Era, Era, Era… Foi sendo.

Era o rapaz na ladeira e o pombo matutino. Os dois iam subindo, subindo.

Era pelo pão de cada dia,

era pela distração dos pássaros

era pelo cachorro preto e alegre

pedindo minhas mãos,

cheirando meus passos.

 

Era o comercial da TV em 4K. Carro estacionado na maré.

Marea não posso comprar. Faça-se um milagre

com o pouco de sal que eu tenho para a comida

temperar.

 

Era o aluno despirocado a escrever,

pirocas  nas cadeiras.

-Meu filho, melhor que escreva

pênis. Morfologicamente são

mais fáceis de analisar.

Disse a sabedoria da professora,

lidando com a cultura populista

que era popular.

 

Eram as famas, eram contradições, eram mentiras, eram verdades,

eram manipulações

era a masturbação diversão conscientização

do Brasil população.

 

Era o pudor deslocado das idiotas

Era a coragem das lindas

Era a inteligência feminina

sem perder o rebolado.

Ebola, ebola virtual! Acredite ou serás julgado.

Era Lilith, era Adão era

T. Quem entendeu, se

libertou da tradição.

 

Era o medo da felicidade

era o disfarce para preservá-la

Era o segredo diante da banalização.

Ele falou banana, ela vai na

gincana. Eles cruzaram a rua.

Era verdadeira fecundação.

 

Era eleição, era a livre escolha

era a perseguição.

Já podeis da Pátria filho

ver descontente a Mãe

febril.

Era a massa, era a base, era a

maioria. Era a democracia que

só funciona se houver educação.

Eu nêgo a repressão.

 

Era o acidente, era o ônibus que tombou

a energia por Minas GeRAis.

Se tivessem respeitado os 60 Km/h,

A vila da Espanha com a Bélgica

não teria notícias. Tudo foi registrado

nos data centers das redes sociais.

 

Era o donzelo preso na torre,

eram as princesas amaldiçoadas voadoras

vindas de todos os pontos cardeais

o resgate foi feito e cobrado 70×7

beijos bacanais.

 

Era Nova Era, era a nova Terra

eram as melosas canções.

É eu escrevendo o que quero

pensando o que eu quero

que se dane os soldados

da frustração.

Era a liberdade destruindo

todas as panelas de pressão.

 

Divina Comédia ( Canto X ) – Dante Aliguieri

 

Ter-se-ia jurado que dissesse: “Ave”,

pois também lá esculpida estava aquela

que para o Supremo Amor girou a chave;

 

impressa no ato era a palavra bela:

” Ecre ancilla Dei”, tão propriamente

como na cera a figura se cela.

 

“Num só lugar não ponhas a tua mente”, disse-me o Mestre,

que me conduzia ao lado

que é o do coração da gente.

 

Donde os ohos movi para onde surgia,

o tergo de Maria

para a direção em que me guia

outra história na rocha inscrita;

e então de Vírgilio passei para o outro lado para

observá-la em melhor posição.

 

No mesmo mármore estava entalhado o carro

e os bois puxando a Arca santa que

gesto fez temer não ordenado.

 

E, em sete coros repartida, adianta-se gente que ora, a dois dos

meus sentidos

um fazia dizer “Não”, e outro ” Sim, canta”.

 

Também os fumos de incenso,

esculpidos, meus olhos e nariz,

cada a seu azo,

ao Sim e ao Não tornavam divididos.

 

Poema sujo ( fragmento ) – Ferreira Gullar

Era a vida a vida a explodir por todas as fendas da cidade

sob

as sombras da guerra:

a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg

catalinas torpedeamentos a quinta coluna os fascistas os nazistas os comunistas o repórter

esso a discussão na quitanda o querosene o sabão de andiroba o mercado negro

o racionamento o blackout as montanhas de metais velhos o italiano assassinado na

Praça João Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de

tempestade por cima de nossa casa. Stalingrado resiste.

Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu primo que passava rifa, pelo tio

que roubava estanho  à Estrada de Ferro, por seu Neco que fazia charutos ordinários,

pelo sargento Gonzaga que tomava tiquira com mel de abelha e trepava com a janela

aberta,

pelo meu carneiro manso

por minha cidade azul

pelo Brasil salve salve,

Stanligrado resiste.

