Baseado de fatos reais – Fart is not life

A seguinte narrativa foi ouvida em uma fila de desempregados.

Um cidadão animava em uma fila, compatriotas do reino do desemprego tropicaliensis, contado causos de sua própria vida. Eis aqui a que mais me interessou.

Dizia ele que quando era menino, ia com os pais visitar seus avós no período de férias, que moravam numa roça na lá região de Muriaé. Tinha um avô que já estava com seus 80 anos e que era um velho sem muita educação.

O velho tinha o péssimo costume de peidar nos momentos mais inconvenientes. Exemplo, peidar depois do almoço. O neto perguntava surpreso na mesa, depois de um peido perdido.

– Que foi isso?

– É a vida, meu neto. Isso é vida. – Respondia o velho com umas risadinhas assim: Ê..ê..ê..ê..ê.  Às vezes, para cada “ê”, uma pocada de bufa acompanhava suas risadas que se misturava com as de toda família.

A avó mandava o netinho chamar o avô que tava lá na roça. O menino chegava correndo lá.

– Vôôôô… A Vó tá lhe cha…. – Pruuuuuuuuu…pum…pum.. praaa papapapaaaaa. O cidadão menino dizia que chegava a colocar as mãos na orelha. O avô apenas respondia:

– Seu vô tá vivo. Isso é a vida. Só peida quem tá vivo. Diz pra vó que já tô terminando aqui com os “pé” de mandioquinha e já tô indo.

Uma vez foram no comércio do centro de Muriaé, no mercado da cidade. Quando comprava umas varas de pescar e foi pagar, soltou um pum na lojinha, constrangendo a todos ali dentro. O velho era imbatível, respondia com orgulho e ainda se fazia de educador público.

– Gente, peido é vida. Só peida quem tá vivo. Tem vergonha de peidar não. Faz que nem eu…ó… Pruuuuruuuuuu pá…pumpum…trararrraatata…. poc, poc, tum. Ê…ê…ê…ê…ê.

Nosso amigo visitou seus avós várias vezes e aquilo fez parte da sua vida, tendo belas e humoradas recordações do seu avô. De certa forma, aquilo o influenciou e quando peidava, sentia-se como seu avó. No entanto, não tinha a falta de vergonha dele. Sempre foi um cidadão muito bem polido, até mesmo na soltura de seus gases intestinais.

Fez um curso para vigilante patrimonial e assim trabalhava para cuidar de sua vida. Até que um dia foi escalado para trabalhar num cemitério de Belo Horizonte. Lá foi ele para o novo posto de trabalho. Segundo ele, nunca teve medo de almas penadas e coisas do outro mundo e recebeu com muita normalidade a escalação.

Na primeira noite no cemitério, foi fazer a primeira ronda para proteger os ancestrais restos dos depravados ladrões de covas. Acontece que nosso amigo não tinha nenhum conhecimento patológico das reações químicas pós-morte. E ele disse que passava por um corredor de tumbas, quando ouviu um estalo e em seguida um som como um ssssss…tratrec trec…sssss… pá…pá.

Ao ouvir o som, ele não pensou duas vezes. Saiu correndo para administração do cemitério e ligou para o 931, pedindo pelo amor de deus uma equipe de resgate, pois tinham enterrado uma pessoa viva.

Aquilo foi um furdúncio que chegou a sair até nos noticiários. Como todos podem presumir, eis o motivo do cidadão estar desempregado e ter perdido a sua autorização como segurança.

Todos nós rimos naquela fila, esquecendo por alguns minutos as dificuldades que ainda passamos.

FIM

Baseado de fatos reais – O Bolo de Privacidade

 

– Ai Quitinia…Foi tão bão conversar com ocê. É… Agora a gente vai ficar de conversê o tempo todo… He, he… Sim, minha filha. O zap, zap, facebook, instagram… Já instalei esses todos que você me falou aí. É… Pode me procurar lá… Tá bom. Lembranças pro Leôncio e pros meninos… Ó, tô com saudade dos seus bolo menina. Hahaha…Tá joiá. Fica com Deus… Tá… Vou te aceitar lá no face…Tchau.

D. Viginilda Souza Gonçalves, 77 anos, aposentada. Estava orgulhosa e feliz por ter comprado seu primeiro smartphone. Foi em uma loja DotHot e perguntou qual era o melhor smartphone que eles tinham. O vendedor apresentou alguns e ela simpatizou com o que tinha o logotipo do abacate. Comprou um Abacatel XII e foi correndo pra casa para começar a usar o mágico aparelho. Excitação desse tamanho só sentiu quando recebeu o primeiro beijo do seu amado e já falecido marido português, João Manuel. Que Deus o tenha. Agora a viúva trocaria a nostalgia pelo virtualismo presente das amigas de perto e de longe pelas redes da internet. D.Quintinia que morava no Amazonas, Manaus. Não parecia estar tão longe agora.

