece que tinha corrido e feito a ligação.

– Olha, seu pai é que me chamou para ir até sua casa. Nada mais quero dele do que ele me ofertou. Tenha certeza disso.

– Meu pai não chama qualquer um para a casa dele. Você tem ideia de como ele conseguiu tudo que ele tem hoje?

– Sou um rapaz de periferia, mulato… Você acha que vou roubar algo de… – Fui interrompido bruscamente pela garota que falava mais firme.

– Isso não me interessa. Mas atenda as expectativas dele… E as minhas. Entendeu? – O telefone foi desligado. E fiquei com aquele enigma na cabeça. O que será que ela quis dizer com “expectativas”.

Os meses foram passando e eu recebendo as aulas na mansão de seu Aaron Aryeh e trabalhando na loja dele. Um mundo se abriu diante de meus olhos com o estudo da Gematria. E Aaron Aryeh ficava entusiasmado com minhas perguntas e minhas opiniões não somente sobre o assunto, mas sobre quase tudo. Ele era um homem de mente aberta e pronto para mudar de idéia ou aprender coisas novas. Eu por minha vez me sentia  honrado de estar sendo educado por ele.

Naamah nunca me explicou sobre aquela ligação e eu nem tão pouco quis mostrar nenhuma curiosidade sobre o assunto. Eu imaginava que ela tinha ciúmes de um estranho e não judeu na casa dela. Várias vezes eu chegava na casa deles e a encontrava no sofá da sala, lendo algum livro. Eu apenas a saudava e seguia para o escritório do pai dela. Mas sentia que seus olhos acompanhava cada passo meu. Um dia fiz o que sempre fazia quando a via no sofá, mas antes de entrar no corredor que dava acesso ao escritório, virei rapidamente e flechei meus olhos nos dela. Ela sentiu um tremor e deixou escapar um pequeno sorriso que foi seguido de careta, disfarçando a surpresa. Acho que ela entendeu meu recado.

Mas o mais importante vem agora. Foi quando eu já estava na cama e meu smartphone tocou. Eram 23:15. O número não estava registrado na agenda do telefone. Atendi a ligação.

– Alô.

– Alô Jonas. Aaron Aryeh falando. Meu motorista está lá fora lhe esperando. Preciso conversar com você. Se arrume com calma, mas venha. Estou lhe esperando.

– Sim, senhor. Já estou indo. – O ligação caiu e apenas obedeci as ordens do chefe. Pensei de imediato que era sobre alguma coisa na loja e meu preocupei. Alguns funcionários tinham inveja de mim e criavam problemas. Mas como o gerente era tão amigo de Aaron Aryeh quanto eu, tudo era bem explicado e sempre favorável a mim. E eu também não dava motivos para que meus chefes pensassem o contrário. Mas dessa vez, talvez algo de sério aconteceu.

Então cheguei na mansão e fui entrando esbaforido. Naamah estava do lado de fora, ao lado da porta de entrada, encostada na parede. Olhava para as árvores que faziam uma orquestra com a maestria do vento. Não me olhou, apenas disse para mim quando fui entrando.

– O velho está triste e gosta de você.

Olhei para ela esperando que dissesse mais alguma coisa, mas ela não disse mais nada. Então entrei na casa e segui em passos rápidos. Uma das empregadas falou que Aaron Aryeh estava na biblioteca e para lá fui.

Ao chegar lá, encontrei duas estantes de livro afastadas da parede. Eram na verdade portas para um cômodo grande e lá no fundo estava Aaron Aryeh, sentado em uma mesa. Ele me chamou e pediu para sentar em uma cadeira em frente a ele. Rapidamente vi que as paredes da sala estavam cheias de fotos e certificados. Tinha coisas escritas em inglês, árabe, hebraico. Fotos dele jovem, com terno, com rabinos, com imãs e outros tipos de sacerdotes. Tinha também stands com peças que pareciam de muito valor histórico. O lugar parecia um museu particular.

-Aconteceu alguma coisa de errada na loja? – Perguntei afobado assim que me sentei.

– Hã, não Janbalon. Nada aconteceu. E se acontecesse, sei que não seria de sua responsabilidade. Alias, ao contrário. Depois mostro a você um gráfico de como esta nosso lucro na loja, depois que você foi contratado. – O velho levantou a sobranceira expressando satisfação.

– Então é alguma coisa com o senhor?

– Tenho que lhe contar uma estória. Vai parecer absurda, mas preciso passar a você. Mas você deve manter segredo, até chegar o dia que você sentir que deve contar a quem você acha que deve contar.

– E qual é a estória?

– É sobre Lilith.

