Baseado de fatos reais 4 – Simulacros de maquinações

Um dia desses eu estava em uma fila e aí recebi uma ligação de um amigo. Conversa vai, conversa vem, de repente falei para ele que no final da noite eu iria jogar Cities: Skylines. Ele me perguntou o que era e eu falei que era um simulador de cidades.

Pra que eu fui falar simulador. Um senhora de mais ou menos 60 anos, deu um tremedeira bem na minha frente e um chiliquizinho. Se virou para mim e ficou me olhando com aquele semblante de D. Bela da Escolinha do Professor Raimundo. Dei uma olhada geral na fila e percebi que as outras mulheres das mais jovens até as de meia idade, estavam mordendo os lábios úmidos. E os homens com aquele olhar de “hoje tem.”

Eu fiquei olhando pra direção da porta, já pronto pra sair correndo. Sou anti-social e não sou chegado em uma suruba. É algo pessoal, tentem me entender.

Outro dia também, em uma situação muito parecida, o caixa eletrônico começou a dar “erro de leitura”. Eu falei que era culpa da máquina. Rapaz, pra quê? O que foi de gente olhando desesperando pros lados, como se tivesse entrado um ladrão e que ia ter tiroteio a qualquer momento. Fiquei com tanto medo que cancelei a operação e deixei pra outro dia. Eu apenas sei que ainda continuo a não entender nada.

Enfim, eu ainda prefiro a ingenuidade fantasiosa dos antigos com seus deuses antropomórficos, aventuras olimpianas e redentoras. A supremacia do hermetismo do século XXI está longe de minha capacidade de processamento.

Baseado de fatos reais – 1

Um cidadão recebe em sua caixa de e-mail uma oferta da Spotify de 3 meses do serviço premium por apenas R$16,90. O cidadão pobre desacostumado com luxo, aproveita a oportunidade e faz daquilo um presente de natal para sua família. Aceita a oferta e assina.

Na tarde daquele mesmo dia, ele se deleita com o piano de Thelonious Monk e adormece embalado pelas notas do Jazz. Não suspeitava o pacato cidadão que perto dali estava um sensor de traços americanos que detectou a invasão americana jazziana no bairro que mora. O sensor enviou um sinal para o DDS ( Departamento de Defesa Soteropolitana ) e após acurada análise de seus computadores, o sistema DEFCON da DDS foi setado no nível ARREGAÇAR AGORA! Procedimentos de descontaminação deveriam ser realizados, antes que outros cidadãos fossem infectados.

De repente o cidadão acorda com um pancadão em alto volume de um samba-pagode. O bass do som, tremia o apartamento. Já acostumado com os procedimentos dos funcionários da DDS, correu com sua família para o banheiro. Ali eles ficaram juntos em um canto da parede até que toda a operação fosse feita. Os funcionários agiam como verdadeiros bombeiros, dignos de um Fahrenheit 451.

Terminada a operação da DDS, o cidadão saiu do banheiro e foi ver se sua conexão com a Spotify foi preservada. Sim, estava. E assim, por mais um dia ele e sua família sobreviveram e se tornaram mais forte.

Fim.