A Verdade sobre Lilith ( Parte 1 )

 

Este conto é uma adaptação e troquei nomes e lugares para não identificar seus verdadeiros personagens.

A muito tempo atrás, seguia em num ônibus e em uma das paradas de pontos, vi uma faixa num prédio que dizia o seguinte: Clube Judaico Shalom Israel. Abertas inscrições para Curso de Gematria. Como gostava do assunto e tava com o tempo, decidi descer no próximo ponto de ônibus e voltei ao anterior, onde estava o clube e coletar informações.

Entrei no prédio e fui a um balcão na portaria, onde tinha duas jovens garotas. Uma delas me atendeu e me deu as informações sobre o curso. Quando ela me disse os custos para aprender gematria, vi que não teria como pagar. Agradeci o atendimento e fui guardando os panfletos na mochila que recebi da moça e indo embora, quando um homem sentado em uma cadeira, dessas que as pessoas sentam para aguardar sua vez de ser atendido, fez um “ei” pra mim e me chamou.

– Quer aprender gematria? – Ele apontou a cadeira ao lado dele, convidando para que eu sentasse, enquanto mexia em um smartphone. Sentei ao seu lado. O homem era deveras gordo e mantinha as pernas abertas por força da barriga. Tive que juntar minhas pernas para que meus joelho não tocasse o dele.

– Sim, eu quero. Mas o curso é caro.

– Hadassah, traz um papel e caneta pra mim, por favor.

A moça que me atendeu saiu de trás do balcão e fui rápida atender o homem velho e barrigudo. Ela atendeu o pedido do homem com um sorriso e ficou próxima de nós, esperando atender mais algum favor.

– Vá até a este endereço, neste dia e horário. Lá você vai aprender Gematria sem precisar pagar pelo curso.

– Obrigado. – Agradeci ao homem olhando para o papel que ele me deu . Ele se levantou, disse obrigado à tal de Hadassah e saiu em passos firmes apesar de todo aquele peso. Vestia uma camisa branca, calças cinzas com sapatos pretos e suspensórios que decoravam suas costas encurvadas.

– Você sabe quem é esse homem? – Hadassah me perguntou.

– Nunca o vi. Isso é algum tipo de pegadinha? – Disse a ela mostrando o papel com o endereço.

– Não é não. Aquele ali é o dono das lojas Trabelesh. Seu Aaron Aryeh.

– Você tá de brincadeira?

– Tô falando sério. – Hadassah foi andando de volta para o balcão e eu fiquei olhando para porta do clube meio abobado. As lojas Trabelesh estavam em todo território nacional. Era umas dessas lojas que vendem de tudo: móveis, eletrônicos, eletrodomésticos, roupa, cama, mesa e banho. O homem devia ser milionário.

Quando voltei pro ponto de ônibus. Um carro passou e alguém no banco de trás, acenou pra mim. Era Aaron Aryeh indo embora em um carro com motorista particular.

No dia combinado fui para o endereço que sr. Aaron Aryeh me deu. O bairro era daqueles de gente com muito dinheiro, muros grandes e casas espetaculares. Cheguei no número 5325. Um portão largo de aço, entre muros cobertos de unha de gato. Toquei o interfone e porta menor ao lado do portão maior se abriu. Entrei e dei de cara com uma guarita. Ouvi um som de uma descarga de sanitário. De repente aparece o sr. Aaron Aryeh com papel toalha entre as mãos, enxugando os dedos, olhando para mim como pra ver se era eu mesmo.

– Aqui seu Aaron, pode jogar o papel aqui neste cesto. – Falou o homem saindo da guarita e levando um cesto destes de colocar lixo de escritório. Aaron se virou para um homem enorme vestido de roupa de segurança patrimonial. Jogou o papel no lixo, ajeitou a calça e suspensórios e veio em minha direção com um sorriso.

– Você demorou. Fiquei esperando você aqui no portão e tive que ir ao banheiro. Desculpe.

– Desculpe, sr. Aaron Aryeh. Mas eu nunca tinha vindo aqui nesse bairro. Sou uma pessoa muito pontual, mas do ponto de ônibus até aqui demorou 20 minutos. Foi uma andada boa.

– Desculpe então. Da próxima vez mando meu motorista buscar você.

– Vamos parar de dizer desculpas um para o outro, sr. Aaron Aryeh. Mas eu aceito a carona do seu motorista.

Então Aaron Aryeh me convidou para ir à casa dele. Caminhamos conversando entre árvores que margeavam uma estradinha que levava até uma moderna casa. Um Welsh Corgi Pembroke nos acompanhava, o que me divertia muito.

 Aaron fazia comentários sobre a casa que estava a nossa frente, me apresentou empregados e uma de suas filhas. Dizia que era a que sobrou, pois todos os outros 3 filhos já tinham se casado. O cachorro com patas nanicas foi para uma mulher jovem na casa dos seus 30 anos. Naamah era o nome da filha. Tinha cabelo curto, preto, umas tatuagens no braço. Estava de saia relativamente curta. A mim não pareceu uma moça tradicional da cultura judaica. O que vim confirmar mais tarde, pois existe ainda muito preconceito sobre o povo judeu. A moça me olhava desconfiado, mas me recebendo bem. Logo ela desapareceu com o cão atrás dela, subindo em uma escada e entrando em um corredor que eu imaginava ser dos quartos.

Passei um bom tempo com Aaron Aryeh conhecendo a casa dele. Nossa conversa era tranquila como se fossemos amigos de muito tempo. No final do nosso encontro, estávamos na biblioteca da casa.

– Então, Jonas. Você vai precisar comprar este livro, este aqui também. Um dicionário desse também é importante. Acho que pra começar é isso.

– Seu Aaron Aryeh. Tô sem condições. Naquele dia que nos encontramos, eu estava vindo de uma entrevista de emprego. Tô sem grana e não recebi nenhum retorno da agência de emprego. – Seu Aaron, olhou para mim, passou uma das mãos no rosto e foi até um notebook na mesa da biblioteca. Perguntou meus dados pessoais. A impressora funcionou e ele veio até a mim.

– Você disse que mora no bairro Trobolopolis, não é?

– Isso mesmo.

– Conhece uma loja que eu tenho lá?

– Não tem como não conhecer, é enorme. Os ônibus do bairro passam lá.

– Muito bem. Apresente estes papeis lá na loja. Você vai trabalhar no estoque. É um trabalho fácil e já escrevi alguns detalhes sobre você. Você vai passar o dia subindo e descendo o elevador. O dinheiro vai ser o suficiente para os livros que precisa e ainda vai ganhar bônus e outras vantagens.

– Muito obrigado, seu Aaron. – Falei com os olhos úmidos e com sorriso enorme.

– Você agora é meu empregado e aluno, mas acima disso somos amigos. E é bom ter alguém de confiança em minhas lojas. Vou pedir para meu motorista levar você pra casa.

-Obrigado pela confiança. Mas acabamos de nos conhecer.

– Jonas, tenho 75 anos e a vida já me ensinou o suficiente sobre as pessoas. Apenas aceite.

Saí da mansão do sr. Aaron Aryeh, sentindo-me como se tivesse ganhado milhões na loteria. Cheguei em casa, contando os detalhes para minha família e todos ficaram entusiasmados.

Mais tarde, quando eu já estava para dormir, recebi um telefonema. Um número que nunca tinha visto. Atendi e uma voz feminina perguntou se era realmente o Jonas que realmente estava. Falei que sim.

– Aqui é a Naamah. Vou ficar de olho em você Jonas. – Eu ouvia a respiração da filha de seu Aaron Aryeh. Parece que tinha corrido e feito a ligação.

– Olha, seu pai é que me chamou para ir até sua casa. Nada mais quero dele do que ele me ofertou. Tenha certeza disso.

– Meu pai não chama qualquer um para a casa dele. Você tem ideia de como ele conseguiu tudo que ele tem hoje?

– Sou um rapaz de periferia, mulato… Você acha que vou roubar algo de… – Fui interrompido bruscamente pela garota que falava mais firme.

– Isso não me interessa. Mas atenda as expectativas dele… E as minhas. Entendeu? – O telefone foi desligado. E fiquei com aquele enigma na cabeça. O que será que ela quis dizer com “expectativas”.

Os meses foram passando e eu recebendo as aulas na mansão de seu Aaron Aryeh e trabalhando na loja dele. Um mundo se abriu diante de meus olhos com o estudo da Gematria. E Aaron Aryeh ficava entusiasmado com minhas perguntas e minhas opiniões não somente sobre o assunto, mas sobre quase tudo. Ele era um homem de mente aberta e pronto para mudar de idéia ou aprender coisas novas. Eu por minha vez me sentia  honrado de estar sendo educado por ele.

Naamah nunca me explicou sobre aquela ligação e eu nem tão pouco quis mostrar nenhuma curiosidade sobre o assunto. Eu imaginava que ela tinha ciúmes de um estranho e não judeu na casa dela. Várias vezes eu chegava na casa deles e a encontrava no sofá da sala, lendo algum livro. Eu apenas a saudava e seguia para o escritório do pai dela. Mas sentia que seus olhos acompanhava cada passo meu. Um dia fiz o que sempre fazia quando a via no sofá, mas antes de entrar no corredor que dava acesso ao escritório, virei rapidamente e flechei meus olhos nos dela. Ela sentiu um tremor e deixou escapar um pequeno sorriso que foi seguido de careta, disfarçando a surpresa. Acho que ela entendeu meu recado.

Mas o mais importante vem agora. Foi quando eu já estava na cama e meu smartphone tocou. Eram 23:15. O número não estava registrado na agenda do telefone. Atendi a ligação.

– Alô.

– Alô Jonas. Aaron Aryeh falando. Meu motorista está lá fora lhe esperando. Preciso conversar com você. Se arrume com calma, mas venha. Estou lhe esperando.

– Sim, senhor. Já estou indo. – O ligação caiu e apenas obedeci as ordens do chefe. Pensei de imediato que era sobre alguma coisa na loja e meu preocupei. Alguns funcionários tinham inveja de mim e criavam problemas. Mas como o gerente era tão amigo de Aaron Aryeh quanto eu, tudo era bem explicado e sempre favorável a mim. E eu também não dava motivos para que meus chefes pensassem o contrário. Mas dessa vez, talvez algo de sério aconteceu.

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Contos alucinantes – Todos a bordo

A narrativa seguinte aconteceu quando eu, Nelson e Joelson decidimos passear no Rio Grande do Sul. Não espero que ninguém acredite em mim. Mas acho que vale a escrita por mais incrível que ela seja. Aliás, por ser incrível é que vale a pena.  Leia o meu primeiro relato aqui para entender bem o deste post.

Então, como disse, estávamos os três fazendo turismo lá na terra dos gaúchos. Paramos e entramos em uma lanchonete para comermos uns sanduiches. Tínhamos acabado de receber nosso pedido, quando alguém passou por nossa mesa e derrubou meu refrigerante e por pouco não me molhou todo. Um homem de rosto oriental se virou para mim e pediu muitas desculpas e pelo sotaque vi que não era mesmo brasileiro. Disse que estava tudo bem, trocamos cordialidades e ele decidiu pagar nossa conta. Ele estava acompanhado e juntamos mais uma mesa para lancharmos todos juntos. 

Foi então que ele contou que era comandante de um navio cargueiro. Tinha costume de sempre cumprir uma rota, onde uma das paradas era o Brasil. Declarou amor pelo nosso país e aproveitava o tempo que em que a embarcação recebia a carga para passear nas cidades dos portos brasileiros onde atracava. Comecei a perguntar a ele sobre a vida de marinheiro. Ele falou que era tailandês e que desde menino se apaixonou pela vida no mar. Contou seus esforços para aprender até chegar a ser comandante de um navio cargueiro. Todos nós ouvíamos com admiração, menos os seus imediatos que comiam como se já tivessem ouvido o comandante com suas estórias várias vezes. 

-E vocês? Não gostam do mar? 

– Eu não tenho nada contra. – Respondi ao comandante em tom de brincadeira como alguém que não quer dizer nada sobre o bom amigo do outro. Nelson me repetiu e Joelson deu de ombros com a boca cheia de pão com hamburguês. 

-Então porque brasileiros não viajar com comandante? Muito bom. Conhecer mundo… Lugares diferentes. Brasileiros aprender bastante. Eu garanto. 

Ficamos surpresos com o convite do comandante e ficamos olhando uns pros outros. Não dava pra responder logo assim… De repente. Ele percebeu. 

-Eu fico mais 3 dias. Dou um jeito pra tudo… Tudo pra vocês viajarem. Quer conhecer navio primeiro? Navio humilde, mas…. – o comandante desatou a rir – Vamos no porto e vocês decidem, vamos… 

Concordamos em visitar o navio do comandante e investigar se aquilo não era nenhuma pegadinha. E de qualquer formar, nunca fomos no porto de Rio Grande, nem tão pouco entramos em nossa vida em nenhuma embarcação. Imagine de primeira entrar em um navio cargueiro. Para três jovens, aquilo era uma aventura. E era isso que procurávamos naquelas férias.  

Entramos todos em dois taxis e fomos para o porto. Chegando lá, o comandante Thaksin foi atravessando contêineres, galpões, caminhões e saudando a todos com alegria e sendo recebido da mesma maneira, quando chegamos no atracador o comandante apontou o dedo e disse que era aquele pequeno ali. 

