Contos alucinantes – Todos a bordo

A narrativa seguinte aconteceu quando eu, Nelson e Joelson decidimos passear no Rio Grande do Sul. Não espero que ninguém acredite em mim. Mas acho que vale a escrita por mais incrível que ela seja. Aliás, por ser incrível é que vale a pena.  Leia o meu primeiro relato aqui para entender bem o deste post.

Então, como disse, estávamos os três fazendo turismo lá na terra dos gaúchos. Paramos e entramos em uma lanchonete para comermos uns sanduiches. Tínhamos acabado de receber nosso pedido, quando alguém passou por nossa mesa e derrubou meu refrigerante e por pouco não me molhou todo. Um homem de rosto oriental se virou para mim e pediu muitas desculpas e pelo sotaque vi que não era mesmo brasileiro. Disse que estava tudo bem, trocamos cordialidades e ele decidiu pagar nossa conta. Ele estava acompanhado e juntamos mais uma mesa para lancharmos todos juntos. 

Foi então que ele contou que era comandante de um navio cargueiro. Tinha costume de sempre cumprir uma rota, onde uma das paradas era o Brasil. Declarou amor pelo nosso país e aproveitava o tempo que em que a embarcação recebia a carga para passear nas cidades dos portos brasileiros onde atracava. Comecei a perguntar a ele sobre a vida de marinheiro. Ele falou que era tailandês e que desde menino se apaixonou pela vida no mar. Contou seus esforços para aprender até chegar a ser comandante de um navio cargueiro. Todos nós ouvíamos com admiração, menos os seus imediatos que comiam como se já tivessem ouvido o comandante com suas estórias várias vezes. 

-E vocês? Não gostam do mar? 

– Eu não tenho nada contra. – Respondi ao comandante em tom de brincadeira como alguém que não quer dizer nada sobre o bom amigo do outro. Nelson me repetiu e Joelson deu de ombros com a boca cheia de pão com hamburguês. 

-Então porque brasileiros não viajar com comandante? Muito bom. Conhecer mundo… Lugares diferentes. Brasileiros aprender bastante. Eu garanto. 

Ficamos surpresos com o convite do comandante e ficamos olhando uns pros outros. Não dava pra responder logo assim… De repente. Ele percebeu. 

-Eu fico mais 3 dias. Dou um jeito pra tudo… Tudo pra vocês viajarem. Quer conhecer navio primeiro? Navio humilde, mas…. – o comandante desatou a rir – Vamos no porto e vocês decidem, vamos… 

Concordamos em visitar o navio do comandante e investigar se aquilo não era nenhuma pegadinha. E de qualquer formar, nunca fomos no porto de Rio Grande, nem tão pouco entramos em nossa vida em nenhuma embarcação. Imagine de primeira entrar em um navio cargueiro. Para três jovens, aquilo era uma aventura. E era isso que procurávamos naquelas férias.  

Entramos todos em dois taxis e fomos para o porto. Chegando lá, o comandante Thaksin foi atravessando contêineres, galpões, caminhões e saudando a todos com alegria e sendo recebido da mesma maneira, quando chegamos no atracador o comandante apontou o dedo e disse que era aquele pequeno ali. 

A embarcação que ele apontou era enorme. O leviatã de aço era todo vermelho e tinha escrito em letras brancas no seu dorso SVANE AV HAVET. Ficamos impressionados. Um guindaste acomodava contêineres no navio e ficamos por alguns minutos observando toda a movimentação com espanto e admiração. Tudo parecia ser grande e magnifico. O comandante nos convidou para subir. Quando estávamos indo em direção a escada, um gato gordo e grande passou em nossa frente e subiu na embarcação. O comandante franziu as sobrancelhas e subiu em passos rápidos a escada e fomos seguindo ele, junto com os imediatos. 

