Baseados de desejos – Passeio na Vila Mil Mimos

 

Isso aconteceu a uns 10 anos atrás. Naquela época eu era um jovem mais maduro do que sou agora e pesava menos, talvez uns 20 quilos mais magro. Agora sou gordo e infantil. Mas o que interessa esses detalhes? Deixe-me ir logo a narrativa.

Eu era estudante de Engenharia e decidi num destes sagrados e frequentes feriados prolongados de fim-de-semana, ir para a Vila Mil Mimos. Conhecida por suas profissionais do prazer e oferecendo preços acessíveis, Vila Mil Mimos poderia ser uma experiência exuberante para um jovem de classe média como eu, ordinário de costumes e lugares. Pois assim, decidi. Faria algo diferente neste feriado. Mais pela experiência antropológica do que pelos serviços ali prestados com tanta tradição milenar.

Naquela sexta-feira, atravessei os umbrais da Vila vestindo uma camisa branca de listras azuis finas se cruzando por todo tecido que cobria a cintura de um jeans lavado e tênis brancos com traços pretos. Tentei ser o mais simples possível. Mas enquanto eu seguia a trilha sulcadas por fregueses, donas e damas do lugar me fitavam com sorrisos e cochichos e apontavam com queixos e dedos minha passagem.

Era possível ver que a vila foi construída aos poucos e a diversidade de bares com seus quartinhos eram coloridas por múltiplas cores, sendo as mais frequentes amarelo, rosa e verde. O desalinhamento das alturas dos estabelecimentos e seus formatos lembrava favelinhas. Pareciam improvisados, mas existia uma organização que funcionava muito bem. Afinal de contas, o lugar já existia por 35 anos.

Fui passeando morosamente pela avenida principal de asfalto gasto e músicas que convidavam a alegria. Muitas profissionais me cortejavam com psius e braços estendidos com mãos brilhando sob lâmpadas rodeadas de insetos de luz. Era possível ver mulheres de todas as matizes, em uma variedade brasileira que Gilberto Freire tão bem explicou. Eu escorregava por elas e agradecia as ofertas, sorrindo tímido mas persuasivo para que não insistissem. Talvez eu seria o único homem naquela noite que entrou naquele lugar, sem contratar os serviços das saborosas deusas do prazer.

Até que de repente, uma mulher já aparentando uns 50 anos fez os tradicionais gestos de convite e segui respondendo para ela como respondi para as outras. A mulher de maquiagem um pouco exagerada, top vermelho que seguravam seios lutando contra a ação do tempo e short de veludo  em coxas nuas e gordas com sandálias plataformas, veio rápido em minha direção e ficou em minha frente. Passou a mão direita pela cabeça e balançou os cabelos como uma amazonas que ajeitava um capacete.

– O que você tá fazendo aqui?

– Só vendo.

– Só vendo? Isso aqui não é shopping, não. O que um menino cheirando a leite tá fazendo aqui?

– Vim conhecer. Só isso.

Neste momento, a mulher exageradamente passou a língua entre os lábios e começou a falar as coisas mais libidinosas e sensuais que um homem poderia receber. No entanto, o efeito era contrário em mim e senti que a qualquer momento, o fogo que sentia no rosto poderia me devorar de vergonha.

– Faz tempo que não papo um anjinho. Ai que delícia! Matilde! Olha o que consegui aqui… Ai que cheiro gostoso… Vou fazer você gemer assim… assado… Lorene, olha…

Bom. A mulher já tinha me abraçado e me segurava pela mão e outras profissionais riam no bar de onde essa me aprisionou. Eu estava paralisado. Não sabia se era uma boa idéia negar a oferta daquela que parecia ser uma manda-chuva do lugar. Homens altos e fortes espalhados por outros bares da avenida, assistiam a cena e sorriam descaradamente. Já começa a me arrepender por não ter aceitado antes, ofertas mais atraentes. Eu olhava para todas as direções e pensava na melhor desculpa para convencer aquela mulher sem aborrece-la.

Foi quando apenas senti um baque na minha outra mão que fez a direita descolar da velha dama libidinosa. Foi um puxão que quase me fez cair. Gritinhos de fêmeas e palmas ecoaram pelo lugar e risadas foram disparadas para a velha profissional que gritou para minha salvadora que iria depois conversar com ela.

Depois de andar uns 3 metros sendo puxado por essa mulher, empaquei e ela se virou para mim. Eu desatei minhas mão da dela e comecei a passar as mãos sobre mim, como alguém que se limpa de poeira. Quando me dei conta, um par de olhos me fitava. Uma mulher de vestido verde curto e elegante, modelava um corpo branco de traços africanos e toques indígenas. Um exemplar freyriano do mais alto nível e beleza. Estava com os braços cruzados e me olhava com uma certa sensualidade compassiva.

– Já acabou?

– Acabou o que?

– De se limpar.

– Acho que sim… Quem é você?