– Hum… Certo. A lenda da mulher de Adão. A que veio antes de Eva e que não foi obediente…

– Sim…Sim… Isso você já sabe e todos sabem. Eu não chamaria você aqui assim pra me repetir o que eu mesmo te ensinei.

– Então o que não sei?

Aaron juntou as mãos no meio das pernas, se inclinou pra baixo e olhou alguns segundos para o chão. Parece que pensava se como deveria começar. Ele apenas suspendeu a cabeça esticando o pescoço e olhou com olhos brilhantes para o teto.

– Existe vários relatos sobre a criação. E um dia, eu sonhei com este que vou lhe contar. Por favor, apenas me ouça. Você não é obrigado acreditar em nada.

– Sim senhor…Pode falar – Eu balançava a cabeça afirmativamente ansioso para escutar o velho.

– Antes de Eva, houve Lilith. E nosso mundo seria diferente com ela. E o mundo foi injusto com ela. Preste atenção no que vou lhe contar.

Deus criou o mundo e o mundo era maravilhoso e perfeito. E Deus no 7º dia descansou apenas para contemplar sua criação. Entre todas as criaturas, criou Adão e Lilith que eram a sua imagem e semelhança. E este primeiro homem e esta primeira mulher no Edén, eram como peixes em um aquário para Deus. E Deus subia a montanha para se gabar e contemplar sua criação. E até fazia um passeios pelo Éden. Era tudo perfeito. Ele criou para que tudo ficasse do que jeito que estava como você pode ler lá na  Torá.

Um dia Deus estava no alto da montanha, contemplando sua criação, quando de repente apareceu Lilith caminhando na sua frente. Ela se ajoelhou diante de Deus, disse alguns louvores, levantou-se e começou a reclamar.

Então Lilith começou a interrogar a Deus sobre a criação. Perguntou porque determinados animais foram criados daquela maneira e sugeriu melhorias. Mostrou a Deus a horta que fez perto da caverna, onde ela e Adão se abrigavam. A criação de galinhas. Os cestos onde guardava as frutas e legumes. Deus ficou pasmo quando viu uns rabiscos nas cestas. E Lilith disse que os traços eram para saber quantas unidades de tal coisa tinha em cada cesto. Mostrou a Deus nas margens do rio Tigre, os tijolos que estava fazendo para construir uma casa, pois estava cansada de morar naquela gruta e queria algo mais descente. E assim foi falando Lilith empolgada e sugerindo mais e mais coisas a Deus.

– Lilith, e Adão? O que ele acha disso tudo.  – Perguntou Deus já com uns pingos de suor diante da falação de Lilith e se sentindo pressionado.

– Adão só fica apontado o dedo pros animais e dando nomes a eles. Mais nada. – Falou Lilith desdenhando do seu parceiro.

– Ele já viu essa horta, esses tijolos? Você conversou com ele sobre essas coisas que você me falou?

– Com Adão? Nada. Ele não se importa.

– Certo… Certo. Bem, Lilith. Eu tenho uma proposta a você. – Deus falava batendo os dedos das duas mãos e meio que pensando como se safar daquela situação. Ele sabia onde aquilo ia dar. Sua Criação era perfeita. No sentido que era apenas um deleite para os olhos e não queria que nenhuma das criaturas fizesse mudanças. Tão pouco queria Deus qualquer tipo de concorrência.

É verdade que Adão e Lilith se pareciam com Ele. Mas eram apenas como bonecos para sua diversão. Agora aquilo. Alguma coisa aconteceu em Lilith. Daquele jeito, logo Deus teria uma concorrente em sua Criação.

-Uma proposta? Qual seria? – Lilith se sentou em uma rocha, cruzou as pernas e começou a olhar diretamente nos olhos de Deus. Parecia uma executiva em uma reunião de negócios e pronta para barganhar alguma vantagem ou mesmo rejeitar algo que não lhe agradasse. Deus não gostava daquele jeito da Lilith. Não era para ser assim.

– Vou lhe dar um Universo.

– Um Universo? Como assim?

-É sim… Bom. Antes de vir para este, eu estava construindo outro. Parei no meio do caminho, existia algumas coisas que precisariam de mais tempo para serem feitas. Aí olhei para esse lado de cá e vi que conseguiria fazer tudo que eu queria em 7 dias.

Eu vou lhe dar poderes iguais os meus. Vou te enviar para esse universo que lhe falei. Com sua criatividade, logo você terá uma criação tão bonita quanto a minha. Imagine Lilith, se sendo assim, você já fez tanta coisa…Como deusa vai ser a coisa mais linda. Mas tem uma condição.