Chegando lá em cima, o comandante se encontrou com um homem loiro que estava acompanhando a organização dos contêineres e começou a reclamar com ele. Não entendemos nada do que eles falavam. Imaginei que o comandante estava zangado por terem deixado um gato na embarcação. Mas depois ele se virou para nós e em português explicou que o bichano fazia parte da tripulação, junto com mais três cães. E disse que tinha pedido à tripulação para os animais não descerem no porto para não se perderem. 

O comandante fez questão de nos apresentar o navio e enquanto ele explicava coisas sobre as embarcações, recebia a tripulação e era informado sobre alguma coisa ou dava ordens. A nós três, tudo era entusiasmante. E a coisa ficou melhor quando entramos na sala de comando. Depois de nos explicar até onde poderíamos entender, o comandante Thaksin perguntou: 

-Brasileiros vir com comandante para aventura em alto mar? 

-Mas comandante. Não queremos ser clandestinos. Como fica a situação burocrática? 

-Eu acerto tudo..Tudo. Tem muitas amizades. Brasileiros tem passaportes… Tem na mochila? Fiquem tranquilos. – E o comandante piscou o olho esquerdo para nós, com as mãos agoniadas pedindo nossa documentação. 

Aceitamos o convite. Mas por minha vez, liguei para casa e expliquei a situação para meu pai. Ele ficou desconfiado, mas como tinha alguns contatos no Itamaraty pediu para que desse todos os detalhes sobre o navio e o comandante. Eu não escondi isso do comandante e o mesmo cedeu todas as informações que pedi entre risos. Após um dia, meu pai retornou a ligação dizendo que estava tudo correto. Inclusive que o comandante já tinha sido motivo de um documentário norte-americano. 

Então topamos viajar. O comandante disse que sairíamos do porto do Rio Grande e seguir pelo litoral brasileiro. Mais alguns portos subindo pela América Latina, depois o navio iria atravessar o canal do Panamá e seguir para seu destino principal, o porto de Shangai, onde iria descarregar todo o navio. Interroguei ao comandante como iriamos nos ocupar durante a viagem. Ele disse que sempre tinha trabalho a ser feito no navio, mas que ficássemos despreocupados, pois ali éramos convidados e que não faríamos nada que tirassem nossa diversão. 

Confirmamos nossa viagem e o comandante chamou alguém da tripulação e falou algumas palavras que não entendemos. Dessa vez o marinheiro na nossa frente tinha traços orientais como o comandante e ao receber as ordens dele, venho todo alegre até nós e nos saudou com palavras que não entendíamos, mas era de boas-vindas. Segurou com suas duas mãos calejadas as nossas com entusiasmo e nos levou até nossa cabine.  

A seguir veio outro marinheiro que em inglês nos explicou o que fazer em caso de emergências. Nelson era fluente em inglês e foi traduzindo pra gente os procedimentos. Ao final das explicações e de uma ligeira simulação, o marinheiro com sotaque irlandês pergunta se havia alguma pergunta. Dos três, Joelson levanta a mão e pergunta se tinha alguma roupa azul, porque aquela de cor laranja ele achava feia. Ele recebeu um tapa na cabeça do irmão que nem traduziu aquilo para mr.Kevin. 

Bom. Eu poderia escrever sobre todo divertimento que tivemos durante a viagem, mas aí isso viraria um livro e não um conto. Mas aprendi muitas coisas sobre a arte da navegação com o comandante e ficávamos durante horas com ele na ponte de comando, ouvindo os casos da vida dele. Quando não estava com o comandante, ia pra cozinha ajudar na alimentação da tripulação ou na manutenção da embarcação. Brincávamos no convés com os cachorros: um boxer branco com uma mancha preta no rosto, um border collie e um pug. O gato aparecia quando ele queria e sempre se interessa mais por mim do que por Nelson e Joelson. Um dia eu estava no refeitório almoçando e ele apareceu e ficou roçando nas minhas pernas. Nelson lembrou do caso da piscina e do gato que apareceu naquele dia. Disse a ele que existia milhões de gatos pelo mundo e que uma coisa não tinha nada a ver com a outra. 