– Meu nome é Tiffany. Prazer. – Essa mulher estendeu o braço até a mim como uma executiva em um encontro de negócios. Além de linda, era diferente de tudo que eu tinha visto até aquele momento na Vila Mil Mimos. O riso dela se abria em uma lua crescente e dentes lindos bem alinhados, contrastava com os lábios brilhantes pintados de rosa. Eu apenas estendi a minha mão e apertei a dela. Da mesma mão que tinha me puxado, agora pude sentir uma maciez morna. Ela continuou a segura a minha mão.

– Vem. Vamos conversar. Qual seu nome?

– Jean.

– Com G ou com J.

– Com J.

– Como Jean Baptiste ou Jean Paul-Sartre?

– Acho que como como Jean Cocteu.

Neste momento, Tiffany soltou um gritinho e riu disparadamente. Eu sorri tímido e surpreso porque ela entendeu uma piada que outros não entenderiam. Ninguém entendia meu nome e pronunciavam de tantas maneiras que me contentava com a melhor pronuncia que a pessoa conseguia. Chegamos a um barzinho modesto, mas típico da Vila.

– Armando… Tudo bem?

– Tudo bem.

– Me dá um refrigerante.

Enquanto Tiffany fazia o pedido, pude ver seu corpo por inteiro. O balcão do bar tinha aquelas cadeiras de formato redondo e ela pôs a perna esquerda dobrada sobre uma e ficou de bruços sobre o balcão. Suas pernas eram grossas e bem torneadas e combinavam com um bumbum cheio. Os seios grandes, mas não exagerados e eram proporcionais ao resto do corpo. Os cabelos eram pretos meio crespos e cacheados. O vestido colava em seu corpo e fazia linhas tênues como um pintor que desenha montes em vales verdejantes.

Ela pegou o refrigerante e me levou para o fundo do bar. Ela pôs o refrigerante e dois copos de vidro sobre uma rústica e pequena mesa de madeira. Ela puxou uma cadeira do mesmo tipo da mesa e pôs bem em minha frente. Ela se sentou e pôs sua perna esquerda sobre a direita. Uma penugem dourada cobria suas coxas e vi uma cicatriz no joelho esquerdo. Eu já tinha me recomposto e quis também dirigir nossa conversa.

– E essa marquinha no joelho?

– Queda quando eu era menina.

– Eu também tenho uma marca dessa.

– Sério. O que foi?

– Queda. Quando eu era menino.

Tiffany riu porque eu a imitei. E riu gostoso, fechando os grandes olhos de mel e se jogando pra trás.

– O que você tá fazendo aqui Jean?

– O que você está fazendo aqui, Tiffany?

– Ah, pode parar… Eu perguntei primeiro.

– Aventura. Passeio antropológico.E você?

– Hum… Trabalho. – Tiffany balançou os ombros como se eu faltasse com a lógica.

Eu não queria entrar mais em detalhes sobre a vida profissional de Tiffany. Eu sabia que aquele nome era um disfarce como era o de todas aquelas profissionais. E eu as respeitava. Apenas não entendia o que uma mulher da categoria dela estava fazendo na Vila quando poderia estar como uma scott e acompanhando homens da alta sociedade.

– O que você faz? – Tiffany bebericava o refrigerante e apertava os olhos levemente a cada gole. Eu por minha vez mantinha meus olhos apontados para os dela.

– Estudo Engenharia. Só isso.

– Muito bom. Eu faço Direito.

– Está gostando?

– Hum… Tem mercado e oferece muitas oportunidades. – Ela respondem sacudindo os ombros. Era uma mulher pragmática e experiente. Pudera. Aquele tipo de profissão não era para ingênuas.

– Você é diferente, Tiffany.

– Ah tá. E eu estou conversando com o senhor normal que vai para um puteiro fazer um passeio antropológico.

Eu ri. Passamos umas 2 horas conversando sobre um mundo de coisas. E eu já estava para dizer para Tiffany que ia embora para casa. Foi quando ela parecendo adivinhar meu pensamento, falou.

-Vamo lá no meu apartamento. Meu computador tá dando um problema. Você me ajuda? Eu te levo pra casa depois.

Eu me sentia meio que devedor da Tiffany, mas estava desconfiado. Sempre estive, faz parte de mim. Eu a olhei e demorava para responder.

– Vamo Jean. É rapidinho. Me ajuda ou te levo para a Dilermina.

– Não, não… Vamos. – Concordei com ela. Agora sabia que a velha dama que tentava uma experiência insólita comigo se chamava Dilermina. Claro que aceitei a ameaça da Tiffany como uma desculpa para satisfazer minha curiosidade sobre a vida dela. O lar de uma pessoa diz muito sobre ela. Queria saber onde ela morava.

Tiffany cheia de sorrisos me deu a mão e ao passar pelo balcão deu uma piscadinha pro barista. Eu fiquei encucado, mas deixei ela me levar. Pela deusa! A mulher era linda. Era difícil dizer não a ela.

Saímos da Vila Mil Mimos e paramos em um pequeno carro Toyota. Ela jogou as chaves pra mim e pediu para que eu dirigisse. Eu entendi o recado e a partir daquele momento confiei nela. Assumi o volante e ela me disse o bairro onde morava.

Enquanto eu dirigia, divaguei sobre vários assuntos com Tiffany. Nem sempre ela me respondia de acordo e acabava falando alguma coisa sobre mim e meu jeito.

