Contos Alucinantes – A Heresia Gentilesca

Estudando a história da cidade de Silascaba.

No séc. XVI foi formada uma sociedade secreta nesta cidade, onde os seus respectivos confrades eram conhecidos por fazerem gestos de gentileza e por terem boa fala. Estes mesmos homens e mulheres foram perseguidos e mortos por suas práticas heréticas.  Mas dizem que alguns sobreviveram e continuam disfarçados em Silascaba.

Um dia desses, uma herege me atendeu num formato de uma jovem tímida e com um sorriso tão gentil que se desmacarou totalmente diante de mim sua heresia. Ruboresci.
Meses mais tarde, encontrei um bilhete perfumado com mistérios de carinho e caligrafia de soneto que dizia: “muito obrigada.”

O cheiro do perfume de flores eu reconheci e o sorriso na caligrafia também.

A Alquimia do Despacho

Lembro quando os amigos da infância encontravam dinheiro nos despachos dos cruzamentos ou nos matos de capins, urinavam no papel moeda para que fosse feito o quebranto. Dessa maneira, as maldições dos Orixás não os azaravam.  A cédula era colocada ao sol. Quando já seca, muitos iam a uma vendinha comprar uma raia que é um tipo de pipa baiana.

Acontece que os mais apressadinhos, não esperavam a nota secar totalmente e levavam o dinheiro úmido, cheirando a urina, ao vendedor. O dono da vendinha ficava indignado e saia os meninos correndo, escapando dos safanões.

Isto foi um relato verdadeiro e eu não sei o que tem a ver com alquimia. Mas na arte a gente pode tudo.

 

Baseado de fatos reais – A Catadora Samaritana

Estava eu aguardando um ônibus para ir ao trabalho. Na minha cidade é costume nos bairros, posicionar as caçambas de lixo nos pontos de ônibus. Eu nunca entendi muito bem isso. Acho que é para o cidadão se distrair, enquanto aguarda o seu ônibus chegar. Assim, você pode fazer um estudo antropológico sobre o que as pessoas consomem no seu dia-a-dia. Ou então, se divertir com o basquete lixo.  O que é basquete lixo? É assim. O cidadão fica uns 2 metros da caçamba e joga o saco de lixo. Se cair dentro da caçamba, beleza. Se cair fora e o saco espalhar todo lixo no chão, o cidadão segue andando na maior naturalidade. Engraçado também são aqueles que fazem dos seus veículos, carros alegóricos de lixo. Saem de casa com o lixo no capô do carro e vêm dirigindo em baixa velocidade para perto da caçamba. Estou sendo objetivo aqui, não é sarcasmo. Podem rir. São os tipos de “costumes” que testemunhamos em Salvador. Contudo, não estou escrevendo este baseado de fatos reais para fazer relatos antropológicos ( e o parágrafo de apresentação ficou enorme. Divaguei de tanta ansiedade para escrever ), mas por algo extraordinário que ocorreu em um desses rotineiros dias no ponto de ônibus.

Fui chegando  no ponto de ônibus e vi aquela caçamba linda e cheia de artefatos arqueológicos, sendo disputadas por passarinhos lavadeiras e pombos. Um dos pombos estava com as patinhas cheias de fios e tinha dificuldade de se locomover. Pois bem. Eu tive muita vontade de ir ajudar o animal, mas tive nojo por causa do lixo em volta. Disfarcei minha covardia dentro da minha camisa que era tão preta quanta a cor da minha omissão.

Foi chegando um outro cidadão de camisa branca com a palavra PAZ de todo tamanho. Passou pelo animal, mas foi mesmo que nada. Subiu mais a frente, sentou no banco do ponto de ônibus e colocou um fone de ouvido.

Uma outra cidadã de camisa vermelha com palavras religiosas, também nada fez. Passou pelo animal, viu umas amigas no ponto de ônibus e começou a narrar sua vida pessoal em um volume que dava para ouvir em outra dimensão.

Veio outro cidadão também com uma camisa cheia de traços americanos. Este também passou pelo animal e nada fez.

Foi quando chegou uma trabalhadora da catação de lixo. Ela foi chegando devagar e num jeito todo despretensioso, foi desamarrando os fios das patinhas do pombo e por fim o pássaro voltou a voar livremente. Feito o ato com tamanha naturalidade, também naturalmente, a catadora de lixo seguiu para a caçamba e começou a reciclar o lixo para tentar conseguir seu pão de cada dia.

Os outros dignos cidadãos que estavam no ponto de ônibus nem notaram a ação da catadora. Estavam cada um em seu “carrossel” pessoal. Apenas eu e minha esposa acompanhamos a mesma cena. Nunca mais me esqueci daquilo.

Meses depois, eu fui chegando no mesmo ponto de ônibus, presenciando os mesmos costumes de sempre. E, de repente, outro pombo todo embolado em fios. E este estava em situação pior. Chegava a se embolar no chão em agonia. Fiz o que deveria ser feito. Imitei a catadora.