Quando o navio saiu do canal do Panamá e entramos no oceano pacifico, o tempo foi mudando. A cada hora que passava, pouco a pouco o mar ficava agitado e o céu azul ia ficando cinzento. O comandante Thaksin, disse que aquilo não era normal. Mas que estava tudo bem. Perguntei se a embarcação aguentava uma tempestade. Ele olhou para mim como um professor para um garoto de escola primária e disse que até um furacão. E desatou a rir. 

Muito bem. Mas aquele tempo foi piorando e um dia lá pelas 23 horas, a coisa foi ficando braba. O comandante e seus imediatos estavam em um estado de concentração que nunca tínhamos visto antes. Educadamente e não querendo nos preocupar o comandante pediu para nos três irmos para cabine descansar e que nos esperava para contar um caso qualquer que nós íamos rir bastante. Obedecemos e fomos até a cabine e quando abrimos a porta, o gato entrou correndo e subiu na minha cama. Nos olhamos e a primeira coisa que falei para os irmãos é que se lembravam dos procedimentos de emergência. Eles disseram que sim e fomos nos deitar em silêncio. O gato foi dormir em meus pés. Ao longe, ouvíamos os cães latindo. A situação se mostrava a mais incomum da viagem. 

Logo dormi embalado pelo sobe e desce do navio que de todos aqueles dias de viagem era a primeira vez que me lembrava que eu estava em uma embarcação, deslizando pelo oceano. De fato, as ondas deviam estar altas. Então, eu estava sonhando com a Bettie Page e quando ela começava a beijar todo o meu rosto, acordei assustado com luzes vermelhas e o alto falante a berrar um som que nos fez sair da cama e vestir os trajes de sobrevivência. O navio balançava e parece que íamos pular e bater no teto. Nos vestimos e saímos pelo corredor do navio, o velho coreano nos chamou e ensinou um outro caminho para ir até a sala de comando. Não passamos pelo convés e entramos na sala por uma porta quase ao lado do comandante. Quando me aproximei dele, ele simplesmente nos olhou e disse: 

-Perdão..Perdão… Não pensei que seria assim. Nunca aconteceu isso antes.  

-Qual a nossa chance comandante? – Perguntei já sabendo a resposta quando olhei pela janela de vidro e vi o tamanho das ondas gigantes. O navio pulava e balançava. E ainda toneladas de água do mar entravam no convés e mal demorava de ser escoado, outra onda vinha e enchia mais de água. 

-Estou tentando o meu melhor. – Foi a maneira discreta dele dizer que a situação era trágica. 

Nos agarramos nas alças da sala de comando e vi o comandante passando ordem e recebendo informações dos imediatos e da tripulação. Um dos imediatos estava no rádio repetindo as mesmas palavras que com certeza informava a posição do navio e pedindo ajuda. 

Em determinado momento vi que o comandante ficou duro como uma estátua. Eu fui até ele. Ele segurava o volante da embarcação e seu corpo tremia. Estava todo duro e respirava com tanta força que podia ser ouvido cada inspiração. Eu me aproximei do comandante e chamei pelo nome dele várias vezes. Ele continuou tremendo e olhando para frente. Gritei para os imediatos e pedi para o Nelson falar em inglês que o comandante estava em choque e que precisa de um médico. Os imediatos foram até ao comandante e foi difícil tirar as mãos dele do volante. O navio agora chocalhava estupidamente e os contêineres batiam um no outro fazendo um estrondo terrível. Eu segurei o volante institivamente e Joelson e Nelson ficou cada um ao me lado. 

-Você sabe dirigir navio? – Perguntou o Nelson pra mim. Em outro momento teria dado um cascudo na cabeça dele. Mas me dei conta que estávamos vivendo as últimas horas de nossas vidas. 

-Joelson. Se você puder chamar um daqueles pretos-velhos que a Ritinha te ensinou… Tá mais do que na hora. – Falei sorrindo pra ele como que me despedindo. Não sei se ele tinha noção do que estava para acontecer. Mas não queria e nem tinha como explicar pra ele. Olhei para Nelson que continuava a olhar para a frente e tinha um rosto resoluto. Ele sabia. 