Depois que se despediu de Quintinia, D.Viginilda colocou os óculos que estavam pendurados em volta do pescoço e acessou a loja virtual do smartphone. Era tanto aplicativo. Cada um pra uma coisa. Já tinha instalado os de redes sociais, agora experimentava um com receitas pra cozinha, outro pra contar seus passos nas caminhadas que fazia durante a manhã, uns joguinhos pra pocar uns docinhos na tela. Que maravilha! Que maravilha! E enquanto escolhia os programinhas, ia aparecendo aquelas notificações todas de sms, de face, zap-zap… D.Viginilda estava suando e as pontas dos dedos começavam a ficar vermelhas. Se sentia uma atleta. Estava mordendo os lábios e deslizando o indicador freneticamente na tela quando a campainha tocou. Blim-blom! O som lembrava um comercial de perfurmes da década de 80 do século passado.

Um basset que estava dormindo aos seus pés se levantou e foi correndo para a porta do apartamento. D.Viginilda tirou os óculos do rosto e deixou eles pendurado no cordão em volta do pescoço. Olhou para o relógio e viu que já se passara mais de duas horas, desde que terminou de conversar com Quintinia. Colocou o abacatel na mesinha ao lado. Se ergueu do sófa e antes de se dirigir para a porta, deu uma olhadinha rápida no espelho e ajeitou de leve seu cabelo pintado de lilás. A vaidade de D.Viginilda não tinha envelhecido. Foi para a porta e a abriu. Um sino de vento balançou quando a porta foi aberta. Blim…blim…blom…blim.. blom…blom…

– Tá aqui Viginilda, fica assim na vontade não. Fiz um bolo só prôce…Agora vou ali pegar o Betinho no colégio que Marcinha vai ficar até mais tarde lá na firma. Depois a gente conversa. Tchau.
D.Viginilda recebeu o bolo nas mãos meio desconcertada. Fechou a porta do apartamento. Blim…blom…blim,…blim…blom… O pequeno basset cor de caramelo ia na sua frente, girando o corpo e esperando ganhar um pedaço do bolo, enquanto ia para cozinha. Puxou uma espátula de bolo de uma gaveta do armário da cozinha e cortou um pedaço. Comeu um pedacinho. Era um bolo de fubá com coco ralado. Estava delicioso. Abocanhou um pedaço maior e deu um pedacinho para o basset. Cortou mais um pedaço e comeu. Guardou o resto do bolo na geladeira.
Voltou para a sala, se sentou no sofá e pegou novamente no abacatel. Ficou olhando para o aparelho com a testa franzida. O vendedor disse que aquele aparelho era o melhor do mercado. D.Viginilda começou a pensar que seu abacatel era um realizador de desejos como uma lâmpada de Alladin. Ele ouviu seu desejo de comer bolo, quando tinha conversado com a Quintinia. De repente, a vizinha do lado trouxe um bolo pra ela. E olhe que ela nem tinha amizade assim estreita com D. Jovelina.

D. Viginilda começou a conversar com o aparelho e foi dizendo todos os desejos dela. Uma viagem de transatlântico para ilhas gregas, roupinhas da Tiffany, perfumes da Victoria’s Secrets, um carrinho Smart Fortwo pra ir no supermercado e na academia de Pilates… E tantas outras coisas. Ai… D.Viginilda já imaginava suas amigas se retorcendo de inveja. Estava apaixonada pelo smartphone. Naquele dia só se levantou do sofá pra dar comida para o seu fiel basset, ir no banheiro ou comer mais um pedaço de bolo. No fim da noite, já cansada de tanto mexer no smartphone, D.Viginilda dormiu ali mesmo no sofá segurando o abacatel XII.

Quando ela acordou já eram 7 da manhã e o pequeno basset subiu até ao seu rosto e começou a lamber suas bochechas e nariz. Olhou para o smartphone que tinha um pop up na tela pedindo que o recarregasse. Atrás da mesinha, ao lado do sofá, ela espetou o cabo de energia na tomada e o magicphone começou a se alimentar. Também sentiu fome. D.Viginilda foi até a cozinha, abriu a geladeira e comeu mais um pedaço de bolo da vizinha. O pequeno basset também pediu um pedaço que recebeu com sua vasilha de ração. D.Viginilda foi cuidar da casa, mas já pensando em mexer no smartphone.