Mais outro dia. Três crianças de mais ou menos 6 anos. Uma de bicicleta e as outras duas acompanhando. Um pombo parecia ferido e não conseguia sequer se mexer. Pois bem, o menino da bicicleta queria por que queria passar por cima do pombo. Eu estupefato, evitando a ação do menino, vi que a mais ou menos 30 metros, os responsáveis pelas crianças assistiam a cena sem se importar. Eu me importei porque tive a humildade de aprender com uma catadora de lixo.

E isto, caro ou não caro leitor, é o que eu entendo como Karma. Um entendimento que está longe das adaptações fatalistas que os ocidentais fizeram sobre o assunto. Eu que não sou praticante de nenhuma doutrina ou religião, apenas um curioso e amador hermetista, sem fins escatológicos, tive a graça de aprender.

FIM!

Baseado de contos mitológicos – O mundo é dos Brahmas

Diz-se que houve dois momentos decisivos na vida de Sidarta Gautama. A primeira foi quando ele saiu dos muros de seus palácios em busca das nobres verdades. E a outra foi quando se levantou debaixo da árvore bodhi e foi transmitir o Dharma. Tive acesso a escrituras antigas, escritas em sânscritos e traduzidas por um velho monge que me contou sobre o que realmente aconteceu no dia em que Sidarta, já como Buda, foi ao encontro de outras criaturas e transmitiu o seu conhecimento.

Brahma apareceu para Buda lá na árvore Bodhi. E tinha ficado um aeon sem beber para se apresentar bem diante de Sidarta. E Buda estava em posição de lótus em extâse por ter alcançado a iluminação, quando ouve um “pssssssssss…. psssssssssssss… psssssssssssssssssssssssssssssssssss….” Ao levantar os olhos, Buda viu que era Brahma que começou a falar

– Rapaz…Você é o cara. Você conseguiu. Eu não tava acreditando. Hehe… Você é demais. Olha, eu bato palmas.

Buda não disse nada e apenas ficou olhando. Aí Brahma voltou com o lero-lero e a bajulação.

É o seguinte, meu lindo… Eu, Eu… Quando construi esse mundo que você tá aí, cometi alguns errinhos…ehehe…Nada sério. Dá pra consertar em tempo. Mas o Shiva tá pegando no meu pé e ele é perfeccionista. Se o mundo não estiver do jeito que ele quer, ele sai tacando o fogo em tudo sem dó. Aí todo mundo tá lascado, inclusive a gente. Então, eu pensei comigo aqui. Ó, agora o magnânimo Sidarta, virado na iluminação e tal… Será que ele não poderia ajudar aí nos reparos?

Buda não disse nada e ficou apenas olhando para os trejeitos descompassados de Brahma. Apenas tocou com uma das mãos o chão. Neste instante ele começou a viajar no tempo. E viu vários eventos do passado, do presente e do futuro no mundo que estava. Ele viu um meteoro caindo sobre a terra, destruindo seres e fazendo viver outros e não se comoveu. Viu o primeiro humano falando “bugá-bugá” e desenhando sua primeira obra de arte em uma caverna, mas não se comoveu. Viu Zigurates e Pirâmides sendo construidas, mas não se comoveu. Viu a biblioteca de Alexandria pegando fogo, mas não se comoveu. Viu o genocídio em Cartago, nas Guerras Púnicas, mas não se comoveu. Viu a queda de Constantinopla, mas não se comoveu. Viu a construção da primeira máquina a vapor e não se comoveu. Viu a carnificina de duas guerras mundiais e não se comoveu. Viu a fissão nuclear sendo feitas pelos homens, mas não se comoveu.

Brahma que estava ali de cima, olhando para Buda começou a se preocupar. Uma das suas quatro cabeças começou a verter suor e começou a tremer devido a tensão e abstinência de cerveja. Pensou consigo:  – Por OM! Um aeon! Um aeon! Mais de 4 bilhões de anos sem tomar “uma” pra nada… nada. Seus olhos começaram a marejar.

Foi aí que Buda viu a construção de Brasília e ele se comoveu. Movido pela compaixão se levantou e disse para Brahma: “Tudo bem.” E começou a caminhar para longe.

Brahma ficou com os olhos arregalados, não acreditando que conseguiu. Voltou correndo pra aquela pipa cósmica que fica pendurada pelo umbigo mal curado do dorminhoco Vishnu. Chegando lá, se tremendo todo de abstinência, pegou um binóculo e deu uma olhada no horizonte de eventos cósmicos. E viu as outras versões de Brahmas. O Brahma 73095873980540135 estava recebendo um baita de um esporro do Shiva, que tacava fogo no mundo do Brahma 73095873980540135 por este não não ter conseguido alcançar as metas da qualidade cósmica. E aos gritos, mandou Brahma 73095873980540135 fazer tudo de novo. Isso iria custar 27 aeons para o irmão desarvorado, pensou consigo.

