A Culpa é da Máquina

 

Primeiro começamos a adorar os fenômenos da natureza. Um raio e o trovão em seguida eram entendidos pelos nossos ancestrais como um recado da onipotência divina. O deus relâmpago se retava se o homem e a mulher não fizessem a dança do bungá-bungá corretamente.

Depois elaboramos um panteão de deuses com belas mitologias. Eles viviam entre nós, faziam “amor” com seus servos, os homens e mulheres. E chegavam  até a produzir semi-deuses que alimentavam a imaginação dos homéricos contadores de estória.

Mais tarde, “refinamos” e criamos o monoteísmo com seus anjos e demônios e as cobranças apocalípticas sobre a humanidade desregrada.

Chegou o século XXI. E o suprassumo da humanidade olha para a História e ri das crenças ridículas dos seus ancestrais. Agora é a crença da “máquina”. Tudo é a máquina. Esse ser indefinido e etéreo responsável por maquinações virtualísticas. Contudo, não diferente dos antepassados, os pós-modernos responsabilizam a “máquina” pelas calamidades e simulacros contra a humanidade. A culpa é da máquina. Esquecem quem fica entre a tela do computador e a cadeira.

Particularmente, eu não me incomodo com nenhuma dessas crenças . Não mesmo. Vivemos em uma democracia que permite optar por qualquer credo. E também quero crer da maneira que eu bem entender. O que me incomoda é aquela parte, aquela gente pé-no-saco que age como fundamentalistas pós-modernos com suas teses de silício. Estes que fazem uma leitura anacrônica do passado e agem como os antiquados, usando de um sutil, mas ainda violento proselitismo.

Antes eram as máquinas engendradas para censurar os malditos que precisavam ser purificados. Vide a tecnologia usada nas inquisições medievais. E no caso mais extremo a purificação definitiva em uma fogueira abençoada. Hoje são bits e dispositivos que são usados para direcionar as pessoas para uma hegemonia de escolhas pré-definidas. Dentro dessa escolhas existem as liberdades pré-moldadas que “libertam o fulano da matrix”. E eu não sei de qual “matrix” eles estão falando porque são muitas. É como dizem por aí, o paraisotrix de um é o infernotrix de outro.

Pelo panorama histórico, parece que continuamos os mesmos. Estamos avançando a passos largos tecnologicamente e lentamente no reconhecimento de uma identidade global que precisa aprender a conviver com as diferenças se queremos manter nossa presença neste mundo. Mas de maneira geral, somos seres de cabeça-dura e adoramos fantasias.

Auto de fé do sonho de bits – Parte 1

 

 

Essas
pessoas dos sonhos com bits que se mostram tão livres e modernas. E
julgam e culpam fantasmas inquisidores. O tempo as contempla e diz:
mais do mesmo.
A
sutileza do proselitismo – às vezes não tão sutil – com suas
armas de silício em barcos de rios virtuais. Em alucinações
mornas que abraçam novos adeptos, transformadas em tentáculos
inflamantes aos que fogem e rejeitam prisões de falsos afetos. Este
proselitismo… Este proselitismo o tempo contempla e diz: mais do
mesmo.
Todos
dormem, estão todos com sono, é preciso acordar a todos, dizem os
vigilantes da nova fé dos sonhos. Senão… Dedos gosmentos sobre
teclados físicos e virtuais, transformando a web em uma teia
pegajosa, capturando a diversidade desavisada, natural e
despretenciosa.
É precisa acreditar nestes simulacros para que eles
possam exercer a missão de “acordadores”. Aceite e acorde com a
boca empaturrada de chocolate, enchendo uma privada de disenteria
mental. Fios invisíveis a conduzir sua vontade. Mas..ah. Como é
doce a liberdade de ser igual! O tempo assiste a este repetido teatro
de novos atores e diz: mais do mesmo, mas é até engraçado.