– E qual seria? – Lilith continuava de pernas cruzadas, mas agora os olhos brilhavam e continha um sorriso.

– Você não pode vir ao meu universo. Eu fiz essa criação desse jeito e assim vai ficar. E o Adão fica. Não é tão fácil fazer um de vocês e ele tá do jeito que quis. Então é este o negócio. Você vai para este universo, faz nele o que der em sua cabeça e me deixa em paz no meu. Você topa?

Lilith não respondeu de imediato. Pensou em Adão. Afinal de contas era um bom parceiro, apesar de ser meio tapado. E era gostoso dormir com ele. Mas por outro lado, ser uma deusa e ter seu próprio universo era uma proposta incrível. Se não aceitasse aquela proposta agora, talvez Deus não mais oferecia. E vai que ela continuasse a futucar na criação de Deus e ele ficasse furioso e exterminasse com a raça dela. Sabe como são os deuses quando estão irritados. Ao chegar neste ponto, já tinha esquecido de Adão e aceitou a proposta dele.

Então Deus disse para ela se levantar diante Dele. E Deus lembrou novamente o acordo que ambos estavam fazendo. E Lilith fez um juramento que não mexeria mais nos negócios de Deus. Mas por outro lado, Lilith fez com que Deus jurasse que ele não iria mexer no universo dela. Deus concordou. E Deus fez de Lilith uma deusa e a despachou para outro universo. E Deus vendo que aquela criatura ousada e desafiadora não estava mais na sua frente, respirou fundo e aliviado e voltou a curtir sua criação. Depois ele pensava como ia fazer com a situação de Adão. Que continuava a passear pelo paraíso dando nomes pros animais e mais nada do que isso.

Então Lilith abriu os olhos e viu todo o universo que Deus entregará para ela. Ela olhou para todas aquelas estrelas, planetas, luas, cometas rabiscando o espaço sideral. Ela ficou maravilhada por alguns instantes a contemplar tudo aquilo. Mas precisa de uma casa e pensou no Eden. Então, de repente, ela viu uma estrela dourada muito parecida com a que tinha no céu do Eden. E seus olhos viram algumas bolinhas a circular ao redor desta estrela que parecia uma bola de ouro derretido e flamejante. Ela se sentiu chamada por uma dessas bolinhas a vagar ao redor da linda estrela. E de repente ela estava dentro dessa bolinha.

Ela se viu em um lugar árido, a terra era seca e areia era formada por grãos como de um deserto. Então ela pegou um pouco da areia que estava sob seus pés, levou até a sua boca e assoprou. Os grãos de areia e se tornaram sementes e geraram toda forma de vida, tal como a que existia no Éden. Mas com as modificações que Lilith sugeriu a Deus.

Uma das modificações da Lilith. Todos os serem vivos eram inteligentes como ela mesma. Até mesmo a mas minúsculas das criaturas. E todos mantinham sua sobrevivência através do consumo da luz que via da estrela. Ou seja, na ecologia de Lilith, não haveria cadeia alimentar. E quando todos os animais estavam criados e se viram como um espelho, ficaram fascinados uns com outros e mantiveram uma relação de colaboração uns com os outros. E perguntando uns aos outros quem os tinha criado, Lilith apareceu a eles. E fizeram homenagens a ela e a proclamaram deusa eterna de todos eles. E todas as criaturas se relacionavam com Lilith com muito carinho e devoção. E Lilith andava entre eles e ela adorava a companhia de suas criaturas.

O tempo foi passando. E as criaturas de Lilith que eram inteligentes e quase tão capazes como ela. Começaram a se desenvolver e a transformar o mundo em que estavam. Começaram a fazer algo que nós chamaríamos de civilização. Mas diferente de nós, tudo acontecia sem grandes conflitos destrutivos e sem agredir o planeta deles. Logo, as criaturas de Lilith estavam cientes sobre tudo sobre o universo da sua deusa. E ela ficava orgulhosa dos seres que criou e pensou que fez uma boa escolha em aceitar a proposta de Deus e até se achava melhor que ele. Lilith contemplava as criações de suas criaturas e vendo que elas estavam felizes, ela também ficava feliz.

No entanto, diferente das suas criaturas, Lilith estava sozinha. E começou a sentir solidão. Um dia se olhando na margem de um rio, viu como era bela e graciosa. Era uma mulher de corpo atraente e desejou ter um homem como companheiro. Pensou em Adão. O que será que aconteceu com ele, depois que ela foi embora do Éden? Ela nem disse tchau. Será que Adão ficou decepcionado e triste com ela? Será que Adão ainda pensava nela?