A embarcação que ele apontou era enorme. O leviatã de aço era todo vermelho e tinha escrito em letras brancas no seu dorso SVANE AV HAVET. Ficamos impressionados. Um guindaste acomodava contêineres no navio e ficamos por alguns minutos observando toda a movimentação com espanto e admiração. Tudo parecia ser grande e magnifico. O comandante nos convidou para subir. Quando estávamos indo em direção a escada, um gato gordo e grande passou em nossa frente e subiu na embarcação. O comandante franziu as sobrancelhas e subiu em passos rápidos a escada e fomos seguindo ele, junto com os imediatos. 

Chegando lá em cima, o comandante se encontrou com um homem loiro que estava acompanhando a organização dos contêineres e começou a reclamar com ele. Não entendemos nada do que eles falavam. Imaginei que o comandante estava zangado por terem deixado um gato na embarcação. Mas depois ele se virou para nós e em português explicou que o bichano fazia parte da tripulação, junto com mais três cães. E disse que tinha pedido à tripulação para os animais não descerem no porto para não se perderem. 

O comandante fez questão de nos apresentar o navio e enquanto ele explicava coisas sobre as embarcações, recebia a tripulação e era informado sobre alguma coisa ou dava ordens. A nós três, tudo era entusiasmante. E a coisa ficou melhor quando entramos na sala de comando. Depois de nos explicar até onde poderíamos entender, o comandante Thaksin perguntou: 

-Brasileiros vir com comandante para aventura em alto mar? 

-Mas comandante. Não queremos ser clandestinos. Como fica a situação burocrática? 

-Eu acerto tudo..Tudo. Tem muitas amizades. Brasileiros tem passaportes… Tem na mochila? Fiquem tranquilos. – E o comandante piscou o olho esquerdo para nós, com as mãos agoniadas pedindo nossa documentação. 

Aceitamos o convite. Mas por minha vez, liguei para casa e expliquei a situação para meu pai. Ele ficou desconfiado, mas como tinha alguns contatos no Itamaraty pediu para que desse todos os detalhes sobre o navio e o comandante. Eu não escondi isso do comandante e o mesmo cedeu todas as informações que pedi entre risos. Após um dia, meu pai retornou a ligação dizendo que estava tudo correto. Inclusive que o comandante já tinha sido motivo de um documentário norte-americano. 

Então topamos viajar. O comandante disse que sairíamos do porto do Rio Grande e seguir pelo litoral brasileiro. Mais alguns portos subindo pela América Latina, depois o navio iria atravessar o canal do Panamá e seguir para seu destino principal, o porto de Shangai, onde iria descarregar todo o navio. Interroguei ao comandante como iriamos nos ocupar durante a viagem. Ele disse que sempre tinha trabalho a ser feito no navio, mas que ficássemos despreocupados, pois ali éramos convidados e que não faríamos nada que tirassem nossa diversão. 

Confirmamos nossa viagem e o comandante chamou alguém da tripulação e falou algumas palavras que não entendemos. Dessa vez o marinheiro na nossa frente tinha traços orientais como o comandante e ao receber as ordens dele, venho todo alegre até nós e nos saudou com palavras que não entendíamos, mas era de boas-vindas. Segurou com suas duas mãos calejadas as nossas com entusiasmo e nos levou até nossa cabine.  

A seguir veio outro marinheiro que em inglês nos explicou o que fazer em caso de emergências. Nelson era fluente em inglês e foi traduzindo pra gente os procedimentos. Ao final das explicações e de uma ligeira simulação, o marinheiro com sotaque irlandês pergunta se havia alguma pergunta. Dos três, Joelson levanta a mão e pergunta se tinha alguma roupa azul, porque aquela de cor laranja ele achava feia. Ele recebeu um tapa na cabeça do irmão que nem traduziu aquilo para mr.Kevin. 

Bom. Eu poderia escrever sobre todo divertimento que tivemos durante a viagem, mas aí isso viraria um livro e não um conto. Mas aprendi muitas coisas sobre a arte da navegação com o comandante e ficávamos durante horas com ele na ponte de comando, ouvindo os casos da vida dele. Quando não estava com o comandante, ia pra cozinha ajudar na alimentação da tripulação ou na manutenção da embarcação. Brincávamos no convés com os cachorros: um boxer branco com uma mancha preta no rosto, um border collie e um pug. O gato aparecia quando ele queria e sempre se interessa mais por mim do que por Nelson e Joelson. Um dia eu estava no refeitório almoçando e ele apareceu e ficou roçando nas minhas pernas. Nelson lembrou do caso da piscina e do gato que apareceu naquele dia. Disse a ele que existia milhões de gatos pelo mundo e que uma coisa não tinha nada a ver com a outra. 

Quando o navio saiu do canal do Panamá e entramos no oceano pacifico, o tempo foi mudando. A cada hora que passava, pouco a pouco o mar ficava agitado e o céu azul ia ficando cinzento. O comandante Thaksin, disse que aquilo não era normal. Mas que estava tudo bem. Perguntei se a embarcação aguentava uma tempestade. Ele olhou para mim como um professor para um garoto de escola primária e disse que até um furacão. E desatou a rir. 

Muito bem. Mas aquele tempo foi piorando e um dia lá pelas 23 horas, a coisa foi ficando braba. O comandante e seus imediatos estavam em um estado de concentração que nunca tínhamos visto antes. Educadamente e não querendo nos preocupar o comandante pediu para nos três irmos para cabine descansar e que nos esperava para contar um caso qualquer que nós íamos rir bastante. Obedecemos e fomos até a cabine e quando abrimos a porta, o gato entrou correndo e subiu na minha cama. Nos olhamos e a primeira coisa que falei para os irmãos é que se lembravam dos procedimentos de emergência. Eles disseram que sim e fomos nos deitar em silêncio. O gato foi dormir em meus pés. Ao longe, ouvíamos os cães latindo. A situação se mostrava a mais incomum da viagem. 

Logo dormi embalado pelo sobe e desce do navio que de todos aqueles dias de viagem era a primeira vez que me lembrava que eu estava em uma embarcação, deslizando pelo oceano. De fato, as ondas deviam estar altas. Então, eu estava sonhando com a Bettie Page e quando ela começava a beijar todo o meu rosto, acordei assustado com luzes vermelhas e o alto falante a berrar um som que nos fez sair da cama e vestir os trajes de sobrevivência. O navio balançava e parece que íamos pular e bater no teto. Nos vestimos e saímos pelo corredor do navio, o velho coreano nos chamou e ensinou um outro caminho para ir até a sala de comando. Não passamos pelo convés e entramos na sala por uma porta quase ao lado do comandante. Quando me aproximei dele, ele simplesmente nos olhou e disse: 

-Perdão..Perdão… Não pensei que seria assim. Nunca aconteceu isso antes.  

-Qual a nossa chance comandante? – Perguntei já sabendo a resposta quando olhei pela janela de vidro e vi o tamanho das ondas gigantes. O navio pulava e balançava. E ainda toneladas de água do mar entravam no convés e mal demorava de ser escoado, outra onda vinha e enchia mais de água. 

-Estou tentando o meu melhor. – Foi a maneira discreta dele dizer que a situação era trágica. 

Nos agarramos nas alças da sala de comando e vi o comandante passando ordem e recebendo informações dos imediatos e da tripulação. Um dos imediatos estava no rádio repetindo as mesmas palavras que com certeza informava a posição do navio e pedindo ajuda. 

Em determinado momento vi que o comandante ficou duro como uma estátua. Eu fui até ele. Ele segurava o volante da embarcação e seu corpo tremia. Estava todo duro e respirava com tanta força que podia ser ouvido cada inspiração. Eu me aproximei do comandante e chamei pelo nome dele várias vezes. Ele continuou tremendo e olhando para frente. Gritei para os imediatos e pedi para o Nelson falar em inglês que o comandante estava em choque e que precisa de um médico. Os imediatos foram até ao comandante e foi difícil tirar as mãos dele do volante. O navio agora chocalhava estupidamente e os contêineres batiam um no outro fazendo um estrondo terrível. Eu segurei o volante institivamente e Joelson e Nelson ficou cada um ao me lado. 

-Você sabe dirigir navio? – Perguntou o Nelson pra mim. Em outro momento teria dado um cascudo na cabeça dele. Mas me dei conta que estávamos vivendo as últimas horas de nossas vidas. 

-Joelson. Se você puder chamar um daqueles pretos-velhos que a Ritinha te ensinou… Tá mais do que na hora. – Falei sorrindo pra ele como que me despedindo. Não sei se ele tinha noção do que estava para acontecer. Mas não queria e nem tinha como explicar pra ele. Olhei para Nelson que continuava a olhar para a frente e tinha um rosto resoluto. Ele sabia. 

Chegou o momento. Uma onda gigante se formou a nossa frente e o navio começou a se inclinar para cima como um foguete que é guinchado vagarosamente na área de lançamento. Eu vi o comandante várias vezes acionar uma manivela para aumentar a força do motor e foi o que fiz. Aquilo não adiantou nada. Quando meus pés começaram a escorrer para trás e o navio não mais avançava na onda, apenas pensei em uma coisa: Morri. A embarcação iria virar de cabeça pra baixo e era assim que entraríamos na outra dimensão.  

Mais um pouco, quando já não tínhamos como nos segurar no painel de controle, ouvimos um chiado enorme como se tivessem lançado milhões de antiácido estomacal no mar. A embarcação parou. E quando pensamos que não havia mais pavor para suportamos, o mar como que congelou. Na verdade, gelatinou. É o máximo que posso explicar para ser entendido. Imagine gelatina sem cor. Foi assim que ficou a onda a nossa frente e por alguns segundos ficamos ali estacionados, quando algo estourou um pouco abaixo da crista da onda. Um objeto enorme passou por sobre o navio e lentamente a embarcação foi descendo e o mar se abrindo a nossa frente.  

Quando o navio ficou nivelado, saiamos da sala e olhamos a nosso redor. Estávamos sobre um mar de gelatina. É o que posso dizer. A textura da água estava mudada. A nave que passou sobre nós e que fez um furo na onda, deixou pedaços daquela aquela gosma gelatinosa sobre toda a embarcação. Saímos da sala de comando e olhamos para o céu e vimos pequenos objetos zunindo para lá e para cá e por onde eles passavam as nuvens iam se dissolvendo e mostrando o céu azul. 

Olhei para a popa da embarcação e vi que a nave começou a se aproximar. Eu corri para a sala de comando e peguei um binóculo. Nelson e Joelson foram depois de mim e voltaram também com binóculos e miramos na nave. Ela foi se aproximando lentamente ao lado da embarcação e vimos uns homens sobre a nave. Bom. O que posso dizer é que pareciam vestir algum tipo de roupa ou armadura que lembrava muito uma dessas figuras que encontramos em manuais de anatomia que os estudantes de medicina estudam para estudar os músculos do corpo.  A cabeça não tinha olhos, nem nariz boca ou ouvidos. A couraça, roupa, armadura, seja lá o que era aquilo, era branco. E quando eles ficaram alguns metros lado a lado do navio. Os objetos que estavam no céu desceram como um enxame de abelhas e entraram na nave que parecia um submarino voador no formato de um tubarão sem nadadeiras 

O céu estava todo azul e conseguimos ver o sol a oeste. Então um daqueles homens iluminou seu traje como um vagalume e riscos dourados apareceram por todo o seu corpo. E nos mostrou seu ombro esquerdo, onde tinha um conjunto de signos que lembrava muito um daqueles cartuchos egípcios. Ele passou o dedo indicador e mínimo da mão direita pelos símbolos e apontou depois pra gente. Os outro 4 que estavam com ele fizeram a mesma coisa. Depois disso, bem na frente dos nossos olhos, eles se dissolveram. É como consigo explicar. É como se cada átomo deles virassem um pingo de água e caíssem no mar. O mar a nossa volta voltou ao normal e a gosma que estava na embarcação escorregava como água salgada pelo aço do navio 

-Vocês viram o que eu vi? – Falei estupefato para os irmãos. 

-Metaleiros eles não eram. – Falou Nelson imitando meio que estupefato o homem que apontou os dedos para nós. 

-Eram viajantes do tempo.- Falou Joelson ainda com os binóculos no rosto, procurando mais alguma coisa no horizonte. 

-Ah é? E como o Einstein sabe disse?  – Perguntou o Nelson olhando para o irmão que continuava a segurar os binóculos. 

-Eu vi isso numa revistinha. 

-Revistinha? – Perguntei olhando pra ele. Joelson abaixou os binóculos e respondeu como se eu fosse a pessoa mais idiota do mundo. 

-É gibi, quadrinhos… P***ra! Nunca leu um não? 

De repente senti algo roçando em minhas pernas. O gato do navio ronronava e esfregava a cabeça em meus pés. Peguei o animal e segurei em meus braços e me lembrei dos três cães e fui ver se tinham sobrevivido.    

A tripulação estava bem. Todos estavam vivos. O comandante estava melhor e pediu para que se fizesse uma verificação completa no navio, antes de saber onde estavam e qual era o porto mais próximo que poderia receber a embarcação. Tirando a bagunça dos objetos que ficaram espalhados por todo navio, quando ele pulou as ondas gigantescas, tudo estava em ordem. Estranhamente em ordem. Até mesmo os contêineres estavam preservados e devidamente “amarrados”. Nós vimos que eles estavam já escorregando para fora do navio. 

Depois que tudo foi reorganizado e o navio limpo, o comandante Thaksin informou que iriamos para o porto de Suva em Fiji. Ali o navio poderia ser verificado com mais detalhe para continuar seu destino final que era Shangai. O comandante já se sentia aliviado por não ter perdido nenhum contêiner e nenhum dos seus marinheiros. Para nós ele sempre olhada diferente, mas sentíamos que não era nada ruim sobre nós. O comandante disse que iria colocar o navio na nova rota e conversaria apenas com nós três. Fomos para nossa cabine descansar. 