Chegou o momento. Uma onda gigante se formou a nossa frente e o navio começou a se inclinar para cima como um foguete que é guinchado vagarosamente na área de lançamento. Eu vi o comandante várias vezes acionar uma manivela para aumentar a força do motor e foi o que fiz. Aquilo não adiantou nada. Quando meus pés começaram a escorrer para trás e o navio não mais avançava na onda, apenas pensei em uma coisa: Morri. A embarcação iria virar de cabeça pra baixo e era assim que entraríamos na outra dimensão.  

Mais um pouco, quando já não tínhamos como nos segurar no painel de controle, ouvimos um chiado enorme como se tivessem lançado milhões de antiácido estomacal no mar. A embarcação parou. E quando pensamos que não havia mais pavor para suportamos, o mar como que congelou. Na verdade, gelatinou. É o máximo que posso explicar para ser entendido. Imagine gelatina sem cor. Foi assim que ficou a onda a nossa frente e por alguns segundos ficamos ali estacionados, quando algo estourou um pouco abaixo da crista da onda. Um objeto enorme passou por sobre o navio e lentamente a embarcação foi descendo e o mar se abrindo a nossa frente.  

Quando o navio ficou nivelado, saiamos da sala e olhamos a nosso redor. Estávamos sobre um mar de gelatina. É o que posso dizer. A textura da água estava mudada. A nave que passou sobre nós e que fez um furo na onda, deixou pedaços daquela aquela gosma gelatinosa sobre toda a embarcação. Saímos da sala de comando e olhamos para o céu e vimos pequenos objetos zunindo para lá e para cá e por onde eles passavam as nuvens iam se dissolvendo e mostrando o céu azul. 

Olhei para a popa da embarcação e vi que a nave começou a se aproximar. Eu corri para a sala de comando e peguei um binóculo. Nelson e Joelson foram depois de mim e voltaram também com binóculos e miramos na nave. Ela foi se aproximando lentamente ao lado da embarcação e vimos uns homens sobre a nave. Bom. O que posso dizer é que pareciam vestir algum tipo de roupa ou armadura que lembrava muito uma dessas figuras que encontramos em manuais de anatomia que os estudantes de medicina estudam para estudar os músculos do corpo.  A cabeça não tinha olhos, nem nariz boca ou ouvidos. A couraça, roupa, armadura, seja lá o que era aquilo, era branco. E quando eles ficaram alguns metros lado a lado do navio. Os objetos que estavam no céu desceram como um enxame de abelhas e entraram na nave que parecia um submarino voador no formato de um tubarão sem nadadeiras 

O céu estava todo azul e conseguimos ver o sol a oeste. Então um daqueles homens iluminou seu traje como um vagalume e riscos dourados apareceram por todo o seu corpo. E nos mostrou seu ombro esquerdo, onde tinha um conjunto de signos que lembrava muito um daqueles cartuchos egípcios. Ele passou o dedo indicador e mínimo da mão direita pelos símbolos e apontou depois pra gente. Os outro 4 que estavam com ele fizeram a mesma coisa. Depois disso, bem na frente dos nossos olhos, eles se dissolveram. É como consigo explicar. É como se cada átomo deles virassem um pingo de água e caíssem no mar. O mar a nossa volta voltou ao normal e a gosma que estava na embarcação escorregava como água salgada pelo aço do navio 

-Vocês viram o que eu vi? – Falei estupefato para os irmãos. 

-Metaleiros eles não eram. – Falou Nelson imitando meio que estupefato o homem que apontou os dedos para nós. 

-Eram viajantes do tempo.- Falou Joelson ainda com os binóculos no rosto, procurando mais alguma coisa no horizonte. 

-Ah é? E como o Einstein sabe disse?  – Perguntou o Nelson olhando para o irmão que continuava a segurar os binóculos. 

-Eu vi isso numa revistinha. 

-Revistinha? – Perguntei olhando pra ele. Joelson abaixou os binóculos e respondeu como se eu fosse a pessoa mais idiota do mundo. 