Lilith achava Adão meio bobo, mas gostava dele. E nos momentos de intimidade, gostava de sentir o calor da pele de adão, seu sorriso ingênuo e sua empolgação falando sobre seu ofício de dar nomes aos animais. Ela o amava e agora que estava longe dele, sentia saudades. Mas o que fazer? Fizera um juramento a Deus. E nem mesmo seus pensamentos conseguiam atravessar as fronteiras do seu universo e dá uma olhadinha no universo de Deus. Certamente, algo haver com o acordo de não ingerência de ambas as partes feitas com Deus.

Então, um dia estando na beira desse rio, ela começou a criar um boneco de barro parecido com Adão. Em todos os detalhes. Eu disse, em todos os detalhes.

– Você está prestando atenção, Jonas?

– Si…Sim… Sim senhor. Continue a contar. – Gaguejou Jonas que estava impressionado com Aaron, tanto pela estória como que ele contava como pela maneira que ele contava. Parecia um daqueles contadores de estória dramáticos de tempos muito antigos.

Ela parou em frente aquele boneco de barro e o olhou. Pensou em dar vida aquilo, mas acabou achando ridículo. Pensou no Adão original e viu que nenhuma cópia dele iria satisfaze-la. Ela em um acesso de fúria, desmanchou todo o boneco e caiu em prantos. Seu choro fez tremer os céus e relâmpagos começaram a cair na terra. As criaturas ficaram apavoradas, acionaram todos os dispositivos para manter o planeta salvo. Não se esqueça, eram inteligentes e sabiam fazer ciência. Sabiam que aquele tipo de coisa acontecia naturalmente e criaram todos os recursos para não serem vítimas dos movimentos da natureza do universo que estavam. Mas não imaginaram que seria acionado pela tristeza da deusa que tanto amavam.

Então as criaturas perguntaram a deus o que estava acontecendo. E então a deusa explicou tudo a eles. Como tudo começou, de onde ela vinha, o que aconteceu depois. As criaturas já desconfiavam que não eram os únicos no universo e que nem seu universo era o único. Graças a inteligência conferida por Lilith e o espirito de colaboração de todas as criaturas, rapidamente eles desenvolveram todo tipo de tecnologia para conhecer a si mesmo e tudo a respeito sobre o seu universo. Eles eram grandes cientistas e seus estudos já indicavam que eles não estavam em único universo e que talvez existissem outras criaturas tão poderosas como a deusa deles.

Um grupo de cientistas consolou Lilith. Eles prometeram que trariam alguma solução para ela. Lilith disse que aquilo era impossível, pois Adão era de Deus e o acordo era que ela não poderia se intrometer na criação deles. Então os cientistas chamaram os advogados que eram tão inteligentes e sagazes como eles para procurar alguma brecha no acordo entre os deuses. Um assunto muito delicado e perigoso, pois isso poderia envolver a própria sobrevivência deles. Sabe-se lá o que poderia acontecer entre brigas de deuses. Então, tudo teria que ser feito de maneira discreta e sem o conhecimento de Deus.

Enfim, o que ficou entendido é que Deus proibira a Lilith de mexer na criação Dele. Mas não existia nenhum problema em dar uma olhadinha no que estava acontecendo no Éden de Deus e ver como estava a situação de Adão. Então, um grande congresso de cientistas foi feito para criar um dispositivo que pudesse olhar o outro lado do universo. Assim eles começaram a chamar o universo de Deus de “o Outro Lado”. Todas as criaturas participaram, mesmo as mais minúsculas. Todas ofereceram soluções e materiais para a construção do dispositivo. Seria um trabalho grande e contaria com todos os sistemas planetários do universo de Lilith. Sim, porque naquele estágio, eles já tinham criado uma rede de comunicação e convivência com toda turma do universo Lilithiano.  Um esforço enorme, mas muito empolgante para criar um “olho mágico” para o universo de Deus. Todos estavam curiosos para ver o universo de onde sua deusa foi originada. E também trazer algum consolo para ela.

O grande dia chegou e com grande ansiedade o dispositivo foi apresentada à deusa tão amada daquele universo. Veio então os cientistas que lideraram a pesquisa, trazendo o equipamento e montaram em frente de Lilith rapidamente. Um tela, algo parecido com as nossas tvs, mas sem o painel lcd. Pediram a Lilith para sentar em uma poltrona que fazia parte do dispositivo.

– Vocês já viram o Eden? – Perguntou Lilith às suas criaturas, enquanto se acomodava na poltrona.