Mais tarde, o comandante pediu para que o mesmo marinheiro que nos mostrou as dependências no primeira dia na embarcação, nos levasse até ele para a conversar. Fomos com um sentimento de apreensão. Certamente não fomos os únicos a ver aquele submarino voador com aquelas pessoas. O comandante iria fazer perguntas. 

O sorridente marinheiro com traços orientais, pediu para que entrássemos na sala e assim fizemos. Ele entrou conosco e fechou a porta atrás de nós em seguida. O que vimos foi o comandante Thaksin com um cigarro na boca, em pé em e andando em torno de mesa quadrada com 8 cadeiras. Ele estava terminando de colocar gelo nos últimos dos 5 copos de vidro que estavam sobre a mesa, em frente a cada cadeira. O comandante pediu para sentarmos e começou a servir uma bebida. Foi quando Joelson chamou pelo meu nome e ficou me apontando com a cabeça a garrafa que o comandante segurava. Quando percebi, senti um arrepio por todo corpo. Senti cada fio de cabelo de minha cabeça ficar eriçado. Era um Chivas Regal. 

-Algum problema? – Perguntou o comandante percebendo nossos rostos assustados. 

-Não senhor. Mas me lembro do senhor me dizer que não bebia e não fumava e por isso é que mantinha a forma e a boa saúde. 

-É verdade. Mas brasileiro… Depois de tudo… Momento pede comemoração. Beba, beba… Muito bom.  

Aceitamos e concordamos com o comandante. Eu bebi o copo de uma só vez. Quando a bebida desceu na garganta, ardendo e queimando, imediatamente lembrei de Lindalva. Aquela mulher tinha a volúpia de uma bacante e a sabedoria de uma Beatriz de Dante.  E foi ela que me ensinou a usar estar metáforas, pois como engenheiro estava mais habituado a números e linhas. Ela era filha de um cônsul americano no Brasil e estava estudando ciências humanas na mesma universidade onde estávamos. Aquela mulher me viu e não sei o que percebeu em mim que me perseguiu até que conseguiu ficar comigo. Ninguém entendia como ela tinha escolhido ficar com o que hoje os mais jovens chamariam de nerd. Mas passar algumas horas com ela era sublime e delicioso. E tenho certeza que ela teria alguma teoria sobre aquilo que vimos. 

O comandante estava do outro lado da mesa. Esperou que experimentássemos da bebida. Deu uma baforada e bateu o cigarro num cinzeiro que tinha a forma de um dragão oriental. 

-Então… Vocês sabem o que foi aquilo? – Perguntou o o comandante olhando para as cinzas no cinzeiro. Não sei como, mas senti no comandante alguma vergonha. Talvez por ter entrado em choque no momento que ele percebeu que seria o fim de todos. Eu mesmo me perguntava como também não morri, antes mesmo da onda gigante virar o navio. 

-Comandante, sabemos tanto quanto o senhor. 

-Acha que aquilo foi coisa de UFO? 

-Não acredito nisso. Vi quatro pessoas com cabeça, corpo e membros como nós. Mãos que tinham cinco dedos. 

-Foi coisa de americanos? 

-Existe alguma coisa neste navio que é de interesse dos Estados Unidos ou de qualquer outro país? O comandante olhou para nós três por alguns instantes, fumou mais e disse. 

-Não, não… Se tem algo em contêineres, eles devem saber tudo, tudo… A companhia trabalha para muito países. Estados Unidos também. Eu aporto lá umas 3 ou 5 vezes anos. 

-Sendo assim, poderíamos dizer que foi coisa de chineses, russos, alemães, britânicos… Eu não acredito nisso comandante. 

-No que você acredita então? – O comandante tragou novamente o cigarro e assoprou para o lado, mantendo o cigarro entre os dois dedos indicador e médio, sobre o cinzeiro. 

-Eu acredito que seja lá o que foi aquilo ou eles, salvaram nossas vidas. Isso é o que importa. – Respondi olhando bem nos olhos do comandante. Fiz questão de aproximar meu rosto bem junto ao do comandante, tentando mostrar a ele que eu não tinha como responder as dúvidas dele que também eram as minhas. 

-Mas meus marinhos dizer que viu eles apontarem para vocês o braço. 

-É verdade comandante e em seguida desapareceram em minúsculas gotas d’água. Mas acredite em nós. Não temos culpa sobre o que aconteceu. 

-Oh não…Não é isso. Eu pensar contrário. Brasileiros trouxe sorte. Comandante não culpar vocês. Eu ter convite para vocês. – Neste momento o cigarro do comandante tinha sido todo consumido até o filtro. Ele com muita delicadeza apagou o que restou no cinzeiro. Juntou as mãos sobre a mesa e olhou para nós três. 

-Eu ter homens de mundo todo neste navio. Ver Myung-Dae? – Neste momento o capitão passou o braço sobre os ombros do velho marinheiro que sorriu alegre – Ele soldado de guerra Coreia. E vocês viram Italiano, Francês, Alemão, Mexicano, Inglês, Norueguês, Americano, Árabe… Assim que gosto. Mas queria brasileiros. Faltar brasileiros… E eu gostar de Brasil. Eu encontrar vocês e gostei de vocês. Quer trabalhar com comandante Thaksin?  

Eu, Nelson e Joelson nos entreolhamos e tentamos em alguns segundos imaginar nosso futuro em um navio cargueiro viajando pelo mundo. Enquanto pensávamos, o comandante Thaksin explicou todas as oportunidades que a companhia do navio oferecia aos tripulantes dedicados e interessados. Ele disse que um dia poderíamos até ser como ele e começou a lembrar alguns casos de outros marinheiros. Ele já estava entre muitos risos e enchia mais uma vez seu copo do Chiva Regal. Toda vez que eu via aquela garrafa, só lembrava da nossa piscina. 

 Falando por todos, lembrei ao comandante que éramos estudantes e queríamos concluir nosso curso de engenharia. Mas que mantivesse o convite aberto. O comandante disse que já nos considerava parte da tripulação e que quando voltássemos ao Brasil, quando quiséssemos, quando ele estivesse em um porto brasileiro, sempre poderíamos nos integrar aos seus marinheiros seja nas férias ou permanentemente. 

Fomos dispensados pelo comandante, não sei antes ele dizer algumas palavras como se algum tipo de prece oriental sobre nós e sorrindo muito. Disse para nos divertimos o máximo e que estávamos livres para fazer qualquer coisa no navio e que não tivéssemos vergonha de pedir nada. E quando chegássemos em Fiji, iria pagar um passeio para nós na ilha. 

Saímos da sala aliviados e felizes. Mas encucados com a garrafa de whisky Chiva Regal.  

-Mas que p***a tá acontecendo com a gente? – Falou Nelson, enquanto nos dirigíamos para o convés. 

-Pergunta pra seu irmão Einstein, aí. Ele que entende dessas coisas. – Falei sério olhando para Joelson. Mas ele apenas me mostrou o dedo médio e fomos ver o oceano pacifico, enquanto o navio deslizava calmo sobre ele em direção a Fiji. 

Na ilha tivemos um baita de um passeio turístico em lugares paradisíacos. O comandante pagou tudo e nos melhores hotéis. Em Fiji senti muita falta de Lindalva. Alguns lugares eram ótimos para uma lua-de-mel e comecei a divagar sobre um futuro junto com ela. Senti a saudade chegar a um ponto que quase combinei com Nelson e Joelson para pedir ao comandante uma viagem de volta ao Brasil, sem voltar par ao navio. Os irmãos também já tinham comentando que já começavam a sentir saudades dos pais.  

Enquanto decidíamos sobre isso. Estávamos aproveitando nosso passeio pela ilha com um guia turístico, quando vimos uma multidão fazendo uma festa em plena rua. Era população nativa e vi que um homem segurava uma garota sentada em seus ombros, dançava e cantava com os demais. A menina segurava um papel, imaginei que era cartolina onde tinha uma figura pintada a lápis de cor que não conseguia definir o que era pela distância que estávamos. Imaginando que seria alguma celebração religiosa e me lembrando de Lindalva, pedi ao guia para perguntar o que estava acontecendo. Ele se aproximou de um da multidão. 

Ele voltou explicando que aquele homem que estava segurando a garota era um dos proprietários da maior rede hoteleira da ilha. E que era a filha dele que estava nos ombros. Que ela estava gravemente doente e já tinha sido considerada caso perdido para os médicos. Que ela já estava de coma, até que por milagre ela se levantou da cama do hospital como se nada tivesse acontecido. E o papel que ela segurava era dos deuses que tinham curado ela. Então o pai estava oferecendo uma festa em homenagem aos deuses e pela cura da sua filha. 

Ouvi tudo aquilo e pensei que Lindalva ia adorar a cena. Nós três estávamos encostados em uma parede quando a multidão foi chegando mais perto da gente com muita cantoria e algazarra. A procissão foi caminhando sobre nossa frente e quando o pai com a menina passou sobre nós, ela começou a gritar para o pai e começou apontar para gente. Parece que pedia para descer, o que o pai fez e veio correndo até onde estávamos. Sem fôlego e falando no idioma que não entendíamos, ela nos mostrou a cartolina e o desenho que ela tinha feito. Nós três seguramos a cartolina e o que vimos nos apavorou. 

Meus Deus! – Eu gritei e comecei a tremer.  

No desenho tinham três homens em uma sala. Cada um deles tinham aquelas pequenas esferas que vimos no submarino voador, flutuando ao lado da cabeça deles. Uma para cada um. O que parecia com Nelson olhava para uma garota na cama, enquanto outras esferas estavam sobre ela. O outro estava de braços cruzados, observando a situação da garota, parecia comigo. E o outro parecido com o Nelson, apontava o dedo médio para uma garrafa. Era a mesma Chiva Regal que bebemos com o comandante. Do lado do desenho com os três homens e a garotinha, aqueles símbolos parecidos como a do homem que apontou para nós lá no navio. A menina desenhou o rosto de cada um em detalhes. E podíamos ver que éramos nos três. Vestidos com uniformes parecidos como o dos homens que vimos sobre a nave. 

Pedimos a nosso guia para nos tirar dali imediatamente, puxando-o para o carro e que nos levasse ao porto. Entramos no navio e decidimos ir embora para casa a partir de Shangai. 

 O comandante exigiu que todos os tripulantes fizessem um juramento que não iriam contar aqueles eventos a ninguém para o bem de todos. E mais ainda o comandante insistiu que nos éramos parte de sua tripulação. A mesma resposta dei ao comandante Thaksin quando bebemos juntos e ele tinha terminado de fumar seu cigarro e jogar a ponta na boca do dragão.  

FIM.

Baseados de desejos – Passeio na Vila Mil Mimos

 

Isso aconteceu a uns 10 anos atrás. Naquela época eu era um jovem mais maduro do que sou agora e pesava menos, talvez uns 20 quilos mais magro. Agora sou gordo e infantil. Mas o que interessa esses detalhes? Deixe-me ir logo a narrativa.

Eu era estudante de Engenharia e decidi num destes sagrados e frequentes feriados prolongados de fim-de-semana, ir para a Vila Mil Mimos. Conhecida por suas profissionais do prazer e oferecendo preços acessíveis, Vila Mil Mimos poderia ser uma experiência exuberante para um jovem de classe média como eu, ordinário de costumes e lugares. Pois assim, decidi. Faria algo diferente neste feriado. Mais pela experiência antropológica do que pelos serviços ali prestados com tanta tradição milenar.

Naquela sexta-feira, atravessei os umbrais da Vila vestindo uma camisa branca de listras azuis finas se cruzando por todo tecido que cobria a cintura de um jeans lavado e tênis brancos com traços pretos. Tentei ser o mais simples possível. Mas enquanto eu seguia a trilha sulcadas por fregueses, donas e damas do lugar me fitavam com sorrisos e cochichos e apontavam com queixos e dedos minha passagem.

Era possível ver que a vila foi construída aos poucos e a diversidade de bares com seus quartinhos eram coloridas por múltiplas cores, sendo as mais frequentes amarelo, rosa e verde. O desalinhamento das alturas dos estabelecimentos e seus formatos lembrava favelinhas. Pareciam improvisados, mas existia uma organização que funcionava muito bem. Afinal de contas, o lugar já existia por 35 anos.

Fui passeando morosamente pela avenida principal de asfalto gasto e músicas que convidavam a alegria. Muitas profissionais me cortejavam com psius e braços estendidos com mãos brilhando sob lâmpadas rodeadas de insetos de luz. Era possível ver mulheres de todas as matizes, em uma variedade brasileira que Gilberto Freire tão bem explicou. Eu escorregava por elas e agradecia as ofertas, sorrindo tímido mas persuasivo para que não insistissem. Talvez eu seria o único homem naquela noite que entrou naquele lugar, sem contratar os serviços das saborosas deusas do prazer.

Até que de repente, uma mulher já aparentando uns 50 anos fez os tradicionais gestos de convite e segui respondendo para ela como respondi para as outras. A mulher de maquiagem um pouco exagerada, top vermelho que seguravam seios lutando contra a ação do tempo e short de veludo  em coxas nuas e gordas com sandálias plataformas, veio rápido em minha direção e ficou em minha frente. Passou a mão direita pela cabeça e balançou os cabelos como uma amazonas que ajeitava um capacete.

– O que você tá fazendo aqui?

– Só vendo.

