A Verdade sobre Lilith ( Parte 1 )

 

Este conto é uma adaptação e troquei nomes e lugares para não identificar seus verdadeiros personagens.

A muito tempo atrás, seguia em num ônibus e em uma das paradas de pontos, vi uma faixa num prédio que dizia o seguinte: Clube Judaico Shalom Israel. Abertas inscrições para Curso de Gematria. Como gostava do assunto e tava com o tempo, decidi descer no próximo ponto de ônibus e voltei ao anterior, onde estava o clube e coletar informações.

Entrei no prédio e fui a um balcão na portaria, onde tinha duas jovens garotas. Uma delas me atendeu e me deu as informações sobre o curso. Quando ela me disse os custos para aprender gematria, vi que não teria como pagar. Agradeci o atendimento e fui guardando os panfletos na mochila que recebi da moça e indo embora, quando um homem sentado em uma cadeira, dessas que as pessoas sentam para aguardar sua vez de ser atendido, fez um “ei” pra mim e me chamou.

– Quer aprender gematria? – Ele apontou a cadeira ao lado dele, convidando para que eu sentasse, enquanto mexia em um smartphone. Sentei ao seu lado. O homem era deveras gordo e mantinha as pernas abertas por força da barriga. Tive que juntar minhas pernas para que meus joelho não tocasse o dele.

– Sim, eu quero. Mas o curso é caro.

– Hadassah, traz um papel e caneta pra mim, por favor.

A moça que me atendeu saiu de trás do balcão e fui rápida atender o homem velho e barrigudo. Ela atendeu o pedido do homem com um sorriso e ficou próxima de nós, esperando atender mais algum favor.

– Vá até a este endereço, neste dia e horário. Lá você vai aprender Gematria sem precisar pagar pelo curso.

– Obrigado. – Agradeci ao homem olhando para o papel que ele me deu . Ele se levantou, disse obrigado à tal de Hadassah e saiu em passos firmes apesar de todo aquele peso. Vestia uma camisa branca, calças cinzas com sapatos pretos e suspensórios que decoravam suas costas encurvadas.

– Você sabe quem é esse homem? – Hadassah me perguntou.

– Nunca o vi. Isso é algum tipo de pegadinha? – Disse a ela mostrando o papel com o endereço.

– Não é não. Aquele ali é o dono das lojas Trabelesh. Seu Aaron Aryeh.

– Você tá de brincadeira?

– Tô falando sério. – Hadassah foi andando de volta para o balcão e eu fiquei olhando para porta do clube meio abobado. As lojas Trabelesh estavam em todo território nacional. Era umas dessas lojas que vendem de tudo: móveis, eletrônicos, eletrodomésticos, roupa, cama, mesa e banho. O homem devia ser milionário.

Quando voltei pro ponto de ônibus. Um carro passou e alguém no banco de trás, acenou pra mim. Era Aaron Aryeh indo embora em um carro com motorista particular.

No dia combinado fui para o endereço que sr. Aaron Aryeh me deu. O bairro era daqueles de gente com muito dinheiro, muros grandes e casas espetaculares. Cheguei no número 5325. Um portão largo de aço, entre muros cobertos de unha de gato. Toquei o interfone e porta menor ao lado do portão maior se abriu. Entrei e dei de cara com uma guarita. Ouvi um som de uma descarga de sanitário. De repente aparece o sr. Aaron Aryeh com papel toalha entre as mãos, enxugando os dedos, olhando para mim como pra ver se era eu mesmo.

– Aqui seu Aaron, pode jogar o papel aqui neste cesto. – Falou o homem saindo da guarita e levando um cesto destes de colocar lixo de escritório. Aaron se virou para um homem enorme vestido de roupa de segurança patrimonial. Jogou o papel no lixo, ajeitou a calça e suspensórios e veio em minha direção com um sorriso.

– Você demorou. Fiquei esperando você aqui no portão e tive que ir ao banheiro. Desculpe.

– Desculpe, sr. Aaron Aryeh. Mas eu nunca tinha vindo aqui nesse bairro. Sou uma pessoa muito pontual, mas do ponto de ônibus até aqui demorou 20 minutos. Foi uma andada boa.

– Desculpe então. Da próxima vez mando meu motorista buscar você.

– Vamos parar de dizer desculpas um para o outro, sr. Aaron Aryeh. Mas eu aceito a carona do seu motorista.

Então Aaron Aryeh me convidou para ir à casa dele. Caminhamos conversando entre árvores que margeavam uma estradinha que levava até uma moderna casa. Um Welsh Corgi Pembroke nos acompanhava, o que me divertia muito.

 Aaron fazia comentários sobre a casa que estava a nossa frente, me apresentou empregados e uma de suas filhas. Dizia que era a que sobrou, pois todos os outros 3 filhos já tinham se casado. O cachorro com patas nanicas foi para uma mulher jovem na casa dos seus 30 anos. Naamah era o nome da filha. Tinha cabelo curto, preto, umas tatuagens no braço. Estava de saia relativamente curta. A mim não pareceu uma moça tradicional da cultura judaica. O que vim confirmar mais tarde, pois existe ainda muito preconceito sobre o povo judeu. A moça me olhava desconfiado, mas me recebendo bem. Logo ela desapareceu com o cão atrás dela, subindo em uma escada e entrando em um corredor que eu imaginava ser dos quartos.