-É gibi, quadrinhos… P***ra! Nunca leu um não? 

De repente senti algo roçando em minhas pernas. O gato do navio ronronava e esfregava a cabeça em meus pés. Peguei o animal e segurei em meus braços e me lembrei dos três cães e fui ver se tinham sobrevivido.    

A tripulação estava bem. Todos estavam vivos. O comandante estava melhor e pediu para que se fizesse uma verificação completa no navio, antes de saber onde estavam e qual era o porto mais próximo que poderia receber a embarcação. Tirando a bagunça dos objetos que ficaram espalhados por todo navio, quando ele pulou as ondas gigantescas, tudo estava em ordem. Estranhamente em ordem. Até mesmo os contêineres estavam preservados e devidamente “amarrados”. Nós vimos que eles estavam já escorregando para fora do navio. 

Depois que tudo foi reorganizado e o navio limpo, o comandante Thaksin informou que iriamos para o porto de Suva em Fiji. Ali o navio poderia ser verificado com mais detalhe para continuar seu destino final que era Shangai. O comandante já se sentia aliviado por não ter perdido nenhum contêiner e nenhum dos seus marinheiros. Para nós ele sempre olhada diferente, mas sentíamos que não era nada ruim sobre nós. O comandante disse que iria colocar o navio na nova rota e conversaria apenas com nós três. Fomos para nossa cabine descansar. 

Mais tarde, o comandante pediu para que o mesmo marinheiro que nos mostrou as dependências no primeira dia na embarcação, nos levasse até ele para a conversar. Fomos com um sentimento de apreensão. Certamente não fomos os únicos a ver aquele submarino voador com aquelas pessoas. O comandante iria fazer perguntas. 

O sorridente marinheiro com traços orientais, pediu para que entrássemos na sala e assim fizemos. Ele entrou conosco e fechou a porta atrás de nós em seguida. O que vimos foi o comandante Thaksin com um cigarro na boca, em pé em e andando em torno de mesa quadrada com 8 cadeiras. Ele estava terminando de colocar gelo nos últimos dos 5 copos de vidro que estavam sobre a mesa, em frente a cada cadeira. O comandante pediu para sentarmos e começou a servir uma bebida. Foi quando Joelson chamou pelo meu nome e ficou me apontando com a cabeça a garrafa que o comandante segurava. Quando percebi, senti um arrepio por todo corpo. Senti cada fio de cabelo de minha cabeça ficar eriçado. Era um Chivas Regal. 

-Algum problema? – Perguntou o comandante percebendo nossos rostos assustados. 

-Não senhor. Mas me lembro do senhor me dizer que não bebia e não fumava e por isso é que mantinha a forma e a boa saúde. 

-É verdade. Mas brasileiro… Depois de tudo… Momento pede comemoração. Beba, beba… Muito bom.  

Aceitamos e concordamos com o comandante. Eu bebi o copo de uma só vez. Quando a bebida desceu na garganta, ardendo e queimando, imediatamente lembrei de Lindalva. Aquela mulher tinha a volúpia de uma bacante e a sabedoria de uma Beatriz de Dante.  E foi ela que me ensinou a usar estar metáforas, pois como engenheiro estava mais habituado a números e linhas. Ela era filha de um cônsul americano no Brasil e estava estudando ciências humanas na mesma universidade onde estávamos. Aquela mulher me viu e não sei o que percebeu em mim que me perseguiu até que conseguiu ficar comigo. Ninguém entendia como ela tinha escolhido ficar com o que hoje os mais jovens chamariam de nerd. Mas passar algumas horas com ela era sublime e delicioso. E tenho certeza que ela teria alguma teoria sobre aquilo que vimos. 

O comandante estava do outro lado da mesa. Esperou que experimentássemos da bebida. Deu uma baforada e bateu o cigarro num cinzeiro que tinha a forma de um dragão oriental. 