– Só vendo? Isso aqui não é shopping, não. O que um menino cheirando a leite tá fazendo aqui?

– Vim conhecer. Só isso.

Neste momento, a mulher exageradamente passou a língua entre os lábios e começou a falar as coisas mais libidinosas e sensuais que um homem poderia receber. No entanto, o efeito era contrário em mim e senti que a qualquer momento, o fogo que sentia no rosto poderia me devorar de vergonha.

– Faz tempo que não papo um anjinho. Ai que delícia! Matilde! Olha o que consegui aqui… Ai que cheiro gostoso… Vou fazer você gemer assim… assado… Lorene, olha…

Bom. A mulher já tinha me abraçado e me segurava pela mão e outras profissionais riam no bar de onde essa me aprisionou. Eu estava paralisado. Não sabia se era uma boa idéia negar a oferta daquela que parecia ser uma manda-chuva do lugar. Homens altos e fortes espalhados por outros bares da avenida, assistiam a cena e sorriam descaradamente. Já começa a me arrepender por não ter aceitado antes, ofertas mais atraentes. Eu olhava para todas as direções e pensava na melhor desculpa para convencer aquela mulher sem aborrece-la.

Foi quando apenas senti um baque na minha outra mão que fez a direita descolar da velha dama libidinosa. Foi um puxão que quase me fez cair. Gritinhos de fêmeas e palmas ecoaram pelo lugar e risadas foram disparadas para a velha profissional que gritou para minha salvadora que iria depois conversar com ela.

Depois de andar uns 3 metros sendo puxado por essa mulher, empaquei e ela se virou para mim. Eu desatei minhas mão da dela e comecei a passar as mãos sobre mim, como alguém que se limpa de poeira. Quando me dei conta, um par de olhos me fitava. Uma mulher de vestido verde curto e elegante, modelava um corpo branco de traços africanos e toques indígenas. Um exemplar freyriano do mais alto nível e beleza. Estava com os braços cruzados e me olhava com uma certa sensualidade compassiva.

– Já acabou?

– Acabou o que?

– De se limpar.

– Acho que sim… Quem é você?

– Meu nome é Tiffany. Prazer. – Essa mulher estendeu o braço até a mim como uma executiva em um encontro de negócios. Além de linda, era diferente de tudo que eu tinha visto até aquele momento na Vila Mil Mimos. O riso dela se abria em uma lua crescente e dentes lindos bem alinhados, contrastava com os lábios brilhantes pintados de rosa. Eu apenas estendi a minha mão e apertei a dela. Da mesma mão que tinha me puxado, agora pude sentir uma maciez morna. Ela continuou a segura a minha mão.

– Vem. Vamos conversar. Qual seu nome?

– Jean.

– Com G ou com J.

– Com J.

– Como Jean Baptiste ou Jean Paul-Sartre?

– Acho que como como Jean Cocteu.

Neste momento, Tiffany soltou um gritinho e riu disparadamente. Eu sorri tímido e surpreso porque ela entendeu uma piada que outros não entenderiam. Ninguém entendia meu nome e pronunciavam de tantas maneiras que me contentava com a melhor pronuncia que a pessoa conseguia. Chegamos a um barzinho modesto, mas típico da Vila.

– Armando… Tudo bem?

– Tudo bem.

– Me dá um refrigerante.

Enquanto Tiffany fazia o pedido, pude ver seu corpo por inteiro. O balcão do bar tinha aquelas cadeiras de formato redondo e ela pôs a perna esquerda dobrada sobre uma e ficou de bruços sobre o balcão. Suas pernas eram grossas e bem torneadas e combinavam com um bumbum cheio. Os seios grandes, mas não exagerados e eram proporcionais ao resto do corpo. Os cabelos eram pretos meio crespos e cacheados. O vestido colava em seu corpo e fazia linhas tênues como um pintor que desenha montes em vales verdejantes.

Ela pegou o refrigerante e me levou para o fundo do bar. Ela pôs o refrigerante e dois copos de vidro sobre uma rústica e pequena mesa de madeira. Ela puxou uma cadeira do mesmo tipo da mesa e pôs bem em minha frente. Ela se sentou e pôs sua perna esquerda sobre a direita. Uma penugem dourada cobria suas coxas e vi uma cicatriz no joelho esquerdo. Eu já tinha me recomposto e quis também dirigir nossa conversa.

– E essa marquinha no joelho?

– Queda quando eu era menina.

– Eu também tenho uma marca dessa.

– Sério. O que foi?

– Queda. Quando eu era menino.

Tiffany riu porque eu a imitei. E riu gostoso, fechando os grandes olhos de mel e se jogando pra trás.

– O que você tá fazendo aqui Jean?

– O que você está fazendo aqui, Tiffany?

– Ah, pode parar… Eu perguntei primeiro.

– Aventura. Passeio antropológico.E você?

– Hum… Trabalho. – Tiffany balançou os ombros como se eu faltasse com a lógica.

Eu não queria entrar mais em detalhes sobre a vida profissional de Tiffany. Eu sabia que aquele nome era um disfarce como era o de todas aquelas profissionais. E eu as respeitava. Apenas não entendia o que uma mulher da categoria dela estava fazendo na Vila quando poderia estar como uma scott e acompanhando homens da alta sociedade.

– O que você faz? – Tiffany bebericava o refrigerante e apertava os olhos levemente a cada gole. Eu por minha vez mantinha meus olhos apontados para os dela.

– Estudo Engenharia. Só isso.

– Muito bom. Eu faço Direito.

– Está gostando?

– Hum… Tem mercado e oferece muitas oportunidades. – Ela respondem sacudindo os ombros. Era uma mulher pragmática e experiente. Pudera. Aquele tipo de profissão não era para ingênuas.

– Você é diferente, Tiffany.

– Ah tá. E eu estou conversando com o senhor normal que vai para um puteiro fazer um passeio antropológico.

Eu ri. Passamos umas 2 horas conversando sobre um mundo de coisas. E eu já estava para dizer para Tiffany que ia embora para casa. Foi quando ela parecendo adivinhar meu pensamento, falou.

-Vamo lá no meu apartamento. Meu computador tá dando um problema. Você me ajuda? Eu te levo pra casa depois.

Eu me sentia meio que devedor da Tiffany, mas estava desconfiado. Sempre estive, faz parte de mim. Eu a olhei e demorava para responder.

– Vamo Jean. É rapidinho. Me ajuda ou te levo para a Dilermina.

– Não, não… Vamos. – Concordei com ela. Agora sabia que a velha dama que tentava uma experiência insólita comigo se chamava Dilermina. Claro que aceitei a ameaça da Tiffany como uma desculpa para satisfazer minha curiosidade sobre a vida dela. O lar de uma pessoa diz muito sobre ela. Queria saber onde ela morava.

Tiffany cheia de sorrisos me deu a mão e ao passar pelo balcão deu uma piscadinha pro barista. Eu fiquei encucado, mas deixei ela me levar. Pela deusa! A mulher era linda. Era difícil dizer não a ela.

Saímos da Vila Mil Mimos e paramos em um pequeno carro Toyota. Ela jogou as chaves pra mim e pediu para que eu dirigisse. Eu entendi o recado e a partir daquele momento confiei nela. Assumi o volante e ela me disse o bairro onde morava.

Enquanto eu dirigia, divaguei sobre vários assuntos com Tiffany. Nem sempre ela me respondia de acordo e acabava falando alguma coisa sobre mim e meu jeito.

– Você sempre dirige assim meu bem?

– Assim como?

– Tão certo e tranquilo?

– E quem disse que sou certo e tranquilo? Mas estou me divertindo. São seus olhos Tiffany.

Quando olhei para o lado , vi que estava corada. Eu não entendi aquilo, mas também não quis perguntar.

Chegamos a uma rua e a um prédio sofisticado, onde entrei na garagem passando por um vigia que balançou a cabeça positivamente a cabeça para Tiffany. De repente, comecei a pensar se eu não seria alvo de uma daquelas lendas urbanas como tráfico internacional de orgãos. Quando saímos do carro, os lábios úmidos de Tiffany e um olhar tímido meio que fugindo do meu me diziam outra coisa. Parece que a situação se inverteu. Entramos no elevador e Tiffany já falava mais baixinho e diferente. Estava desmontando seu disfarce profissional e eu começava a vê-la tal como ela era.

Chegando no 8º andar, fomos ao apartamento 814. Ela abriu a porta pra mim e segui em frente, parando em um ambiente parecendo um daqueles studios americanos. Quando ela chegou perto de mim, um inseto verde começou a voar pelo apartamento, o que fez Tiffany se desesperar como uma moça com seu primeiro namorado assistindo um filme de terror no cinema. O inseto se cansou e vi que era um daqueles gafanhotos verdes e dos grandes. Eu desabotoei minha camisa e joguei em cima do inseto.

– É apenas um gafanhoto. Está vendo? Vou devolver ele. Posso abrir a janela?

– Pode sim. Mas isso nunca aconteceu antes.

Eu apenas deixei que o gafanhoto voltasse para a natureza e me virei para Tiffany perguntando onde estava o computador. Ela me apontou uma mesa encostada na parede. Eu coloquei novamente a camisa no corpo e me sentei diante do notebook. Ela me disse que ia tomar banho e que eu poderia fazer qualquer coisa. E dizia enfaticamente que era qualquer coisa mesmo. Eu fingi desentendimento e abri a tampa do notebook e comecei a fuçar no sistema. Mas mantive cautela e fiquei observando qualquer coisa de diferente naquele apartamento.

O apartamento era sofisticado e com decoração minimalista. Eu nunca tinha estado num daqueles. Eu mexia no computador, mas não encontrei nada de errado. Logo comecei a ver que Tiffany tinha mentido pra mim e me preparei para o pior. Fiquei sério e preparado para enfrentar qualquer perigo.

De repente, uma mulher nua com cabelos úmidos veio andando mansamente como uma gata até a mim.

– Algum problema, Jean?

– Nenhum, nenhum mesmo… Eu me virei na cadeira giratória e respondi olhando para aquela mulher deusa que exalava um perfume amadeirado que lembrava algo antigo e bom.

– O que significa isso? – Perguntei para saber se eu era mais um cliente dela, pois com certeza eu não tinha nem 10% do valor que ela deveria cobrar de outros.

– Isto é amor.

Tifanny se sentou nua em meu colo e agarrou minha cabeça beijando minha boca e todo meu rosto. Aquela virulência erótica me transtornou e apenas quis satisfazer aquela mulher como ela merecia.

Acordei e olhei para meu relógio que marcava 07:50h. As cortinas brancas começam a filtrar uma luz que iluminava a cama e fazia a penugem dourada do corpo nu de Tifanny brilhar como uma caixa de joia feita de ouro.

– Tifanny…. Tifanny… Eu tenho que ir.

– A mulher se espreguiçou como uma serpente na cama. Tudo era lindo nela. Cada detalhe. Se eu descrevesse exatamente como era seu corpo, o leitor ou a leitora não dormiria tranquilo e teria muitas necessidades.

Ela se levantou e saiu do quarto, trazendo a roupa que ela me despiu. Ajudou a abotoar a camisa e até mesmo atou os laços dos meus tênis. Isso toda nua.

– Você viu meu cinto?

– Aqui. Quem te deu? Outra mulher.

– Ah Tifanny, acha que sou do tipo que sai com mulheres todo final de semana e ganha presente delas?

– Pois deveria. Quem ganha o presente são elas.

– Pare com a piada. Este cinto foi um presente, mas não foi uma mulher. É uma longa história. Talvez em outra oportunidade…

Tiffany passou o cinto pela minha cintura e fez perguntas sobre a fivela. Apenas repeti a ela a resposta anterior.

Ela continuou nua e me serviu o café-da-manhã. Eu comi e fui me despedindo dela. Ela quis me levar pra casa e eu dispensei dizendo que eu mesmo poderia fazer isso. Que eu iria chamar um táxi pelo aplicativo. Que ela não se preocupasse. Então ela vestiu uma camisa grande com uma grande estrela de 5 pontas negra e me levou até a porta.

– Você me faz sentir mulher.

– Eu adoro mulheres. E foi um grande prazer te conhecer.

– Você é diferente, Jean.

– Eu sou como você, Tiffany. Pense.

– Tesão.

Senti a mão dela segurar minhas genitais e um beijo molhado na boca. E assim fui embora.

 

FIM.

Baseado de Plágios – Um Petrocontro de Outro Mundo

 

A narrativa seguinte ouvi durante a paralisação dos caminhoneiros. Eu estava na BR-381 em um ônibus coletivo, perto de Betim, quando fiquei parado em um engarrafamento. Oportunamente, a janela do lugar que eu estava, ficou bem ao lado de alguns caminhoneiros que estavam contando casos uns para os outros. E sabe como é. Caminhoneiro é que nem pescador. Suas aventuras pelas estradas do Brasil, proporcionam os mais fantasiosos episódios vividos ou criados por eles. Eu também adoro fantasias. Aliás, nós brasileiros, de maneira geral, adoramos fantasias. Entre algumas aventuras que ouvi daqueles caminhoneiros, durante aquele engarrafamento, esta foi a mais interessante.   

Em 1996 Dorgebildo dirigia um caminhão da Petrobras e estava levando um carga de gasolina na rodovia BR-381. Na altura mais ou menos ali de Três Corações, Minas Gerais, sentiu uma vontade danada de fazer xixi. Não tinha costume de parar o caminhão no meio da estrada e urinar na roda do veículo ou no canteiro da rodovia. Ele conhecia as várias paradas da Fernão Dias, onde poderia atender de maneira decente e civilizada os apelos da natureza. Mas dessa vez, sua bexiga estava impaciente e exigia a imediata libertação do amarelo e quente líquido resultado do trabalho árduo de seus rins.  