Nosso Brahma não ia passar por aquilo. Não mesmo. Ele seria o próximo a ser fiscalizado por Shiva. Deu um f***-C e tomou logo umas 80 cervejas de uma só vez. Estendeu seus 4 braços e colocou nos seus 20 dedos as cordas que controla o mundo que construiu e ficou quem nem uma mulher rendeira. Totalmente embriagado, totalmente embriagado…

Shiva chegou junto e Brahma todo mansinho e macio falou um” Oooommm” pra ele.

– OM! Vai mostrando logo esse mundo aí que já tô invocado com você tem uns 100 Aeons – Falou o Shiva com voz grossa e determinada em gritos –  O 73095873980540135 disse que viu você dando inteligência para uma das criaturas. Isso é verdade?

– Não senhor, é mentira. E não grita assim desse jeito não, se não vai acorda Vishnu. Tô vendo que o senhor tá stressado e cansado. Eu peço pra dona Lakshmi fazer um suco de maracujá, vai te fazer bem. O 73095873980540135 tá é com inveja. Ele não consegue gerenciar a porcaria do mundo dele e vem falar do meu. Sabe muito bem como é este povo aí.

– Não fale desse jeito, seu bêbado. – Shiva repreende Brahma, apontando um dedo na cara dele. Olha para baixo e vê dona Lakshmi, alisando os pés de Vishnu.

-Tudo bem com a senhora? Não precisa fazer nada, tô meio com pressa. Vishnu tem sonhado bem?  Dona Lakshmi apenas acena com a cabeça afirmativamente para Shiva. O deus com olhos de fogo voltou a encarar para Brahma e foi ríspido.

Deixa eu ver logo isso aí, Brahma 4073189557496547 meia mole, meia dura. Tenho tempo pra suas enrolações, não. – Então, Shiva passou uns aeonzinhos, observando Brahma controlando o mundo com as cordas, totalmente embriagado, totalmente embriagado…

– Bom. Meus parabéns. Está tudo indo bem. Incrível! Agora preciso ir fiscalizar outros Brahmas. Apenas pare de beber, OK? Muito OM pra você, tchau. – E saiu Shiva montado em um meteoro cheio de luzes azuis e vermelhas piscando, balançando toda matéria escura ao redor de si, numa velocidade quântica.

Quando Shiva saiu do horizonte de eventos cósmico, Brahma tirou todas as cordas de seus dedos, ligeiro e exasperado. Abriu mais uma cervejas e ficou em sua pipa, boiando na matéria escura, curtindo todas aqueles estrelinhas que saíam de sua cabeça azul e que pocavam nas galáxias, totalmente embriagado, totalmente embriagado…

Dona Lakshmi, agora aliviada com o fim da visita de Shiva, fala com ele lá de baixo.

-Como é que consegue mentir assim. Que teatro. Que teatro…

-Mas deu certo. Foi ou não foi? Como sempre. É só deixar que umas dessas criaturas se iluminem que dá tudo certo. – Bhrama piscou um dos olhos para dona Lakshimi.

A verdade é que Brahma fez um encenação e escondeu de Shiva os seres inteligentes que ele criou para que gerissem seus próprios mundos. Assim podia ficar livre daquelas cordas e ficar só assistindo e tomando cerveja, usando o universo como televisão.

-Mas Brahma. E se esses seres começarem a pensar que são deuses e, pior de tudo, se tornarem como um de nós. Nós seremos condenados para sempre e Shiva nunca mais vai deixar você fazer um universozinho sequer. – Falou dona Lakshimi, alisando os pés de Vishnu que até babava de tanto sonhar.

-Não tem problema. Eu chamo eles pra tomar umas cervejas e tudo termina em pizza. E já tô chamando um desses devas pra mandar uma das minhas cervejas para Brahma 73095873980540135. O coitado deve tá desconsolado. Vou ensinar pra ele minhas manhas. E você vai ver, dona Lakshimi. Minha moda vai pegar que nem vírus.

FIM

Nota de esclarecimento: O autor do conto é abstêmio e não se responsabiliza pela incapacidade de interpretação do leitor.

Koan Boburazul – 0 e 1

Um repórter foi até um mosteiro budista entrevistar um sábio monge. Pretendia escrever um artigo sobre os desafios da religião na pós-modernidade.
Chegando lá, fez a seguinte pergunta ao seguidor de Sidarta.
– O que o Buda faria diante dessa nova Samsara de 0 e 1 que criamos?
O monge se sentou e virou para a parede.
O repórter ficou olhando para as costas do monge, sacudiu os ombros dele, mas o monge continuava na mesma postura.
Sentido-se ultrajado, ele voltou para agência de notícias e escreveu um contundente artigo sobre a falta de sensibilidade das religiões diante do novo panorama mundial.  Sua matéria foi premiada e ganhou o prêmio Pulitzer.
Fim.