-Então… Vocês sabem o que foi aquilo? – Perguntou o o comandante olhando para as cinzas no cinzeiro. Não sei como, mas senti no comandante alguma vergonha. Talvez por ter entrado em choque no momento que ele percebeu que seria o fim de todos. Eu mesmo me perguntava como também não morri, antes mesmo da onda gigante virar o navio. 

-Comandante, sabemos tanto quanto o senhor. 

-Acha que aquilo foi coisa de UFO? 

-Não acredito nisso. Vi quatro pessoas com cabeça, corpo e membros como nós. Mãos que tinham cinco dedos. 

-Foi coisa de americanos? 

-Existe alguma coisa neste navio que é de interesse dos Estados Unidos ou de qualquer outro país? O comandante olhou para nós três por alguns instantes, fumou mais e disse. 

-Não, não… Se tem algo em contêineres, eles devem saber tudo, tudo… A companhia trabalha para muito países. Estados Unidos também. Eu aporto lá umas 3 ou 5 vezes anos. 

-Sendo assim, poderíamos dizer que foi coisa de chineses, russos, alemães, britânicos… Eu não acredito nisso comandante. 

-No que você acredita então? – O comandante tragou novamente o cigarro e assoprou para o lado, mantendo o cigarro entre os dois dedos indicador e médio, sobre o cinzeiro. 

-Eu acredito que seja lá o que foi aquilo ou eles, salvaram nossas vidas. Isso é o que importa. – Respondi olhando bem nos olhos do comandante. Fiz questão de aproximar meu rosto bem junto ao do comandante, tentando mostrar a ele que eu não tinha como responder as dúvidas dele que também eram as minhas. 

-Mas meus marinhos dizer que viu eles apontarem para vocês o braço. 

-É verdade comandante e em seguida desapareceram em minúsculas gotas d’água. Mas acredite em nós. Não temos culpa sobre o que aconteceu. 

-Oh não…Não é isso. Eu pensar contrário. Brasileiros trouxe sorte. Comandante não culpar vocês. Eu ter convite para vocês. – Neste momento o cigarro do comandante tinha sido todo consumido até o filtro. Ele com muita delicadeza apagou o que restou no cinzeiro. Juntou as mãos sobre a mesa e olhou para nós três. 

-Eu ter homens de mundo todo neste navio. Ver Myung-Dae? – Neste momento o capitão passou o braço sobre os ombros do velho marinheiro que sorriu alegre – Ele soldado de guerra Coreia. E vocês viram Italiano, Francês, Alemão, Mexicano, Inglês, Norueguês, Americano, Árabe… Assim que gosto. Mas queria brasileiros. Faltar brasileiros… E eu gostar de Brasil. Eu encontrar vocês e gostei de vocês. Quer trabalhar com comandante Thaksin?  

Eu, Nelson e Joelson nos entreolhamos e tentamos em alguns segundos imaginar nosso futuro em um navio cargueiro viajando pelo mundo. Enquanto pensávamos, o comandante Thaksin explicou todas as oportunidades que a companhia do navio oferecia aos tripulantes dedicados e interessados. Ele disse que um dia poderíamos até ser como ele e começou a lembrar alguns casos de outros marinheiros. Ele já estava entre muitos risos e enchia mais uma vez seu copo do Chiva Regal. Toda vez que eu via aquela garrafa, só lembrava da nossa piscina. 

 Falando por todos, lembrei ao comandante que éramos estudantes e queríamos concluir nosso curso de engenharia. Mas que mantivesse o convite aberto. O comandante disse que já nos considerava parte da tripulação e que quando voltássemos ao Brasil, quando quiséssemos, quando ele estivesse em um porto brasileiro, sempre poderíamos nos integrar aos seus marinheiros seja nas férias ou permanentemente. 

Fomos dispensados pelo comandante, não sei antes ele dizer algumas palavras como se algum tipo de prece oriental sobre nós e sorrindo muito. Disse para nos divertimos o máximo e que estávamos livres para fazer qualquer coisa no navio e que não tivéssemos vergonha de pedir nada. E quando chegássemos em Fiji, iria pagar um passeio para nós na ilha. 