Ficou olhando para a beira da estrada e num trecho da Fernão Dias, viu uma mata mais fechada e entrou numa estradinha que cortava a vegetação ao lado da rodovia. Estacionou seu caminhão com o grande logotipo da BR Distribuidora. Dorgebildo era um motorista requintado. Desceu do veículo e foi andando procurando um matinho mais bonito, onde ele pudesse se aliviar esteticamente e refrescar a terra brasilis. Quando escolheu o lugar, abriu o zíper e cumpriu a missão renal. Depois de se certificar que seu peru já tinha pingado tudo, ele tudo colocou de volta no seu devido lugar. E já ia voltando pro caminhão, quando viu no canto de seus olhos uma pessoa.  

Ela estava agachada e encostada em uma árvore. Ao redor dela, uma substância meio gelatinosa e de cor verde radiante, marcava vários pontos da floresta. Parecia um anão de cócoras, com as mãozinhas na cabeça que se mexia devagar pra lá e pra cá. Colocava as mãozinhas na barriga e continuava a balançar a cabeça negativamente. Dorgebildo foi até ao anãozinho, pensando que alguém tinha se perdido na mata e precisava de socorro. Mas quando chegou perto, o espanto. Um ser de olhos enormes, sem nariz, boca pequena, pele marrom brilhando e 3 chifres olhou profundamente para ele e saiu correndo em direção ao caminhão.  

Aquele ser abriu a válvula do caminhão tanque de gasolina e começou a beber o combustível. Dorgebildo estava tão espantado que não podia fazer nada, a não ser observar e torcer para aquela coisa não fazer nada contra ele. A criatura fechou a válvula do tanque e voltou para ele, da mesma maneira como ele se sentiu depois que aliviou sua bexiga. Estava voltando junto a ele, mostrando-se aliviada e levantando as mãos para o céu como quem agradece um milagre.  

A criatura chegou perto de Dorgebildo e em comunicação telepática, disse que o motorista foi enviado por Deus para salvá-lo. E agradecia muito o motorista e o abraçou expressando o que seria um choro humano de felicidade. A criatura depois de não sei quantos pedidos de agradecimento, pediu para que Dorgebildo sentasse. Ele encostou numa árvore e começou a ouvir a desventura da criatura.  

Disse o ser que ele e mais 3 companheiros estavam trabalhando na beira do sistema solar, fazendo uma patrulha para saber se estava tudo bem e se algum atrevido estava quebrando os acordos intergalácticos. De repente, um dos patrulheiros insistiu em ir a Titã, a lua de Saturno. Disse que tinha uma lanchonete lá e que o companheiro estava doido para comer alguma coisa que ele não conseguiu traduzir para a linguagem humana. Ele não concordou, mas os 3 insistiram muito e acabaram tomando o comando da nave e foram para Titã. Chegando lá, comeram os ditos alimentos intergalácticos e até mesmo o nosso extraterrestre bebedor de gasolina petrobratica acabou sendo convencido e comeu com os outros companheiros. 

 Acontece que eles exageraram na comilança e quando voltaram para a nave, começaram a sentir uma má-digestão do tamanho de Júpiter. Pelo que Dorgebildo entendeu, eles precisavam de luz direta de uma estrela para metabolizar o organismo deles. E a luz que simulava os raios da estrela do sistema planetário dele, lá na nave, não tava dando conta da comilança. E o desastre começou, pois começaram a borrar a nave toda de maneira descontrolada. 

 No desespero, decidiram ir para o planeta Terra, onde nossa atmosfera era a que melhor tratava a radiação do nosso sol e onde sabiam que tinha algo que poderia rapidamente curar a má-digestão que sentiam, gasolina. Mas era terminantemente proibido ir para a Terra e os que lá fossem, tinham prisão de 10 mil anos estelares. Entre morrerem defecando geleias satúrnicas verdes e a prisão milenar, decidiram arriscar e ir para a Terra. No desespero de dor, nem programaram a nave para um pulo preciso no planeta. Apenas deram um comando para um pulo no planeta azul e quando eles estivessem dentro da atmosfera do nosso planeta e começassem a se sentir melhor, poderiam procurar um posto de gasolina.  

Aconteceu que a nave pulou de Titã para Terra e pousou logo aonde? Sobre Minas Gerais. As criaturas pousaram a nave, ali próximo onde Dorgebildo estacionou o caminhão. Saíram da nave sentindo cólicas terríveis e cagando toda a mata ao redor. Uma discussão começou entre eles, e o amigo anão de outro mundo que conversava com o nosso brasileiro motorista, disse que ameaçou os outros a procurarem gasolina e que ia denunciá-los ao tribunal intergaláctico, mesmo que aquilo lhe custasse a própria liberdade.  

O anão extraterrestre disse que pediu muito ao deus deles que trouxesse uma solução para aquela situação e  que ele saísse disso tudo com vida. Não demorou muito, Dorgebildo apareceu com o caminhão tanque.  

Dorgebildo disse para aquela criatura que estava feliz em ajudá-la. E quando ia perguntando se já podia ir embora, antes que fosse ele que começasse a se borrar de medo, a criatura olhou de novo profundamente em seus olhos e começou a dizer “eu também gosto, eu também gosto…” Saiu da frente de Dorgebildo correndo, desapareceu num canto da mata e retornou com uns trecos voadores pequenos que começaram a limpar toda cáca do outro mundo ao redor e com outros dois trecos diferentes dos demais.   

Um treco voador apontou para o motorista e o outro para a criatura do outro mundo. De repente, Dorgebildo estava vestido em uma roupa galante dos anos 30 e a criatura com um vestido do mesma época. E começaram a dançar Cheek to Cheek, igualzinho ao filme que Dorgebildo adorava assistir com o avô. Dorgebildo não sabia como conseguia dançar e cantar igual ao Fred Astaire. Apenas dançava e cantava. E a criatura expressava uma alegria que raramente ele viu noutra pessoa como nós.  

Depois que dançaram e as roupas galantes evaporavam, o ser intergaláctico começou a se despedir de Dorgebildo, pegou na mão dele e foram andando para a nave. Quando chegaram em frente dela, o motorista viu que tinha formato de ovo de galinha. Era grande. Talvez uns 15 metros de altura por 15 metros de largura. A criatura disse que nunca mais se esqueceria de Dorgebildo e se virou para entrar nave. Foi quando o motorista perguntou para o novo amigo o que seria dos outros 3 companheiros dele. Ele olhou profundamente para os olhos de Dorgebildo e disse que iria traduzir em uma linguagem bem humana o que pensava sobre os outros. Levantou uma das pequenas mãos com apenas 3 dedos e manteve o maior dos dedos ereto. Disse alguns palavrões também para eles. Piscou um dos grandes olhos para o motorista, sorriu e entrou na nave. O ovo espacial pareceu tremer um pouco e sumiu.  

Dorgebildo voltou para o caminhão, ligou o motor e foi terminar o seu frete. Tinha uma carga a entregar e muitos motoristas do Brasil dependiam daquela gasolina que estava sob sua responsabilidade. Dias depois, enquanto almoçava em um Posto Ipilantra, viu o noticiário na televisão da lanchonete,  dizendo que em Varginha, criaturas estranhas apavoravam a população daquela cidade. Ele continuou a comer como se não soubesse de nada e sentiu saudade daquele outro que salvou a vida.  

Fim. 

Contos alucinantes – Manual de Amorcismo ( Parte 1 )

Parte 1


O gato sobe na mesa e faz um pruuu. Para ele, a longa mesa encostada na parede é uma passarela de vários livros em suportes de leituras. Ele anda pelos livros e começa a mordiscar o de capa amarela com uma mão segurando uma flor. Uma mão se estende até a cabeça do gato e o acaricia. O felino sente o afago e aproveita o máximo do carinho do seu tutor. O gato cinza e branco derruba um livro no chão. Ao perceber o que fez, pula para uma janela de vidro fechada e senta no parapeito, olhando para as pessoas que passam lá embaixo. Seus olhos miram como se já tivesse visto todas as pessoas do mundo.
O homem vê seu gato ir até a janela e fecha um livro que estava lendo, cheio de figuras com estatuetas de uma era antiga, mas que ainda se esconde sob a fina camada dos tempos modernos. Um exemplar do Livro das Horas foi resgatado do piso que estava frio, mas não tanto quanto o frio que estava lá fora. É inverno. Ele coloca o livro ao lado do outro mordiscado pelo gato. O livro amarelo é aberto pelas suas mãos e uma página declara:
“Aquele para quem não existe a outra margem, nem esta margem, ou as margens deste e daquele lado, que é destemido e depreendido -, a este brâmane eu chamo”.
O Dhammapada é fechado. As mãos abrem o Livro das Horas e olhos leem no acaso das páginas:
“ Quando eu chamo, respondei-me…”
O smartphone toca. O homem para de ler e ao ver o nome na tela, se apressa em atender.
– Alô… Sim. Tudo bem. E o senhor… Certo. Posso sim… Qual o nível? O médico está presente na casa? Muito bom… Certo. Isso acelera meu traba… Ok. Tudo bem. Pode enviar para o meu e-mail… Sim, senhor. Farei o que for possível.
De repente, o rosto do homem recebe sua mão pelo rosto com a barba por fazer. Sua face mostra uma ligeira contrariedade. O gato continua a olhar para a janela como um vigia. O homem troca o smartphone de lado do rosto e olha para o notebook. Um e-mail chegou com com um link para uma pasta criptografada em um serviço de armazenamento na nuvem.
– Não sei porque vocês insistem nessa idéia. Gosto de trabalhar sozinho. Onde está aquele…como era o nome dele mesmo… Ah. Isso. Se você lembra o nome dele, deve lembrar também o que aconteceu com ele… É… Espero que esteja melhor… Quem? O senhor está brincando? D. Ezébio que recomendou… – Risinhos escondem um nervosismo crescente no homem que segura o smartphone, enquanto ele abre os arquivos no notebook.
– E o outro? Hum… Certo… Certo… Sim, posso recebe-los, mas eles terão que permanecer sob minhas ordens e tenho direito de dispensá-los… O paciente está em primeiro lugar… Sim… Eu sei… Mas já conversamos sobre isso… Mas são poucos que tem cabeça e estômago para este tipo de trabalho. Não, tudo bem. Vou receber os dois…Certo… Tudo bem. Obrigado…Obrigado. Para o senhor também… Sim. Eu enviarei o relatório com todos os detalhes assim que eu terminar o serviço. Tchau.
O homem desliga o telefone e o deixa ao lado do notebook. Começa a ler na tela sobre o caso. A foto de um jovem rapaz de 16 anos está na tela com outros dados. Lê todo o caso. Existe alguns vídeos e os assiste. Percebe que existe algo novo… Algo que não se enquadra nas dezenas de casos anteriores. Sentiu um ímpeto maior. Assiste os videos novamente. De repente olha para o relógio do sistema e percebe que já se passaram 50 minutos, desde o telefonema. O gato parece pressentir o movimento de seu dono e sai da janela, pula para o chão, faz um puurrr e sai correndo para o quarto.
Uma vida de 56 anos se ergue da cadeira e sai em direção ao banheiro para fazer a barba. Logo as visitas chegarão. É preciso arrumar também os instrumentos do ofício. Antes de chegar ao banheiro, vê seu gato na cama. Olha para ele e o gato devolve o olhar mexendo devagar as pálpebras. Por um momento ele teve a impressão de ter visto as pupilas do gato se contraírem em slow-motion.
Túlio molha o rosto em frente ao espelho que revela suas rugas. Ele sorri para o espelho e vê o mesmo homem de 25 anos atrás. Se lembrou do primeiro caso. Foi em um bairro humilde de Roma. Logo viu que do seu jeito seria bem melhor. Mas quanto problema isso lhe causou. Mas…Os pacientes… Sim, ele chamava de pacientes e não da maneira como aprendeu na escola do vaticano. Os casos eram resolvidos com um sucesso admirável. Um sucesso que lhe custou um processo. Mas hoje, eles é que o procuram e seu método não é questionado.
Metade do rosto livre dos pelos. Quando começa o outro lado, a campainha da porta do apartamento toca. Deve ser as visitas. Vai para a porta e olha pelo olho mágico. Destranca a fechadura e vê duas pessoas em sua frente.
Um homem vestido de preto, blazer e clerical ao lado de um mais jovem de tênis, jeans e camisa casual e jaqueta com uma letra grega pendurada no pescoço. A cena não poderia ser mais díspare. Túlio pede para que entrem no apartamento e ambos passam ao lado de um homem vestido de moleton com uma camisa surrada e com meias nos pés.
-Quem é o pe.Clécio e quem é o Roberto? – Pergunta Túlio.
-Eu sou o Pe. Clécio Pereira, Ordem dos Pregadores. – Responde o homem de preto, estendendo a mão para Túlio que por sua vez limpa a mão na camisa e aperta a do padre. Durante a saudação, Túlio vê que a outra mão do padre segura uma maleta.
-Prazer. E você é o Roberto. Tudo bem? – Falou Túlio apontando o dedo para o jovem que mostrava alguns riscos de suor na testa. O rapaz abriu um sorriso e recebeu a mão do Túlio com as duas mãos. O rapaz parecia um calouro e carregava uma mochila nas costas.
-Sim, eu sou o Roberto. Sou postulante no Convento da Redenção dos Frades Menores. Muito prazer.
-O prazer é todo meu, Roberto. Eu preciso terminar de fazer a barba. Querem água, café…
-Água seria uma boa. – Falou Roberto com um rosto que confessava sua sede, através dos pingos de suor que minavam de sua cabeça.
-Fique a vontade. Pode ir ali na geladeira e sirva-se. – Túlio apontou para a cozinha no estilo americano.
-Eu estou bem assim. Posso me sentar? – Pe.Clécio deu um sorriso sério e falava com os jeitos dos tribunais.
-Ah sim. Claro. Pode se sentar. Não vou demorar. – Enquanto o padre dava as costas para Túlio, ele se sentiu novamente no Vaticano e teve uma péssima sensação. Aquele homem mais atrapalharia do que ajudaria seu próximo paciente. Conhecia bem aquele tipo. Começava a desconfiar o motivo de sua presença. Mas ficou tranquilo, pois afinal de contas, não era funcionário do Vaticano e quem estava no comando era ele. E era ele que estava prestando um favor a D.Ezébio e não o contrário. Olhou para cozinha e viu o jovem terminando de beber o copo d’agua. Já tinha simpatizado com aquele. A situação não era de todo ruim. Talvez D.Leandro tenha enviado alguém que valesse a pena.
Túlio desapareceu pelo corredor e voltou ao banheiro. O padre estava sentando no sofá da sala com as pernas cruzadas e não mostrava muito interesse por Roberto que saiu de trás da cozinha americana, mirando os quadros pendurados na parede. As paredes seguravam cenas estranhas de seres antropomórficos. Outros de aparência terrível pareciam dançar em nuvens negras, outros em fogo. Anjos e demônios em lutas. Homens e mulheres com aros dourados em torno da cabeça a acenar com as mãos para pessoas de aparência retorcida.
Em outra parede da sala viu um homem que parecia com o Túlio em várias fotografias com pessoas de todos os tipos. Pareciam sacerdotes de religiões de toda parte do mundo. Inclusive viu uma foto do próprio Túlio com uma saia gigante em chapéu de pelo, girando com outros vestidos da mesma maneira.
Os olhos de Roberto foram para as estantes de livro e viu algo que chamou sua atenção. Se agachou em um dos móveis e viu uma coleção colorida de HQ’s e Mangás. Conhecia algumas edições e quando tentou puxar um exemplar, ouviu os passos de alguém que aproximava. Sentiu uma vertigem e caiu no chão.
-Ô… Que é isso assim? – O homem estende a mão para o rapaz sentando no chão e meio sem graça. Roberto aceita ajuda e é erguido. Quando se levanta começa a falar
-Seu Túlio. Eu também uma coleção dessas.
-É mesmo? Talvez seu conhecimento literário seja de grande valor para ajudar nosso paciente. Inclusive eu gostaria de fazer algumas observações prévias. – Neste momento, Túlio e Roberto notaram o pe.Clécio que estava na cozinha cuspindo alguma coisa e lavava a boca na pia.
-Algum problema, pe.Clécio?
-Este café… Parece tinta de caneta… – O padre continuava a levar água para a boca.
-Embaixo…Aí no armário… Tem um um bule e filtro. Você pode fazer seu próprio café se quiser.
-Não…Tudo bem. – O padre continua a lavar a boca. Túlio e Roberto se olham como se entendessem toda a situação. O padre ajeita sua roupa e confere o clerical em um espelho da cozinha e retorna para a sala, onde os outros dois o aguarda. O homem de preto chega perto deles, fazendo um barulho com seus sapatos que incomodariam o teto do inferno.
-Muito bem. A primeira coisa é que vocês precisam usar isso aqui. – Túlio tira de uma sacola duas fraldas geriátricas. – Vocês podem ir lá no banheiro se vestir. Mas por favor não demorem.
-Roberto olha para as fraldas desconcertado e pe.Clécio expressa uma indignação que lhe abre os poros.
-Perdoe-me a franqueza, mas eu não vou vestir isso. É algum tipo de brincadeira? Por que se for eu considero isso algo muito desrespeitoso.
-Pois então, o senhor perdoe a minha franqueza, caro pe.Clécio, de lembrar-lhe que eu sou o doutor aqui. E sei muito bem que tipo de trabalho é este e o que pode acontecer. Se o senhor não quer vestir, o problema é seu. Mas em outras situações ou o senhor obedece as minhas recomendações ou vou pedir que deixe-me conduzir o meu trabalho sem me ocupar com sua presença. Quantas vezes o senhor fez este tipo de trabalho?
-Será minha primeira vez. Acabei de terminar o curso pela pontifícia universidade de Santo Afonso de Ligório. – Falou o padre que tentou conter sua raiva com o orgulho de sua formação e impor respeito a Tulio, apontando para um lugar que ele conhecia muito bem.
-Meus parabéns. Então você vai me fazer um favor. Enquanto você estiver comigo, jogue fora todos os manuais e todo aquele teatro que você aprendeu lá. É do meu jeito ou o senhor esta dispensado.
O padre cerrou um pouco seus olhos e balançou vagarosamente a cabeça para Túlio. Queria utilizar todo o direito canônico contra o homem bem na sua frente que estava vestido de calças jeans, blusa branca, jaqueta e tênis azul listrado nos pés com um boné e óculos esportivos. Mas sabia que aquilo não teria nenhum efeito sobre ele. E o próprio Euzébio pediu para ele paciência diante da ousadia e petulância do excomungado “doutor das almas”.