 

Baba Tonga, Mama Cintia

 

Uma borboleta amarela voa sobre artifícios de lata, plástico e borracha. A avenida sopra um vento quente e tóxico. Ela vê uma árvore florida coberta em cinzas, tentado frutus.

Baba Tonga, Mama Cintia.

Um funcionário pesando 127 Kg sai da empresa. É hora do lanche. Ele prefere o fantástico da rua do que os ciclos estéreis do refeitório. Ele se encosta na parede. Ele coloca a marmita no parapeito de uma janela da empresa. Ele abre a marmita: 2 mistos quente, 1 banana, 1 maça, 1 garrafa verde de café.

Baba Tonga, Mama Cintia.

Mulheres assanhadas ultrapassam a velocidade da gostosura, ignorando as placas que na avenida dizem “PARE”.  O funcionário se confunde entre o gosto do misto e o gosto dos olhos. Um cachorro se aproxima da árvore onde a borboleta pousou. O cachorro da uma mijadinha no tronco. O cachorro sente um cheiro no ar. O cachorro segue em direção ao funcionário.

Baba Tonga, Mama Cintia.

A borboleta amarela acha uma flor. A borboleta tenta encontrar algum néctar. O cachorro para em frente ao homem gordo, mostra a língua, a cauda em festa. O funcionário joga um pedaço de pão. O cachorro come e se faz cliente fiel. O homem olha para a banana e a maça. Não sabia fazer milagres, mas partiria o pão com o cão.

Baba Tonga, Mama Cintia.

O relógio da igreja cobra 18 horas. Pequenos insetos começam a voar em torno de lâmpadas de não sei quantos quilos de luz.  O homem olha para seu relógio de pulso. Desconfia do tempo alheio. Um gato se aproxima da árvore e soma sua urina ao do cão esfomeado.

Baba Tonga, Mama Cintia.

Miau, miau, miau… Entre as pernas do funcionário. Ele já estava meio apressado, o tempo do lanche estava se acabando. Sobrou misto. O bichano recebe o pão da mão do homem. O cachorro recebe o último pedaço. Comeu a maça, comeu a banana. Matou a sede com o café encorpado. Na máquina de café os botões “one, two, three”…. Aí cantou para o gato e o cão que já estavam em seu regaço: One, Two, Three o’clock, Four o’clock rock… Five, Six, Seven o’clock, Eight o’clock rock …

Baba Tonga, Mama Cintia.

Largou o gato, largou o cão. Fechou a marmita. Uma nova olhadinha na avenida. Todas aquelas mulheres… Se ele fosse guarda de trânsito, perdoaria a multa de todas elas. A borboleta amarela com o estômago satisfeito, decidiu dormir naquela árvore mesmo. O homem voltou para a empresa. O gato e o cachorro ficaram esperando ele.

Baba Tonga, Mama Cintia.

 

As poesias de Ferreira Gullar

Uma vez assisti uma entrevista com o Ferreira Gullar, onde ele explicava como se tornou comunista em seus tempos de juventude. Quando estava em Brasília, ele teve a oportunidade de ler um manual de um sacerdote católico que condenava o comunismo.

Se não me engano, Gullar dizia que o livro foi dividido em duas partes: uma com o Manifesto Comunista e do outro a contra-argumentação do padre contra Marx. Simultaneamente, uma página reproduzia as teses do manifesto e na outra a antítese feita pelo sacerdote. Disse o poeta que não teve dúvidas sobre a apologia do padre e se tornou comunista.

Ainda hoje, quando assisto na televisão ou leio qualquer condenação apaixonante sobre qualquer idéia ou pessoa, lembro dessa história de Ferreira Gullar. Geralmente, o alvo dos discursos inflamantes e ameaças, tem razão e algo valioso a ser entendido.

Para os apressados, aviso que este post não é uma defesa comunista. Mas nem tão pouco quero engrossar as filas de ultranacionalistas de direita e até mesmo de esquerda. Apenas encontrei uma bela oportunidade de registrar em meu blog trechos dos poemas do Ferreira Gullar.

Teu coração

esse mínimo pulsar dentro da Via Láctea,

em meio a tempestades solares,

quando se deterá?

Não o sabes pois a natureza ama se ocultar.

