Poema sujo ( fragmento ) – Ferreira Gullar

Era a vida a vida a explodir por todas as fendas da cidade

sob

as sombras da guerra:

a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg

catalinas torpedeamentos a quinta coluna os fascistas os nazistas os comunistas o repórter

esso a discussão na quitanda o querosene o sabão de andiroba o mercado negro

o racionamento o blackout as montanhas de metais velhos o italiano assassinado na

Praça João Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de

tempestade por cima de nossa casa. Stalingrado resiste.

Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu primo que passava rifa, pelo tio

que roubava estanho  à Estrada de Ferro, por seu Neco que fazia charutos ordinários,

pelo sargento Gonzaga que tomava tiquira com mel de abelha e trepava com a janela

aberta,

pelo meu carneiro manso

por minha cidade azul

pelo Brasil salve salve,

Stanligrado resiste.

 

As poesias de Ferreira Gullar

Uma vez assisti uma entrevista com o Ferreira Gullar, onde ele explicava como se tornou comunista em seus tempos de juventude. Quando estava em Brasília, ele teve a oportunidade de ler um manual de um sacerdote católico que condenava o comunismo.

Se não me engano, Gullar dizia que o livro foi dividido em duas partes: uma com o Manifesto Comunista e do outro a contra-argumentação do padre contra Marx. Simultaneamente, uma página reproduzia as teses do manifesto e na outra a antítese feita pelo sacerdote. Disse o poeta que não teve dúvidas sobre a apologia do padre e se tornou comunista.

Ainda hoje, quando assisto na televisão ou leio qualquer condenação apaixonante sobre qualquer idéia ou pessoa, lembro dessa história de Ferreira Gullar. Geralmente, o alvo dos discursos inflamantes e ameaças, tem razão e algo valioso a ser entendido.

Para os apressados, aviso que este post não é uma defesa comunista. Mas nem tão pouco quero engrossar as filas de ultranacionalistas de direita e até mesmo de esquerda. Apenas encontrei uma bela oportunidade de registrar em meu blog trechos dos poemas do Ferreira Gullar.

Teu coração

esse mínimo pulsar dentro da Via Láctea,

em meio a tempestades solares,

quando se deterá?

Não o sabes pois a natureza ama se ocultar.

E é melhor que não o saibas

para que seja por mais tempo doce em

teu rosto a brisa deste dia

e continues a executar sem partitura

a sinfonia do verão como parte que

és dessa orquestra regida pelo sol.