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Baseado de fatos reais – Fart is not life

A seguinte narrativa foi ouvida em uma fila de desempregados.

Um cidadão animava em uma fila, compatriotas do reino do desemprego tropicaliensis, contado causos de sua própria vida. Eis aqui a que mais me interessou.

Dizia ele que quando era menino, ia com os pais visitar seus avós no período de férias, que moravam numa roça na lá região de Muriaé. Tinha um avô que já estava com seus 80 anos e que era um velho sem muita educação.

O velho tinha o péssimo costume de peidar nos momentos mais inconvenientes. Exemplo, peidar depois do almoço. O neto perguntava surpreso na mesa, depois de um peido perdido.

– Que foi isso?

– É a vida, meu neto. Isso é vida. – Respondia o velho com umas risadinhas assim: Ê..ê..ê..ê..ê.  Às vezes, para cada “ê”, uma pocada de bufa acompanhava suas risadas que se misturava com as de toda família.

A avó mandava o netinho chamar o avô que tava lá na roça. O menino chegava correndo lá.

– Vôôôô… A Vó tá lhe cha…. – Pruuuuuuuuu…pum…pum.. praaa papapapaaaaa. O cidadão menino dizia que chegava a colocar as mãos na orelha. O avô apenas respondia:

– Seu vô tá vivo. Isso é a vida. Só peida quem tá vivo. Diz pra vó que já tô terminando aqui com os “pé” de mandioquinha e já tô indo.

Uma vez foram no comércio do centro de Muriaé, no mercado da cidade. Quando comprava umas varas de pescar e foi pagar, soltou um pum na lojinha, constrangendo a todos ali dentro. O velho era imbatível, respondia com orgulho e ainda se fazia de educador público.

– Gente, peido é vida. Só peida quem tá vivo. Tem vergonha de peidar não. Faz que nem eu…ó… Pruuuuruuuuuu pá…pumpum…trararrraatata…. poc, poc, tum. Ê…ê…ê…ê…ê.

Nosso amigo visitou seus avós várias vezes e aquilo fez parte da sua vida, tendo belas e humoradas recordações do seu avô. De certa forma, aquilo o influenciou e quando peidava, sentia-se como seu avó. No entanto, não tinha a falta de vergonha dele. Sempre foi um cidadão muito bem polido, até mesmo na soltura de seus gases intestinais.

Fez um curso para vigilante patrimonial e assim trabalhava para cuidar de sua vida. Até que um dia foi escalado para trabalhar num cemitério de Belo Horizonte. Lá foi ele para o novo posto de trabalho. Segundo ele, nunca teve medo de almas penadas e coisas do outro mundo e recebeu com muita normalidade a escalação.

Na primeira noite no cemitério, foi fazer a primeira ronda para proteger os ancestrais restos dos depravados ladrões de covas. Acontece que nosso amigo não tinha nenhum conhecimento patológico das reações químicas pós-morte. E ele disse que passava por um corredor de tumbas, quando ouviu um estalo e em seguida um som como um ssssss…tratrec trec…sssss… pá…pá.

Ao ouvir o som, ele não pensou duas vezes. Saiu correndo para administração do cemitério e ligou para o 931, pedindo pelo amor de deus uma equipe de resgate, pois tinham enterrado uma pessoa viva.

Aquilo foi um furdúncio que chegou a sair até nos noticiários. Como todos podem presumir, eis o motivo do cidadão estar desempregado e ter perdido a sua autorização como segurança.

Todos nós rimos naquela fila, esquecendo por alguns minutos as dificuldades que ainda passamos.

FIM

Contos alucinantes – Parque Municipal de Belo Horizonte 1920

Em 1920 visitei o Parque Municipal de Belo Horizonte. Parei em frente ao laguinho e fiquei me distraindo com os peixes que nadavam sob o reflexo das luzes cristalinas. De repente, vi um dos barquinhos do lago se aproximando de mim. Vinha vagoroso e percebi que a pessoa que remava mantinha os olhos fixos em mim, sem piscar suas pálpebras e nem olhar para os remos. Parecia ter certeza que não me perderia de vista.

Fiquei ali sobre o parapeito fingindo calma. Talvez fosse um cidadão solitário que queria apenas uma prosa, durante o horário de almoço. O senhor de terno e chapéu xadrez, ancorou o barquinho do meu lado e começou a falar.

– Tudo bem? – O homem de uma tez muito branca e de bons traços no rosto, abriu um sorriso com mil dente para mim, saudando-me com o chapéu arrendondado nas mãos. Achei-o muito magro e o vento parecia o atravessar como as velas de uma antiga embarcação.

– Prazer. Tudo bem. Muito calor hoje, né? – Limitei-me apenas a estas palavras, usando do bom comportamento reservado dos mineiros.

– Gostei dos seus contos em 2018.

– Como é? – Respondi como quem encarava um louco. Deduzi que tinha encontrado um destes que perambulam pela cidade, procurando a quem ocupar com suas sandices.

– É sim. Eu gostei. Gostei mesmo. Mas só eu entendi. – O homem formou uma parábola com os lábios, enquanto balançava devagar a cabeça em aprovação. O jeito foi entrar na conversa do cidadão com olhos enormes que lembrava os de Marty Feldman.

– Ah sim. Muito obrigado. Um é melhor que zero. Não é mesmo?

– É sim. Gostei tanto que vou lhe pagar pelos contos. Toma aqui. – O homem enfia a mão no terno e volta a suspendê-la a mim. Quando abre a mão uma moeda de quarter dólar aparece.

– Tome. É sua.

– Obrigado, mas eu não tenho troco.

Ao dizer isso, o homem magrelo explodiu em risadas que espantou passáros, fez peixes pularem e o vento assobiar pelas árvores do parque. Pingos de lavas cristalinas desceram pelo seu rosto e começou a manchar o barquinho com manchas negras como carvão.

– Você é demais. Ninguém faz isso comigo, só você. Agora é a minha vez. Abra sua bolsa.

Boquiaberto com aquele fenômeno, abri minha bolsa e para minha surpresa encontrei dezenas de moedas. Como eu gostava de numismática naquela época, logo pude ver dracmas, denários, conchas, escudos, florins, dobrões e tantas outras mais antigas. Fiquei espantado com aquilo e mudei de idéia sobre aquele homem em pé no barquinho. Talvez fosse um daqueles mágicos. As moedas eram lindas e eu estava encantado por elas quando ele me tirou daquele transe.

– Dá-me este denário. Quem sabe refresca esta tua cabeça.

Dei um denário ao homem e ele me deu o quarter dollar. Quando fui colocar o metal americano com as outras moedas, vi que todas tinham desaparecido. Voltei a olhar para o homem que rapidamente pegou em minha mão como dois cavalheiros fazem quando terminam um trato comercial. E começou a cochichar várias coisas em meu ouvido. Não entendi nenhuma delas. Às vezes, ele parecia falar ao contrário. Noutras as palavras saiam mais pelo nariz afilado. As únicas que entendi foi alguma coisa  em latim, pois todo domingo eu ia na capelinha da Nossa Senhora do Rosário e ouvia o padre rezar as missas na língua morta de Roma.

Ele afastou sua cabeça da minha, mantendo ainda firme nossas mãos atadas. Meu sangue gelava. Uma sensação terrível de deja vú possuiu minha mente. E aquela alegria inexplicável invasiva e rápida, deixava-me aturdido. Que loucura era aquela. Tudo que eu quis naquele dia, foi me distrair e me refrescar nas brisas do parque.

– Você pensa que eu sou louco, né? Mas você é que é. Como consegue? – O homem levantou as sobrancelhas,  mexendo os grandes olhos para lá e para cá, e apontando com o queixo tudo em volta. Sua mão era fria e ossuda. Lembrava galhos de uma árvore. Fez um pedido. – Ajude-me a sair do barco.

Ajudei o cidadão misterioso a sair do barco. Ele não largava minha mão. Começou a falar novamente como que em segredo, movimentando a sua mão livre como um guia em um tour turístico mostrando todo o parque.

– O Demiurgo, meu caro… O Demiurgo. Ele está nervoso. Sobre o manto negro do universo seus pés se agitam, enquanto estrelas desobedientes riem de suas ordens. Seus espectros desesperados cantam roucos sobre almas que não estão querendo mais ouvi-lo.  O Um está feliz, muito feliz…

– Eu, eu…Não entendo nada do que você está falando. – Falei gaguejando, mas senti que algo dentro de mim mentia. Mas não sabia explicar aquilo.