E é melhor que não o saibas

para que seja por mais tempo doce em

teu rosto a brisa deste dia

e continues a executar sem partitura

a sinfonia do verão como parte que

és dessa orquestra regida pelo sol.

 

Poemas alucinantes – Amália é que era musa de verdade

E Amália levou-me para o centro comercial daquela cidade. Paramos em frente a uma loja e ela disse:

– Vou te mostrar agora o que é o horror, o horror… Seus olhos bem desenhados como as colinas mais belas, abriram como holofotes a cada palavra.

De repente, uma a vitrine da loja se abriu e pude ver um sariguê gordo e bigodudo com chifres incendiados que lançavam cinzas sob o sol dos justos. Dançava sobre uma mesa cercada de baratas e rasgava sacos de populachos. Os sacos explodiam a cada rasgo feito pelos dedos de unhas longas incrustadas de vis repugnâncias. Um banho de estupidez, ignorância e mediocridade banhava as baratas que abriam a boca para receber os respingos das explosões. O sariguê sabatinava as baratas em jogos bizarros e o inseto que errasse, levava um dedo pela guela abaixo, vomitando doutrinas enlatadas.

Eu tremia e temia desfalecer. Tudo cheirava a podre e nem o cabelo almíscar de Amália pode deter aquelas trevas tão fétidas. Foi quando um homem com cabeça de boi, apareceu de uma esquintana e disse a minha musa:

– Tu és cruel Amália. Este teu amado leu meus cadernos e vim dizer-te que nem Virgílio foi tão cruel com Dante.

– Mas nem Virgílio agarrou aquele mestre, como tão forte eu faço com este meu. – Senti a mão de Amália que se fez mais aveludada e morna como a sua voz. O homem bovino olhou para baixo rapidamente, deu um leve e sábio sorriso e disse para mim:

– De cada dois gambás que a gente encontra, um é porque não tem mulher e o outro porque tem. Tchau para vocês.

– Adeusinho! – Disse eu ao velho antes que desaparecesse. Ele se espantou comigo, mas logo começou a gargalhar e balançar o dedo indicador para mim, apertando cada vez mais o passo para de onde saiu. Então a musa olhou-me diretamente nos olhos e disse:

– Veja como a hibrys desfigurava os mais belos e poderosos, sejam homens e mulheres. Não te quero este destino.

Balancei a cabeça confirmando o entendimento transportado pelo seu hálito morno e encantador. Amália em seguida deu-me um beijo inesperado que tirou-me todo o ar dos pulmões e no lugar do Primeiro Sopro ficou algo que ainda não sei descrever, mas que era plena Vida e Vontade.

Afastando seu rosto do meu, Amália aparentava gozo. Ela se virou para loja. Seus olhos tão gentis, tornaram-se reluzentes e levantou uma das mãos para o céu. De repente, um uivo cortou as trevas e um apocalipse felino caiu sobre o sariguê e as baratas que gritaram como hienas perdidas. Os raios do sol atravessaram os rastros de cinzas feitas pelo sariguê e tudo foi destruído em dilúvio amarelo de esperança e luz. Pequenos ratos orelhudos varreram o que sobraram e com os catvaleiros do apocalipse foram comemorar em um bar próximo o fim do grotesco, tomando umas cervejas simankol. Mas não sem antes reverenciar a musa e piscarem um dos olhos para mim.

FIM

Todas as Cartas de Amor são Ridículas – Fernando Pessoa

Todas as cartas de amor são Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras, Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser Ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia

Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas.

A verdade é que hoje

As minhas memórias

Dessas cartas de amor

É que são Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,

Como os sentimentos esdrúxulos,

São naturalmente Ridículas.)

Fernando Pessoa

Poemas alucinantes – O membro Noel Rosa

Obssediabo por uivos catatônicos, sobe o lobo ao morro dos ventos errantes que o joga no precipício.

Depois de atravessar trevas abismais, seu corpo se estraçalha no finito chão e pedaços de sua carne canina alimentam sarcófagos de faraós tropicais.

Múmias revividas levantam-se com seus membros postiços erguidos. Entre elas, Noel Rosa passeia ardente, clamando em um samba melancólico:

– Ceci. Oh Ceci…Onde você está? Ai Ceci…