Passei um bom tempo com Aaron Aryeh conhecendo a casa dele. Nossa conversa era tranquila como se fossemos amigos de muito tempo. No final do nosso encontro, estávamos na biblioteca da casa.

– Então, Jonas. Você vai precisar comprar este livro, este aqui também. Um dicionário desse também é importante. Acho que pra começar é isso.

– Seu Aaron Aryeh. Tô sem condições. Naquele dia que nos encontramos, eu estava vindo de uma entrevista de emprego. Tô sem grana e não recebi nenhum retorno da agência de emprego. – Seu Aaron, olhou para mim, passou uma das mãos no rosto e foi até um notebook na mesa da biblioteca. Perguntou meus dados pessoais. A impressora funcionou e ele veio até a mim.

– Você disse que mora no bairro Trobolopolis, não é?

– Isso mesmo.

– Conhece uma loja que eu tenho lá?

– Não tem como não conhecer, é enorme. Os ônibus do bairro passam lá.

– Muito bem. Apresente estes papeis lá na loja. Você vai trabalhar no estoque. É um trabalho fácil e já escrevi alguns detalhes sobre você. Você vai passar o dia subindo e descendo o elevador. O dinheiro vai ser o suficiente para os livros que precisa e ainda vai ganhar bônus e outras vantagens.

– Muito obrigado, seu Aaron. – Falei com os olhos úmidos e com sorriso enorme.

– Você agora é meu empregado e aluno, mas acima disso somos amigos. E é bom ter alguém de confiança em minhas lojas. Vou pedir para meu motorista levar você pra casa.

-Obrigado pela confiança. Mas acabamos de nos conhecer.

– Jonas, tenho 75 anos e a vida já me ensinou o suficiente sobre as pessoas. Apenas aceite.

Saí da mansão do sr. Aaron Aryeh, sentindo-me como se tivesse ganhado milhões na loteria. Cheguei em casa, contando os detalhes para minha família e todos ficaram entusiasmados.

Mais tarde, quando eu já estava para dormir, recebi um telefonema. Um número que nunca tinha visto. Atendi e uma voz feminina perguntou se era realmente o Jonas que realmente estava. Falei que sim.

– Aqui é a Naamah. Vou ficar de olho em você Jonas. – Eu ouvia a respiração da filha de seu Aaron Aryeh. Parece que tinha corrido e feito a ligação.

– Olha, seu pai é que me chamou para ir até sua casa. Nada mais quero dele do que ele me ofertou. Tenha certeza disso.

– Meu pai não chama qualquer um para a casa dele. Você tem ideia de como ele conseguiu tudo que ele tem hoje?

– Sou um rapaz de periferia, mulato… Você acha que vou roubar algo de… – Fui interrompido bruscamente pela garota que falava mais firme.

– Isso não me interessa. Mas atenda as expectativas dele… E as minhas. Entendeu? – O telefone foi desligado. E fiquei com aquele enigma na cabeça. O que será que ela quis dizer com “expectativas”.

Os meses foram passando e eu recebendo as aulas na mansão de seu Aaron Aryeh e trabalhando na loja dele. Um mundo se abriu diante de meus olhos com o estudo da Gematria. E Aaron Aryeh ficava entusiasmado com minhas perguntas e minhas opiniões não somente sobre o assunto, mas sobre quase tudo. Ele era um homem de mente aberta e pronto para mudar de idéia ou aprender coisas novas. Eu por minha vez me sentia  honrado de estar sendo educado por ele.

Naamah nunca me explicou sobre aquela ligação e eu nem tão pouco quis mostrar nenhuma curiosidade sobre o assunto. Eu imaginava que ela tinha ciúmes de um estranho e não judeu na casa dela. Várias vezes eu chegava na casa deles e a encontrava no sofá da sala, lendo algum livro. Eu apenas a saudava e seguia para o escritório do pai dela. Mas sentia que seus olhos acompanhava cada passo meu. Um dia fiz o que sempre fazia quando a via no sofá, mas antes de entrar no corredor que dava acesso ao escritório, virei rapidamente e flechei meus olhos nos dela. Ela sentiu um tremor e deixou escapar um pequeno sorriso que foi seguido de careta, disfarçando a surpresa. Acho que ela entendeu meu recado.

Mas o mais importante vem agora. Foi quando eu já estava na cama e meu smartphone tocou. Eram 23:15. O número não estava registrado na agenda do telefone. Atendi a ligação.

– Alô.

– Alô Jonas. Aaron Aryeh falando. Meu motorista está lá fora lhe esperando. Preciso conversar com você. Se arrume com calma, mas venha. Estou lhe esperando.

– Sim, senhor. Já estou indo. – O ligação caiu e apenas obedeci as ordens do chefe. Pensei de imediato que era sobre alguma coisa na loja e meu preocupei. Alguns funcionários tinham inveja de mim e criavam problemas. Mas como o gerente era tão amigo de Aaron Aryeh quanto eu, tudo era bem explicado e sempre favorável a mim. E eu também não dava motivos para que meus chefes pensassem o contrário. Mas dessa vez, talvez algo de sério aconteceu.

Clique aqui e continue a ler “A Verdade sobre Lilith ( Parte 1 )”