O homem misterioso começou a passar as mãos no terno e a esticá-lo. Tirou o chapéu arredondado da cabeça e fez algumas conferências nele. Deu umas batidinhas com um dos pés calçados de sapato preto. Quando mexeu seu pé, percebi que seu corpo não fazia sombra. Ele notou minha descoberta e mostrou aquela milhar de dentes, falando-me com o olhar diretamente nos olhos.

– E agora? Lembrou do seu amigo de viagem?

– Meu caro senhor, fiz apenas uma única viagem durante este meus 37 anos. Uma viagem de trem até o Espírito Santo para visitar minha tia Martinha. E não lembro de tê-lo visto na estação, no vagão ou seja lá onde senhor deveria estar naquela viagem. – O homem virou seu olhos para cima e fez um gesto com as mãos como quem desiste e se cansa. Ajeitou o chapeuzinho na cabeça e deu uns tapinhas em meus ombros.

– Deixa pra lá. Vou andando. Estou de olho em você para sempre. Mas olha… Ande por ali, vire naquela jaqueira. Quando você chegar lá, um passarinho vai pousar em um banco perto de uma moça. Aí ele vai voar e vai dar uma cagadinha na roupinha ousada Jacques Doucet dela . Vá até ela e a ajude a limpar o vestido com seu lenço e sejam felizes para sempre. – Falou o homem, enquanto ajeitava minha gravata borboleta.

– Vamos nos ver novamente? – Perguntei eu sei nem saber ao certo porque quis perguntar aquilo.

– Ah tá! Mesmo que você não quisesse. Agora tenho que ir cuidar dos outros. Até a próxima. – O homem saiu da minha frente, andando pelo meu lado. Eu me virei para segui-lo com meus olhos e vi que ele se desviou quando o fruto de um ipê foi caindo sobre sua cabeça. É como se ele soubesse o que ia acontecer. Quando o fruto caiu no chão, ele apenas apontou um dedo indicador para o céu, continuando sua marcha elegante para a saída do parque. E ainda pude vê-lo tirando o chapéu e saudando algumas senhoras.

Quando ele sumiu de vista, segurei firme minha bolsa e fui ver o que me esperava depois da jaqueira.

FIM

Contos Alucinantes – O Mistério da Piscina

 

PARTE 1

A narrativa misteriosa seguinte aconteceu em 1973, em uma cidade próxima de Altolândia, no interior de Minas Gerais. Não darei mais detalhes sobre exatamente em qual cidade ou as pessoas envolvidas por motivos óbvios. Eu estava terminando o curso médio e junto com meus amigos Nelson e Joelson, discutíamos qual curso ingressar na universidade. Estávamos entre Direito e Engenharia, mas levantávamos dúvidas sobre as vantagens e desvantagens dos dois cursos e nunca chegávamos a um consenso. Até que fiz um desafio a nós três: “Vamos construir uma piscina lá em casa”.

O desafio provaria se teríamos jeito com os elementos da engenharia e ainda ganharíamos uma piscina para nos refrescar nas férias. Éramos filhos de fazendeiros. Meu pai era dono de vastas plantações de milho e o pai de Nelson e Joelson de soja. Dinheiro não seria problema. Apenas eu teria que convencer minha mãe a ceder o quintal de casa para construir a piscina. Como eles confiavam em mim, dei o projeto da piscina como certo.

Eu, Nelson e Joelson compramos muitas revistas da época mostrando casas com piscinas e perguntamos aos pedreiros das redondezas algumas informações básicas. Os pedreiros riam da gente quando perguntavam o motivo daquela perguntalhada toda e a gente respondia que iríamos construir uma piscina. Alguns apontavam para minha barriga e outros para os braços e  pernas secas dos irmãos Nelson e Joelson. Um dos pedreitos com o nome de Seu Telônio, ainda ofereceu um preço camarada para fazer a empreitada, mas ele não entendeu o espírito da nossa aventura. Eu sei que com as fotos das piscinas e as informações dos pedreiros, partimos para a compra de todos os instrumentos necessários e encomendamos as areias, cimentos, armação de ferro, etc.

As encomendas foram chegando e a cada caminhão de bloco e cimento ou caçamba de areia, minha mãe, D. Isadora, balançava a cabeça.

– Nandinho, meu filho. Que loucura é essa.

– Deixa o menino, Dora.  Deixa ele fazer a piscina dele. – Falava meu pai com risos nos lábios em frente da minha mãe.  Mas um dia ele veio até a mim e me puxou num canto depois do almoço, segurando um copo de vinho:

– Se essa p**** não der certo, vou lhe dar uns cascudos que ôce nunca mais vai esquecer.

– Você não vai esquecer é da minha piscina e ainda vai brigar com a gente pra deixar você entrar. – Respondi levantando a cabeça e o velho se virou pra esconder o riso por causa da minha ousadia. Seu Saturio não brigou comigo quando não concordei em cuidar das plantações de milho e não brigaria por uma piscina. Na verdade, o velho deixou de ir pras fazendas só pra me ver com os amigos, dando andamento na obra.

Então cavamos um buraco de 8m de comprimento por 4m de largura e 1,80m de profundidade no quintal de casa ao som de Jimmy Hendrix, A Bolha, Barca do Sol, Casa das Máquinas e outros loucos. Os LP’s rodavam numa Telefunken Alegretto que tunei adaptando caixas de som de madeira da Gradiente. Suávamos cerveja com gosto de calabresa, pois era a ração que comíamos enquanto cavávamos feitos loucos. Joelson tinha tomado sua primeiro copo de cerveja e cantava feito um condenado o rock roll. Minha mãe ficou falando pra pai que estávamos drogados e pai respondia com olhos esbugalhados na beira do buraco que era pra deixar a gente em paz. O velho estava impressionado.

Ainda hoje guardo a vitrola na minha casa de férias em Carneirinho-MG.

Depois de 3 semanas, milagrosamente terminamos de construir a piscina com azulejos azuis. Eu tinha perdido 13 quilos e estava todo bronzeado de sol. Nelson e Joelson mostravam uns pintombinhos de músculos nos braços e pernas. Faltava somente encher de água. Terminamos o serviço na quarta-feira e decidimos encher de água no próximo sábado. Assim dava tempo do rejunte e o cimento do azulejo estarem secos e impermeáveis. E também ganhei uma desculpa pra não ir no casamento da minha tia Tininha que era no mesmo dia. Se não fosse pelas obrigações sociais, até o velho Saturio ficaria para inauguração. Pai se mostrou até mesmo chateado e perguntou se não dava pra inaugurar a piscina na sexta. A gente respondeu que não para garantir toda a segurança do projeto. O velho saiu xingando bem baixinho, aceitando o seu destino. Eu tinha me livrado dele.

Bom. Sábado chegou. Lembro ainda a data. Era dia 13 de janeiro de 1973. Umas 17h. Abri a válvula de água e a piscina foi enchendo devagar. Ficamos os três cerimonialmente em silêncio, sentados na beira da piscina. Quando a água encheu toda a piscina e molhou nossos joelhos, me levantei e fechei a válvula. Nelson e Joelson deram uma volta na piscina, fazendo uma espécie de vistoria. Eu perguntei se encontraram algum problema e eles balançaram negativamente a cabeça. Foi quando eu quebrei o gelo com um grito:

– É engenharia!!!!!

– Conseguimos. Nóis é da roça, mas nóis é f****… – Gritaram os irmãos que tiraram as camisas e se jogaram na piscina. Na região de Altolândia a gente podia até ser os f***es, mas em BH éramos considerados nerds da roça.

Saí correndo pra dentro de casa e peguei a vitrola com as caixas com um disco dos Beatles. Montei a aparelhagem toda na beira da piscina e voltei pra casa pra invadir o bar de pai e pegar um whisky escocês que tio Raimundo trouxe do tour que ele fez na Europa. Era um Chivas Regal que o velho Saturio nunca tinha aberto, esperando por um momento muito especial. Abri a garrafa na certeza que pai concordaria que o sucesso do projeto merecia o Chivas Regal.

A noite foi chegando e uma lua crescente decorava um manto negro celeste, pintado de estrelas cintilantes. Os irmãos continuavam na piscina, enquanto eu apenas ficava na espreguiçadeira, bebericando o whisky com gelo. Apenas levantava para pegar mais tira-gostos.

 A vitrola continuava a tocar o rock de liverpool. Sentia-me realizado e feliz. Da minha espreguiçadeira, assistia os amigos que eram alguns anos mais novos do que eu. Crescemos juntos na região de Altolândia e estávamos completando três anos juntos no Colégio Loyola em Belo Horizonte. Eu estava com 18 anos, Nelson com 17 e Joelson com 16 anos. Os irmãos continuavam a salpicar água para todo canto e eu olhei para meu relógio que marcava 19:20. Olhei para a linda lua crescente e fechei os olhos depois de terminar um copo de Chivas. Depois disso começou o mistério.

Acordei na manhã de domingo. O braço da vitrola estava no final da faixa do LP Axis: Bold as Love e ainda girava. Olhei para meu relógio e vi que já eram 06:30. Levantei o tórax rapidamente da espreguiçadeira e me assustei. A piscina estava completamente vazia. Vazia mesmo. Seca, seca. Sem Nelson e Joelson e toda água que animava a festa. Levantei e fiquei olhando para piscina com as mãos na cabeça e puxando minha cabeleira.

Do jeito que eu estava, saí correndo para a casa dos irmãos. Camisa polo azul, bermuda branca e descalço. Eles moravam uns 500 metros da minha casa. Quando cheguei na porta deles, comecei a gritar pelos nomes de Nelson e Joelson. Desesperado, pulei o portão e caí do outro lado todo estrebuchado. Quando me levantei, com as mãos nos rins e rosto sofrido vi o pai dos irmãos com uma espingarda em punho.

– Rapaz o que tá acontecendo com você? Ficou maluco. – Falou comigo Seu Davi me segurando pela gola, mas tentando me manter em pé por causa da tremedeira de dor que eu tava por ter caído do alto do portão do que pra me segurar e me dá uma sova. Eu com cara de dor e quase sem voz, fiquei falando.

– Os meninos… Nelson e Joelson… Cadê… Onde eles tão…

– Estão dormindo. O que aconteceu com você, Fernando? Eu vou te levar pra Matilda de Gomes… Dalva, ô Dalva, socorre aqui. – Seu Davi estava ficando tão desesperado quanto eu e quando começou a chamar pela mãe dos meus amigos, soltou a mão da minha gola e fui correndo pela casa e entrei nos quartos dos irmãos.

Pois bem. Estavam os dois dormindo lado a lado, em camas separadas por um criado mudo com um abajur em forma de milho. Um presente de meu pai no aniversário de 16 anos de Joelson. Apoiei minhas mãos nos joelhos e comecei a respirar fundo. Senti um alívio mas que não diminuiu a dor nas costas devido a queda. Fiquei nessa posição por alguns minutos, quando ouvi a D. Dalva.

– Meu filho o que aconteceu com você? Que é isso tudo? Nó Senhora!

Olhei para o casal. Seu Davi já não segurava mais a espingarda e estava de pijama segurando as chaves de uma Ford Rural. D. Dalva com mil bobs na cabeça, tinha os olhos marejados e estava uma das mãos nos fartos peitos, já um tanto decaídos.

– Vamo. Vou te levar pro Matilda Gomes é agora. De lá, ligo pros seus pais. – Falou seu Davi que sabia que meus pais estavam em outra cidade devido ao casamento da Tia Tininha. Matilda Gomes era o nome do hospital que atendia toda a região. Ficava quase uma hora de carro.

– Não precisa, seu Davi. Desculpe…Eu acho que bebi demais. Desculpe, mesmo. Pra senhora também D. Dalva. Eu já vou andando… Desculpe.

Saí da casa sem conversar com Nelson e Joelson, mas tinha certeza que eles estavam bem. Estavam bem melhores do que eu com certeza. Eu sentia dor pelo corpo todo e estava muito confuso, sem saber o que aconteceu na noite anterior.

Quando o portão foi fechado e meus pés sentiram o asfalto, lembrei que não tinha afagado o cachorro da família, um fila com o nome Pongo. Sempre fiz isso e eu gostava muito do Pongo. Algo em mim insistia em ver o cachorro. Mas não queria voltar a apavorar os pais de Nelson e Joelson. Então decidi dar a volta na casa e fui para os fundos. O muro era baixo e subi dessa vez com muito cuidado e fui descendo do outro lado de costas. Quando desci no chão, senti um dor lombar e me apoiei no muro. Foi quando ouvi o gemido de um cachorro e me virei rápido. Lá vem um fila todo gordo e desajeito se jogando em mim e me lambendo, me agachei e fiquei ali sendo todo beijado.

Pongo me fez sentir muito melhor e coloquei o dedo nos lábios pedindo para que ele não latisse e ele me entendeu. De repente me dei conta que o cachorro estava todo molhado. Pior, me levantei e vi que o terreno do fundo da casa estava todo molhado como se tivesse acontecido uma enchente. Aí me apavorei novamente. E a coisa piorou mais ainda, quando um gato pulou do muro pra baixo e ficou roçando nas minhas pernas com o pelo todo úmido. Eu não aguentei aquilo. Dei umas afagadas no Pongo e pulei o muro pra rua.

