Baseado de fatos reais – A Catadora Samaritana

Estava eu aguardando um ônibus para ir ao trabalho. Na minha cidade é costume nos bairros, posicionar as caçambas de lixo nos pontos de ônibus. Eu nunca entendi muito bem isso. Acho que é para o cidadão se distrair, enquanto aguarda o seu ônibus chegar. Assim, você pode fazer um estudo antropológico sobre o que as pessoas consomem no seu dia-a-dia. Ou então, se divertir com o basquete lixo.  O que é basquete lixo? É assim. O cidadão fica uns 2 metros da caçamba e joga o saco de lixo. Se cair dentro da caçamba, beleza. Se cair fora e o saco espalhar todo lixo no chão, o cidadão segue andando na maior naturalidade. Engraçado também são aqueles que fazem dos seus veículos, carros alegóricos de lixo. Saem de casa com o lixo no capô do carro e vêm dirigindo em baixa velocidade para perto da caçamba. Estou sendo objetivo aqui, não é sarcasmo. Podem rir. São os tipos de “costumes” que testemunhamos em Salvador. Contudo, não estou escrevendo este baseado de fatos reais para fazer relatos antropológicos ( e o parágrafo de apresentação ficou enorme. Divaguei de tanta ansiedade para escrever ), mas por algo extraordinário que ocorreu em um desses rotineiros dias no ponto de ônibus.

Fui chegando  no ponto de ônibus e vi aquela caçamba linda e cheia de artefatos arqueológicos, sendo disputadas por passarinhos lavadeiras e pombos. Um dos pombos estava com as patinhas cheias de fios e tinha dificuldade de se locomover. Pois bem. Eu tive muita vontade de ir ajudar o animal, mas tive nojo por causa do lixo em volta. Disfarcei minha covardia dentro da minha camisa que era tão preta quanta a cor da minha omissão.

Foi chegando um outro cidadão de camisa branca com a palavra PAZ de todo tamanho. Passou pelo animal, mas foi mesmo que nada. Subiu mais a frente, sentou no banco do ponto de ônibus e colocou um fone de ouvido.

Uma outra cidadã de camisa vermelha com palavras religiosas, também nada fez. Passou pelo animal, viu umas amigas no ponto de ônibus e começou a narrar sua vida pessoal em um volume que dava para ouvir em outra dimensão.

Veio outro cidadão também com uma camisa cheia de traços americanos. Este também passou pelo animal e nada fez.

Foi quando chegou uma trabalhadora da catação de lixo. Ela foi chegando devagar e num jeito todo despretensioso, foi desamarrando os fios das patinhas do pombo e por fim o pássaro voltou a voar livremente. Feito o ato com tamanha naturalidade, também naturalmente, a catadora de lixo seguiu para a caçamba e começou a reciclar o lixo para tentar conseguir seu pão de cada dia.

Os outros dignos cidadãos que estavam no ponto de ônibus nem notaram a ação da catadora. Estavam cada um em seu “carrossel” pessoal. Apenas eu e minha esposa acompanhamos a mesma cena. Nunca mais me esqueci daquilo.

Meses depois, eu fui chegando no mesmo ponto de ônibus, presenciando os mesmos costumes de sempre. E, de repente, outro pombo todo embolado em fios. E este estava em situação pior. Chegava a se embolar no chão em agonia. Fiz o que deveria ser feito. Imitei a catadora.

Mais outro dia. Três crianças de mais ou menos 6 anos. Uma de bicicleta e as outras duas acompanhando. Um pombo parecia ferido e não conseguia sequer se mexer. Pois bem, o menino da bicicleta queria por que queria passar por cima do pombo. Eu estupefato, evitando a ação do menino, vi que a mais ou menos 30 metros, os responsáveis pelas crianças assistiam a cena sem se importar. Eu me importei porque tive a humildade de aprender com uma catadora de lixo.

E isto, caro ou não caro leitor, é o que eu entendo como Karma. Um entendimento que está longe das adaptações fatalistas que os ocidentais fizeram sobre o assunto. Eu que não sou praticante de nenhuma doutrina ou religião, apenas um curioso e amador hermetista, sem fins escatológicos, tive a graça de aprender.

FIM!