Contos alucinantes – Sidarta, o arroz e a formiga

 

Quando Sidarta começou sua busca espiritual, pediu orientação de mestres de escolas diferentes. Passava algum tempo com um, percebia que os ensinamentos do mestre não lhe satisfazia, dizia muito obrigado e ia em direção a outro. E isto aconteceu várias vezes.

Um dia ele decidiu parar de ficar entre um mestre e outro e pensou em ele mesmo buscar as respostas e soluções para o que depois seria conhecido como as Quatro Nobre Verdades. Aí ele radicalizou total.

Sidarta sentou embaixo de uma árvore e ficou em constante e profunda meditação. “Daqui não saio até entender as causas”, pensou ele.  Alimentava-se pouquíssimo e começou a definhar. Emagreceu a ponto de sua pele se esticar por seus ossos. Ficou esquelético. Estava a ponto de morrer.

Então um dia, quando tentava empurrar o único grão de arroz em sua boca, sua dieta diária, ouviu um instrumento de cordas sendo afinado e alguém que dizia “ se você afrouxar demais não vai conseguir tocar, se você esticar demais as cordas elas vão se partir”. Ao ouvir isto, Sidarta ficou paralisado de boca aberta e o grão de arroz que ele segurava entre os dedos caiu no chão. E o resto da história todos já sabem e quem ainda não sabe procure saber.

O que as pessoas não sabem é sobre aquele grão de arroz que caiu no chão. Enquanto Sidarta ficou pensando no que ouviu, como se fosse um Arquimedes quando gritou Eureka, uma formiga passou por ali e viu o grão de arroz. A formiga segurou o grão de arroz e levou a semente para suas outras companheiras formigas. E aquele grão de arroz foi dividido ao máximo para ser distribuído ao máximo para as outras formigas. E o arroz desapareceu no estômago dos insetos.

Milhares de anos depois, aquelas formigas renasceram como homens e mulheres no Ocidente. E sem exatamente saber o porquê do motivo, viviam insatisfeitas espiritualmente. Algumas destas pessoas tinham toda riqueza e poder que o mundo podia dar. E algumas delas sentiram o cheiro do mesmo arroz que Sidarta deixou cair no chão, vindo lá do Oriente. E para lá foram.

Quando chegaram no Oriente, encontraram homens e mulheres que compartilhavam e distribuíam ao máximo que pudessem o conhecimento que receberam de Buda Sidarta. E o ciclo recomeçou.

FIM!

Custo da Travessia: dois centavos

Existe a “estória do  homem que praticou durante quarenta anos como atravessar o rio Ganges a pé, por cima das águas; e tendo afinal alcançado seu fito, foi censurado pelo seu Santo Guru, que disse: “Você é um grande tolo. Todos os seus vizinhos atravessam o Ganges diariamente por dois centavos”.

De algum livro que não serve para nada, a não ser pesar nas estantes de desocupados.

 

Baseado de fatos reais – Hospital Bobumeron

Ouvi um cidadão contando em uma dessas tradicionais filas brasileiras que foi internado em um hospital famoso e que saiu de lá pior do que quando entrou. Foi vítima de uma infecção hospitalar.

Senhoras de caridade que visitavam o hospital se compadeceram do coitado e o levou para a clínica delas. O coitado foi logo curado – mas não sem sequelas – e ainda despertou uma paixão ardente nas senhoras. E entre gargalhadas, contou suas aventuras amorosas com elas.

O hospital famoso além de ter piorado o estado de saúde do paciente, ainda continua a fazer cobranças pelo “excelente” trabalho prestado.

Fim

Contos alucinantes – 21 homens e mulheres de feudos com justas de 15 minutos de fama

21 homens e mulheres me fecharam as portas de um admirável mundo novo. Disseram que o silêncio dos meus passos, não combinava com os carpetes elétricos dos seus castelos digitais.

Nem triste e nem alegre, minha alma saiu da frente de 21 homens e mulheres brilhantes como as telas de seus mascotes, incompatível de feudos com justas de 15 minutos de fama. 21 millennials de feudos com justas de 15 minutos de fama cuspiram no chão, enquanto eu dava as minhas costas tatuadas de signos milenares.

Voltei para caminhos de lama, salpicados de fezes bovinas. Um dia, caminhando na beira de um estrada, um cortador de lenha. Perguntei a ele:

– O senhor gosta do que faz?

– Oh, sim senhor, se eu gosto. – Respondeu ele com risos que pareciam engasgos. E limpou a testa de um suor amarelo que ao gotejar o chão, fez tempestade em minhocas que tocavam uma orquestra. O maestro da orquestra era um louva-deus vestido com uma carapaça de cigarra. E o louva deus tinha uma varinha feita de espinha de peixe. Com a varinha encantava as minhocas em sua interpretação de clássicos inúteis aos 21 homens e mulheres de feudos com justas de 15 minutos de fama.

– Você veio até aqui para fazer um poema ou um conto? Perguntou o lenhador que continuava a dividir toras que um dia testemunharam os frutos de Caim.

– As duas coisas! Como adivinhou? – Respondi surpreso.

Mais engasgos e sons amadeirados caídos ao chão. O que inspirou o maestro que se agitou em uma Carmina Burana, louvando a falta de fortuna de homens e mulheres incompatíveis em feudos de justas de 15 minutos de fama.

O lenhador muito contente me apontou sua cabana e disse para que descansasse minhas pernas de varizes estouradas de esperanças. Mas que pela graça dos deuses, que eu não retirasse minhas botas e que sujasse os lençóis com os verdes bovinos que pisei. Dormi durante 3 dias sob o som do maestro louva deus e suas minhocas orquestradas.