Ao voltar para o sofá, viu que o aparelho já estava 100% carregado e esperou que o mesmo começasse a atender suas solicitações. Pois bem. Em todas as redes sociais, aplicativos e nos buscadores, apareciam todas as ofertas de compras dos produtos e serviços que ela conversou com o smartphone. D.Viginilda já tinha passado um tempão enterrada no sofá e nada de ninguém tocar na campainha oferecendo uma passagem no transatlântico e tão pouco o carrinho inteligente. Mas o abacatel XII continuava a oferecer em propagandas todos os produtos que ela pediu com valores em tantos porcentos de desconto. Aquilo não tinha graça. No final da noite ela cansou de esperar. A gota d’água foi um banner com a Audrey Hepburn jovem apontando o dedo médio para promoções da Tiffany. Lembrou da pensão que recebia do seu amado e finado marido português que nunca pagaria pelos seus luxuosos desejos.

Enfim, colocou o abacatel no carregador e foi dormir. Não sem levar para cama a dúvida sobre o bolo da vizinha. Amanhã ela ia dá um jeito de descobrir. O basset ficou feliz de ir dormir com D.Viginilda na cama que era mais macia do que os pés da dona.

No dia seguinte, voltou a sua rotina diária e deu umas olhadas no abacatel apenas para conferir o zap zap e outras notificações. Na cozinha decidiu fazer umas coxinhas para presentear à vizinha como agradecimento pelo bolo de antes de ontem. Mas seu plano na verdade era saber como a vizinha soube que ela estava com vontade de comer bolo.
Depois que terminou de fritar as coxinhas e coloca-las em um prato bonito, deu outra olhada no abacatel. Nas redes sociais, propagandas ofereciam as melhores ofertas de bolos nas confeitarias da cidade. Deixou o smartphone na mesinha e foi se preparar para visitar a vizinha.

Toda chique casual, a senhora da terceira idade pegou o abacatel e colocou no bolso da calça. Foi para cozinha e pegou o prato de coxinhas lindamente arrumadinhos. Seguiu para porta da sala com o basset na sua cola sentindo o cheiro dos salgados. Saiu do seu apartamento, Blim…blom..blim…blim…blom, e  foi para a porta do apartamento 315. Tocou a campainha. A porta se abriu e mostrou outra viúva na mesma faixa de idade da D.Viginilda.

– Tudo bem, Jovelina? Aqui, eu trouxe uns salgadin prôce. Aquele bolo que você me deu tava tão bão.

– Ocê gostou mesmo Viginilda? Entra aqui e vamo tomar com um café que eu acabei de passar.

– Mas o Tico vai ter que entrar comigo, ocê se importa?

– Só se ele não se importar com a Toinha. A Toinha é toda mansa, capaz nem de querer saber de seu cachorro.

– O Tico é muito brincalhão, vai fazer nada não.

– Entre, entre… – Falou D.Jovelina entre risadas e achando graça do cachorrinho com forma de salsicha, seguindo a dona.

Então entrou D.Viginilda com o Tico no apartamento de D.Jovelina. E a conversa começou parecendo não ter mais fim. A Toinha desceu de uma prateleira de livros e foi cheirar o Tico que ficou balançando o rabo. Por sua vez, o cachorro também ficou cheirando a gata da vizinha. Depois de uns minutos, a gata ficou se esfregando no cachorro e voltou para a prateleira. O Tico foi para perto da dona na esperança de ganhar umas coxinhas.

Depois de algumas horas de muito café com coxinha, muita conversa animada e risadas, a viúva com o Abacatel na mão, perguntou à viúva que segurava um smartphone Baldonga Plus.

– Vem cá, Jovelina. Comé cocê sabia que eu tava com vontade de comer bolo?

– Viginilda, minha filha, ocê fala alto demais quando tá conversando no telefone.

Fim.

P.S: Esse texto não teve revisão e eu não me importo.

Baseado de fatos reais – Hospital Bobumeron

Ouvi um cidadão contando em uma dessas tradicionais filas brasileiras que foi internado em um hospital famoso e que saiu de lá pior do que quando entrou. Foi vítima de uma infecção hospitalar.

Senhoras de caridade que visitavam o hospital se compadeceram do coitado e o levou para a clínica delas. O coitado foi logo curado – mas não sem sequelas – e ainda despertou uma paixão ardente nas senhoras. E entre gargalhadas, contou suas aventuras amorosas com elas.

O hospital famoso além de ter piorado o estado de saúde do paciente, ainda continua a fazer cobranças pelo “excelente” trabalho prestado.

Fim