Fui andando devagar pra casa, meio que olhando pra baixo e pensando naquilo tudo sem ter nenhuma resposta lógica. Talvez eu ainda estava sonhando. De repente, tive a impressão que estava sendo seguido. Acelerei os passos e a sensação não passou. Quando tomei coragem e me virei, vi que o mesmo gato todo molhado me seguia. Era tipo um frajola, preto e branco. O bichinho acelerou o passo e deu uma miada na minha frente. Olhei ele por um tempinho e depois continuei a ir pra casa com o gato me seguindo. Quando cheguei em casa, sentia-me fadigado. Mas fui até a cozinha, peguei um pratinho e enchi de leite pro gatinho que bebeu sedento. Depois peguei uma toalha e sequei ele. O bichinho olhava pra mim com as pupilas dilatadas e ronronava sem parar. Enquanto alisava ele, decidi encher a piscina de água novamente e lidar com aquilo da melhor maneira. Iria dizer que fiquei bêbado e pronto. Mas aquilo não iria funcionar como eu saberia mais tarde. Peguei um copo de leite e fui para a piscina, abri a válvula de água e me deitei na espreguiçadeira. Então olhei para o meu relógio que marcava exatamente 16:01. Adormeci em seguida, fatigado pelos últimos acontecimentos.

Parte II

Acordei com vários respingos de água e me levantei assustado. Quando olhei para a piscina estavam meus pais fazendo a maior barulheira na piscina. Estavam jogando água um no outro e fazendo brincadeiras como mineiro quando vai a praia pela primeira vez. Quando mãe viu que eu tinha acordado, subiu a escadinha da piscina, veio correndo na minha direção e me pegou no colo e ficou girando. E quase se joga comigo na piscina, quando gritei que eu tinha acabado de acordar e poderia ter um choque anafilático, ela me largou no chão e pulou de volta pra piscina. Foi quando meu pai falou: Clique aqui e continue a ler “Contos Alucinantes – O Mistério da Piscina”

Baseado de fatos reais – O Bolo de Privacidade

 

– Ai Quitinia…Foi tão bão conversar com ocê. É… Agora a gente vai ficar de conversê o tempo todo… He, he… Sim, minha filha. O zap, zap, facebook, instagram… Já instalei esses todos que você me falou aí. É… Pode me procurar lá… Tá bom. Lembranças pro Leôncio e pros meninos… Ó, tô com saudade dos seus bolo menina. Hahaha…Tá joiá. Fica com Deus… Tá… Vou te aceitar lá no face…Tchau.

D. Viginilda Souza Gonçalves, 77 anos, aposentada. Estava orgulhosa e feliz por ter comprado seu primeiro smartphone. Foi em uma loja DotHot e perguntou qual era o melhor smartphone que eles tinham. O vendedor apresentou alguns e ela simpatizou com o que tinha o logotipo do abacate. Comprou um Abacatel XII e foi correndo pra casa para começar a usar o mágico aparelho. Excitação desse tamanho só sentiu quando recebeu o primeiro beijo do seu amado e já falecido marido português, João Manuel. Que Deus o tenha. Agora a viúva trocaria a nostalgia pelo virtualismo presente das amigas de perto e de longe pelas redes da internet. D.Quintinia que morava no Amazonas, Manaus. Não parecia estar tão longe agora.

Depois que se despediu de Quintinia, D.Viginilda colocou os óculos que estavam pendurados em volta do pescoço e acessou a loja virtual do smartphone. Era tanto aplicativo. Cada um pra uma coisa. Já tinha instalado os de redes sociais, agora experimentava um com receitas pra cozinha, outro pra contar seus passos nas caminhadas que fazia durante a manhã, uns joguinhos pra pocar uns docinhos na tela. Que maravilha! Que maravilha! E enquanto escolhia os programinhas, ia aparecendo aquelas notificações todas de sms, de face, zap-zap… D.Viginilda estava suando e as pontas dos dedos começavam a ficar vermelhas. Se sentia uma atleta. Estava mordendo os lábios e deslizando o indicador freneticamente na tela quando a campainha tocou. Blim-blom! O som lembrava um comercial de perfurmes da década de 80 do século passado.

Um basset que estava dormindo aos seus pés se levantou e foi correndo para a porta do apartamento. D.Viginilda tirou os óculos do rosto e deixou eles pendurado no cordão em volta do pescoço. Olhou para o relógio e viu que já se passara mais de duas horas, desde que terminou de conversar com Quintinia. Colocou o abacatel na mesinha ao lado. Se ergueu do sófa e antes de se dirigir para a porta, deu uma olhadinha rápida no espelho e ajeitou de leve seu cabelo pintado de lilás. A vaidade de D.Viginilda não tinha envelhecido. Foi para a porta e a abriu. Um sino de vento balançou quando a porta foi aberta. Blim…blim…blom…blim.. blom…blom…

– Tá aqui Viginilda, fica assim na vontade não. Fiz um bolo só prôce…Agora vou ali pegar o Betinho no colégio que Marcinha vai ficar até mais tarde lá na firma. Depois a gente conversa. Tchau.
D.Viginilda recebeu o bolo nas mãos meio desconcertada. Fechou a porta do apartamento. Blim…blom…blim,…blim…blom… O pequeno basset cor de caramelo ia na sua frente, girando o corpo e esperando ganhar um pedaço do bolo, enquanto ia para cozinha. Puxou uma espátula de bolo de uma gaveta do armário da cozinha e cortou um pedaço. Comeu um pedacinho. Era um bolo de fubá com coco ralado. Estava delicioso. Abocanhou um pedaço maior e deu um pedacinho para o basset. Cortou mais um pedaço e comeu. Guardou o resto do bolo na geladeira.
Voltou para a sala, se sentou no sofá e pegou novamente no abacatel. Ficou olhando para o aparelho com a testa franzida. O vendedor disse que aquele aparelho era o melhor do mercado. D.Viginilda começou a pensar que seu abacatel era um realizador de desejos como uma lâmpada de Alladin. Ele ouviu seu desejo de comer bolo, quando tinha conversado com a Quintinia. De repente, a vizinha do lado trouxe um bolo pra ela. E olhe que ela nem tinha amizade assim estreita com D. Jovelina.

D. Viginilda começou a conversar com o aparelho e foi dizendo todos os desejos dela. Uma viagem de transatlântico para ilhas gregas, roupinhas da Tiffany, perfumes da Victoria’s Secrets, um carrinho Smart Fortwo pra ir no supermercado e na academia de Pilates… E tantas outras coisas. Ai… D.Viginilda já imaginava suas amigas se retorcendo de inveja. Estava apaixonada pelo smartphone. Naquele dia só se levantou do sofá pra dar comida para o seu fiel basset, ir no banheiro ou comer mais um pedaço de bolo. No fim da noite, já cansada de tanto mexer no smartphone, D.Viginilda dormiu ali mesmo no sofá segurando o abacatel XII.

Quando ela acordou já eram 7 da manhã e o pequeno basset subiu até ao seu rosto e começou a lamber suas bochechas e nariz. Olhou para o smartphone que tinha um pop up na tela pedindo que o recarregasse. Atrás da mesinha, ao lado do sofá, ela espetou o cabo de energia na tomada e o magicphone começou a se alimentar. Também sentiu fome. D.Viginilda foi até a cozinha, abriu a geladeira e comeu mais um pedaço de bolo da vizinha. O pequeno basset também pediu um pedaço que recebeu com sua vasilha de ração. D.Viginilda foi cuidar da casa, mas já pensando em mexer no smartphone.

Ao voltar para o sofá, viu que o aparelho já estava 100% carregado e esperou que o mesmo começasse a atender suas solicitações. Pois bem. Em todas as redes sociais, aplicativos e nos buscadores, apareciam todas as ofertas de compras dos produtos e serviços que ela conversou com o smartphone. D.Viginilda já tinha passado um tempão enterrada no sofá e nada de ninguém tocar na campainha oferecendo uma passagem no transatlântico e tão pouco o carrinho inteligente. Mas o abacatel XII continuava a oferecer em propagandas todos os produtos que ela pediu com valores em tantos porcentos de desconto. Aquilo não tinha graça. No final da noite ela cansou de esperar. A gota d’água foi um banner com a Audrey Hepburn jovem apontando o dedo médio para promoções da Tiffany. Lembrou da pensão que recebia do seu amado e finado marido português que nunca pagaria pelos seus luxuosos desejos.

Enfim, colocou o abacatel no carregador e foi dormir. Não sem levar para cama a dúvida sobre o bolo da vizinha. Amanhã ela ia dá um jeito de descobrir. O basset ficou feliz de ir dormir com D.Viginilda na cama que era mais macia do que os pés da dona.

No dia seguinte, voltou a sua rotina diária e deu umas olhadas no abacatel apenas para conferir o zap zap e outras notificações. Na cozinha decidiu fazer umas coxinhas para presentear à vizinha como agradecimento pelo bolo de antes de ontem. Mas seu plano na verdade era saber como a vizinha soube que ela estava com vontade de comer bolo.
Depois que terminou de fritar as coxinhas e coloca-las em um prato bonito, deu outra olhada no abacatel. Nas redes sociais, propagandas ofereciam as melhores ofertas de bolos nas confeitarias da cidade. Deixou o smartphone na mesinha e foi se preparar para visitar a vizinha.

Toda chique casual, a senhora da terceira idade pegou o abacatel e colocou no bolso da calça. Foi para cozinha e pegou o prato de coxinhas lindamente arrumadinhos. Seguiu para porta da sala com o basset na sua cola sentindo o cheiro dos salgados. Saiu do seu apartamento, Blim…blom..blim…blim…blom, e  foi para a porta do apartamento 315. Tocou a campainha. A porta se abriu e mostrou outra viúva na mesma faixa de idade da D.Viginilda.

– Tudo bem, Jovelina? Aqui, eu trouxe uns salgadin prôce. Aquele bolo que você me deu tava tão bão.

– Ocê gostou mesmo Viginilda? Entra aqui e vamo tomar com um café que eu acabei de passar.

– Mas o Tico vai ter que entrar comigo, ocê se importa?

– Só se ele não se importar com a Toinha. A Toinha é toda mansa, capaz nem de querer saber de seu cachorro.

– O Tico é muito brincalhão, vai fazer nada não.

– Entre, entre… – Falou D.Jovelina entre risadas e achando graça do cachorrinho com forma de salsicha, seguindo a dona.

Então entrou D.Viginilda com o Tico no apartamento de D.Jovelina. E a conversa começou parecendo não ter mais fim. A Toinha desceu de uma prateleira de livros e foi cheirar o Tico que ficou balançando o rabo. Por sua vez, o cachorro também ficou cheirando a gata da vizinha. Depois de uns minutos, a gata ficou se esfregando no cachorro e voltou para a prateleira. O Tico foi para perto da dona na esperança de ganhar umas coxinhas.

Depois de algumas horas de muito café com coxinha, muita conversa animada e risadas, a viúva com o Abacatel na mão, perguntou à viúva que segurava um smartphone Baldonga Plus.

– Vem cá, Jovelina. Comé cocê sabia que eu tava com vontade de comer bolo?

– Viginilda, minha filha, ocê fala alto demais quando tá conversando no telefone.

Fim.

P.S: Esse texto não teve revisão e eu não me importo.

Contos alucinantes – Sidarta, o arroz e a formiga

 

Quando Sidarta começou sua busca espiritual, pediu orientação de mestres de escolas diferentes. Passava algum tempo com um, percebia que os ensinamentos do mestre não lhe satisfazia, dizia muito obrigado e ia em direção a outro. E isto aconteceu várias vezes.

Um dia ele decidiu parar de ficar entre um mestre e outro e pensou em ele mesmo buscar as respostas e soluções para o que depois seria conhecido como as Quatro Nobre Verdades. Aí ele radicalizou total.

Sidarta sentou embaixo de uma árvore e ficou em constante e profunda meditação. “Daqui não saio até entender as causas”, pensou ele.  Alimentava-se pouquíssimo e começou a definhar. Emagreceu a ponto de sua pele se esticar por seus ossos. Ficou esquelético. Estava a ponto de morrer.

Então um dia, quando tentava empurrar o único grão de arroz em sua boca, sua dieta diária, ouviu um instrumento de cordas sendo afinado e alguém que dizia “ se você afrouxar demais não vai conseguir tocar, se você esticar demais as cordas elas vão se partir”. Ao ouvir isto, Sidarta ficou paralisado de boca aberta e o grão de arroz que ele segurava entre os dedos caiu no chão. E o resto da história todos já sabem e quem ainda não sabe procure saber.

O que as pessoas não sabem é sobre aquele grão de arroz que caiu no chão. Enquanto Sidarta ficou pensando no que ouviu, como se fosse um Arquimedes quando gritou Eureka, uma formiga passou por ali e viu o grão de arroz. A formiga segurou o grão de arroz e levou a semente para suas outras companheiras formigas. E aquele grão de arroz foi dividido ao máximo para ser distribuído ao máximo para as outras formigas. E o arroz desapareceu no estômago dos insetos.

Milhares de anos depois, aquelas formigas renasceram como homens e mulheres no Ocidente. E sem exatamente saber o porquê do motivo, viviam insatisfeitas espiritualmente. Algumas destas pessoas tinham toda riqueza e poder que o mundo podia dar. E algumas delas sentiram o cheiro do mesmo arroz que Sidarta deixou cair no chão, vindo lá do Oriente. E para lá foram.

Quando chegaram no Oriente, encontraram homens e mulheres que compartilhavam e distribuíam ao máximo que pudessem o conhecimento que receberam de Buda Sidarta. E o ciclo recomeçou.

FIM!