– Você sempre dirige assim meu bem?

– Assim como?

– Tão certo e tranquilo?

– E quem disse que sou certo e tranquilo? Mas estou me divertindo. São seus olhos Tiffany.

Quando olhei para o lado , vi que estava corada. Eu não entendi aquilo, mas também não quis perguntar.

Chegamos a uma rua e a um prédio sofisticado, onde entrei na garagem passando por um vigia que balançou a cabeça positivamente a cabeça para Tiffany. De repente, comecei a pensar se eu não seria alvo de uma daquelas lendas urbanas como tráfico internacional de orgãos. Quando saímos do carro, os lábios úmidos de Tiffany e um olhar tímido meio que fugindo do meu me diziam outra coisa. Parece que a situação se inverteu. Entramos no elevador e Tiffany já falava mais baixinho e diferente. Estava desmontando seu disfarce profissional e eu começava a vê-la tal como ela era.

Chegando no 8º andar, fomos ao apartamento 814. Ela abriu a porta pra mim e segui em frente, parando em um ambiente parecendo um daqueles studios americanos. Quando ela chegou perto de mim, um inseto verde começou a voar pelo apartamento, o que fez Tiffany se desesperar como uma moça com seu primeiro namorado assistindo um filme de terror no cinema. O inseto se cansou e vi que era um daqueles gafanhotos verdes e dos grandes. Eu desabotoei minha camisa e joguei em cima do inseto.

– É apenas um gafanhoto. Está vendo? Vou devolver ele. Posso abrir a janela?

– Pode sim. Mas isso nunca aconteceu antes.

Eu apenas deixei que o gafanhoto voltasse para a natureza e me virei para Tiffany perguntando onde estava o computador. Ela me apontou uma mesa encostada na parede. Eu coloquei novamente a camisa no corpo e me sentei diante do notebook. Ela me disse que ia tomar banho e que eu poderia fazer qualquer coisa. E dizia enfaticamente que era qualquer coisa mesmo. Eu fingi desentendimento e abri a tampa do notebook e comecei a fuçar no sistema. Mas mantive cautela e fiquei observando qualquer coisa de diferente naquele apartamento.

O apartamento era sofisticado e com decoração minimalista. Eu nunca tinha estado num daqueles. Eu mexia no computador, mas não encontrei nada de errado. Logo comecei a ver que Tiffany tinha mentido pra mim e me preparei para o pior. Fiquei sério e preparado para enfrentar qualquer perigo.

De repente, uma mulher nua com cabelos úmidos veio andando mansamente como uma gata até a mim.

– Algum problema, Jean?

– Nenhum, nenhum mesmo… Eu me virei na cadeira giratória e respondi olhando para aquela mulher deusa que exalava um perfume amadeirado que lembrava algo antigo e bom.

– O que significa isso? – Perguntei para saber se eu era mais um cliente dela, pois com certeza eu não tinha nem 10% do valor que ela deveria cobrar de outros.

– Isto é amor.

Tifanny se sentou nua em meu colo e agarrou minha cabeça beijando minha boca e todo meu rosto. Aquela virulência erótica me transtornou e apenas quis satisfazer aquela mulher como ela merecia.

Acordei e olhei para meu relógio que marcava 07:50h. As cortinas brancas começam a filtrar uma luz que iluminava a cama e fazia a penugem dourada do corpo nu de Tifanny brilhar como uma caixa de joia feita de ouro.

– Tifanny…. Tifanny… Eu tenho que ir.

– A mulher se espreguiçou como uma serpente na cama. Tudo era lindo nela. Cada detalhe. Se eu descrevesse exatamente como era seu corpo, o leitor ou a leitora não dormiria tranquilo e teria muitas necessidades.

Ela se levantou e saiu do quarto, trazendo a roupa que ela me despiu. Ajudou a abotoar a camisa e até mesmo atou os laços dos meus tênis. Isso toda nua.

– Você viu meu cinto?

– Aqui. Quem te deu? Outra mulher.

– Ah Tifanny, acha que sou do tipo que sai com mulheres todo final de semana e ganha presente delas?

– Pois deveria. Quem ganha o presente são elas.

– Pare com a piada. Este cinto foi um presente, mas não foi uma mulher. É uma longa história. Talvez em outra oportunidade…

Tiffany passou o cinto pela minha cintura e fez perguntas sobre a fivela. Apenas repeti a ela a resposta anterior.

Ela continuou nua e me serviu o café-da-manhã. Eu comi e fui me despedindo dela. Ela quis me levar pra casa e eu dispensei dizendo que eu mesmo poderia fazer isso. Que eu iria chamar um táxi pelo aplicativo. Que ela não se preocupasse. Então ela vestiu uma camisa grande com uma grande estrela de 5 pontas negra e me levou até a porta.

– Você me faz sentir mulher.

– Eu adoro mulheres. E foi um grande prazer te conhecer.

– Você é diferente, Jean.

– Eu sou como você, Tiffany. Pense.

– Tesão.

Senti a mão dela segurar minhas genitais e um beijo molhado na boca. E assim fui embora.

 

FIM.