– Minha senhora, fizemos alguns testes. É verdade. Apontamos o equipamento e ficamos pasmos. Pois existem muitos outros universos. É…É simplesmente maravilhoso e infinito. Enquanto fazíamos os testes, nosso dispositivo foi detectado por um dos deuses. Parece que o programa de ocultação não funcionou e um ser, muito…digamos, extravagante, moreno cheio de braços e parecendo estar bebado nos olhou na tela. Por sorte, foi simpático e conversou conosco. Inclusive nos informou que o Deus que criou nossa tão adorada deusa é seu conhecido e o conhece muito. Disse que é meio temperamental… E bem, o Brahma disse que poderia fazer um intercâmbio tecnológico conosco. Um ser divino muito simpático, gentil e irreverente, diga-se de passagem.

– Certo. Então como faço para ver meu Adão?

– Ah sim. Apenas pense nele que o equipamento fará a varredura e encontrará o universo onde o Eden está.

– Simples assim?

– Para senhora, toda a facilidade dos seus servos. Mas o equipamento demanda muito esforço e conhecimento científico. Não sei se minha deusa pode entender, mas só de buraco negro estamos usando 4. Enviamos algumas sondas que estão na beira deles e tivemos que superar a velocidade da luz, manipulando o tempo-espaço. A senhora entende?

– Não. Eu apenas desejo e as coisas são criadas. Não entendo dessas coisas.

– Certamente. E nenhum problema, minha deusa. Pois veja que nós suas criaturas, somos obra-prima de sua criação e estamos satisfeitos com tudo que nos cerca e com todas as dádivas que a deusa nos concedeu. Então, deixe para nós a parte complicada e permita trazer felicidade a nossa tão adorada criadora. Agora pense… Pense no Éden, em Adão… Tudo que a senhora pode se lembrar do universo de Deus.

– Tá bom. – Disse Lilith com os olhos já úmidos e com a voz baixinha. Virou se para o “olho mágico” e pensou. Em poucos minutos, um planeta azul foi identificado e com mais um pouco de foco, uma floresta apareceu. E mais um pouco, um homem andando com animais o seguindo.

A deusa disse o nome de Adão em gritos e apontava ele na tela para seus cientistas que bateram palma e se abraçaram, comemorando o sucesso do empreendimento. Lilith na empolgação começou a chamar por Adão, mas foi informada que por motivos de segurança, ele não poderia ouvi-lá, pois pode ser que Deus percebesse a presença do sinal do dispositivo no universo dele e chegar até ela e começar uma guerra pela quebra de contrato.

Lilith compreendeu e manteve os olhos na tela. Lágrimas desceram sob seus olhos. Nada tinha mudado no Éden. Tudo tinha continuado da mesma maneira. Muito bonito, mas sem a sofisticação do seu universo. Os cientistas presentes, olhavam com olhos exóticos e se perguntavam porque Deus mantinha as criaturas deles assim… Sem senso de si mesmo… Vegetarianos, carnívoros… Sujeitos às intempéries do próprio planeja. Muitos comentários em cochichos, enquanto a deusa assistia Adão.

De repente, uma surpresa. Uma mulher aparece e e conversa com Adão. Lilith grita.

– Quem é essa mulher? O que ela está fazendo com Adão?

– Certamente minha senhora, Deus deve ter criado uma outra companheira para ele, quando a senhora partiu. A senhora precisa entender. Esta criatura que a senhora chama de Adão, dado a ecologia construída pelo Deus de lá, precisaria de uma companheira. Não dá pra viver sozinho…E também ela…

– Cala boca. O Adão é meu. Meu homem, meu homem… Tragam ele, eu quero ele pra mim.

Os cientistas ficaram mudos e gelados. Nunca viram a deusa falar daquele jeito e se assustaram. Então pediram para que alguns companheiros ficassem junto à deusa e atendessem suas necessidades e a mantivesse entretetida com o “olho mágico”, enquanto eles se reuniam e pensassem naquela nova situação.

-Seu Aaron…

-O que foi?

-Posso ir ao banheiro… – Disse Jonas ao seu patrão como um garoto em sala de aula que levanta a mão, pedindo ao professor para atender suas necessidades fisiológicas. Aaron o olhou com a boca meio aberta como se não tivesse entendido o pedido.

– Oh…Sim…Sim. Eu também preciso ir. – Aaron se ergueu da cadeira lentamente. Parecia um gigante com aquela barriga enorme. – Mas ainda tenho muito a contar. Está cansado?

– Não senhor. Estou impressionado. Desculpe interromper, mas é porque realmente preciso ir ao banheiro.

– Vamos, Vamos… – Vou pedir para a Clotilde fazer um café pra nós dois.