Agradeci a hospedagem, agradeci a orquestra. Voltei para caminhada. A estrada agora estava pantanosa e onças penduradas em toras vivas estavam fazendo serestas. Suas caudas imitavam o pêndulo de relógios caldeus fora de hora.

Uma das onças com uma guitarra na mão, gritou lá de cima com um sorriso do tamanho da órbita de Halley.

– Acelera os passos… Acelera as canelas… Esse seu poema/conto virou uma mer… Vamos cantá-lo para os 21 homens e mulheres de feudos com justas de 15 minutos de mer…

No Vapor do Evangelho

João Batista e Jesus, ainda meninos, discutiam sobre a melhor forma de marcar os seus discípulos com a doutrina que estavam bolando juntos.

– É com água, Jesus.

– É com fogo, João.

– Tem que ser com água, Jesus.

– É com fogo, João.

– ÁGUAAAAAA!!!

– FOGOOOO!!!

João Batista que era mais temperamental, deu um safanão na cabeça de Jesus que não deixou por menos e caiu por cima do primo. Os dois ficaram rolando no chão, brigando e empoeirando as túnicas. De repente, um velho desce do céu em uma biga dourada.

O velho nem esperou as rodas da biga tocar o chão, foi logo pulando e correu em direção dos dois meninos. Com as mãos pegou cada um pelo cangote e foi pra um canto onde tinha algumas rochas. Se sentou na maior e colocou cada um em outras menores.

– Shalom, João.

– Shalom, vô Elias.

– Shalom, Jesus.

– Shalom, vovô.

Então Elias começou a contar aos meninos a história de 1Reis 18. E os meninos adoraram quando chegou em vv.30-38. E se assustaram com o terror de vv.40. Mas tranquilizou os meninos dizendo que, lá em cima,  tava todo mundo tomando cerveja no bar de Mikael.

– Então não briguem mais. Fogo ou água, não importa. O importante é o evangelho. Usem as duas coisas. Assim não tem briga. Tudo bem, assim? – Os meninos responderam com a cabeça afirmativamente. E Elias subiu na biga e saiu virado no relâmpago de volta pro céu.

João e Jesus ficaram envergonhados um com outro por terem brigado por besteira. Pois eles se gostavam muito. Jesus estava desenhando alguma coisa na areia, quando perguntou para João.

– Tô com sede, João. Você me dá agua? – O sol estava muito quente.

Lá vai o João todo feliz para uma rocha, onde brotava torrente de água com uma cumbuquinha na mão. Encheu a cumbuca de água e serviu todo feliz para o primo.

Jesus bebeu a água e se sentiu refrescado. E agradeceu não sei quantas vezes a João. Quando devolveu a cubuca para o primo, viu que ele estava contendo risos.

– Gostou da água, Jesus? Com água a gente vai longe – disse João que saiu em disparada gargalhando.

Jesus ficou pé-da-vida e saiu correndo atrás de João que foi se esconder em uma gruta.

FIM!

Baseado de fatos reais – Mimosamente amando

Em uma loja de departamentos, uma moça experimentava batons. Ousadamente chavequei a donzela.

– Ai cachopa, se tu queres ser bonita, arrebita!

Acusado de atentado ao pudor e ferir o empoderamento alheio, fui banido de lojas feministas sem senso de humor.

Restou-me a sedução de garotas vestidas de vermelho com olhos rosas que riem de mim, enquanto fazemos amor e trocamos beijos portugueses em templos acolchoados de águas venusianas.

Baseado de fatos reais – O Monkey e o Executivo

Um dia em uma empresa, durante uma reunião, o executivo diz para seus trainees:

– E como vocês sabem, todos nós somos, afinal de contas, apenas números.

Um dos trainees apertou mais a gravata para conter a rebeldia de sua alma que era feita de khat, de ka, de ba, de akh, de sahu, de sekhem, de ab, de ren, de shwt, de anatman, de carne, de sangue e de ossos.

Depois que a reunião terminou, o trainee indignado acusou pinóias, distribuiu bananas para todos e foi demitido.

Baseado de fatos reais – O Chato do Orelhão

Em uma fila de orelhão na década de 80. Cidadão entediado tenta puxar conversar com outro que brincava com fichinhas telefônicas.

– Você já foi para Madri?

– Eu não.

– Por quê?

– Já fui escaldado.

FIM!

Contos alucinantes – As Máquinas Canibais

Tive um sonho muito lindo e trágico para torradeiras e máquinas de fritar. Foi assim.

Fui capturado por torradeiras e fritadeiras canibalescas de carnes humanas suínas e mergulhado em um caldeirão de óleo Castrol Primum Mobile Super.

Enquanto eu era frito, uma dança rodopilante era feita pelos eletrodomésticos que invocavam deuses processadores e que chocalhavam rãs empaladas em varas de alumínio.

Aceitei com relutância meu martírio e as bolhas do óleo petrobravam minha resignação corajosa que me apontava um paraíso perdido.

Quando a janta ficou pronta, as torradeiras e fritadeiras comemoraram com pedaços meus em suas varas e me mastigaram em seus dentes sem freios. E quando minha carne desceu acelerada em suas guelas metálicas, a vingança infectou os intestinos de latas e fios.

As máquinas tornaram-se uma cópia de mim. E morreram transformadas pelo peso da minha humanidade suína que cobriram suas carcaças.

Depois disso, as sobras dos meus ossos se juntaram em um samba de um anjo preto vestido de branco e ensurdeceu o lugar de estalos macabros. E renasci apontando a lua, mercúrio, saturno, vênus, jupiter e estrelas caídas para animais silvestres embasbacados com todo aquele espetáculo.

Acordei peidando esse conto e louvando o desatino de uma mente livre, latejando liberdade.