Saímos da sala aliviados e felizes. Mas encucados com a garrafa de whisky Chiva Regal.  

-Mas que p***a tá acontecendo com a gente? – Falou Nelson, enquanto nos dirigíamos para o convés. 

-Pergunta pra seu irmão Einstein, aí. Ele que entende dessas coisas. – Falei sério olhando para Joelson. Mas ele apenas me mostrou o dedo médio e fomos ver o oceano pacifico, enquanto o navio deslizava calmo sobre ele em direção a Fiji. 

Na ilha tivemos um baita de um passeio turístico em lugares paradisíacos. O comandante pagou tudo e nos melhores hotéis. Em Fiji senti muita falta de Lindalva. Alguns lugares eram ótimos para uma lua-de-mel e comecei a divagar sobre um futuro junto com ela. Senti a saudade chegar a um ponto que quase combinei com Nelson e Joelson para pedir ao comandante uma viagem de volta ao Brasil, sem voltar par ao navio. Os irmãos também já tinham comentando que já começavam a sentir saudades dos pais.  

Enquanto decidíamos sobre isso. Estávamos aproveitando nosso passeio pela ilha com um guia turístico, quando vimos uma multidão fazendo uma festa em plena rua. Era população nativa e vi que um homem segurava uma garota sentada em seus ombros, dançava e cantava com os demais. A menina segurava um papel, imaginei que era cartolina onde tinha uma figura pintada a lápis de cor que não conseguia definir o que era pela distância que estávamos. Imaginando que seria alguma celebração religiosa e me lembrando de Lindalva, pedi ao guia para perguntar o que estava acontecendo. Ele se aproximou de um da multidão. 

Ele voltou explicando que aquele homem que estava segurando a garota era um dos proprietários da maior rede hoteleira da ilha. E que era a filha dele que estava nos ombros. Que ela estava gravemente doente e já tinha sido considerada caso perdido para os médicos. Que ela já estava de coma, até que por milagre ela se levantou da cama do hospital como se nada tivesse acontecido. E o papel que ela segurava era dos deuses que tinham curado ela. Então o pai estava oferecendo uma festa em homenagem aos deuses e pela cura da sua filha. 

Ouvi tudo aquilo e pensei que Lindalva ia adorar a cena. Nós três estávamos encostados em uma parede quando a multidão foi chegando mais perto da gente com muita cantoria e algazarra. A procissão foi caminhando sobre nossa frente e quando o pai com a menina passou sobre nós, ela começou a gritar para o pai e começou apontar para gente. Parece que pedia para descer, o que o pai fez e veio correndo até onde estávamos. Sem fôlego e falando no idioma que não entendíamos, ela nos mostrou a cartolina e o desenho que ela tinha feito. Nós três seguramos a cartolina e o que vimos nos apavorou. 

Meus Deus! – Eu gritei e comecei a tremer.  

No desenho tinham três homens em uma sala. Cada um deles tinham aquelas pequenas esferas que vimos no submarino voador, flutuando ao lado da cabeça deles. Uma para cada um. O que parecia com Nelson olhava para uma garota na cama, enquanto outras esferas estavam sobre ela. O outro estava de braços cruzados, observando a situação da garota, parecia comigo. E o outro parecido com o Nelson, apontava o dedo médio para uma garrafa. Era a mesma Chiva Regal que bebemos com o comandante. Do lado do desenho com os três homens e a garotinha, aqueles símbolos parecidos como a do homem que apontou para nós lá no navio. A menina desenhou o rosto de cada um em detalhes. E podíamos ver que éramos nos três. Vestidos com uniformes parecidos como o dos homens que vimos sobre a nave. 

Pedimos a nosso guia para nos tirar dali imediatamente, puxando-o para o carro e que nos levasse ao porto. Entramos no navio e decidimos ir embora para casa a partir de Shangai. 

 O comandante exigiu que todos os tripulantes fizessem um juramento que não iriam contar aqueles eventos a ninguém para o bem de todos. E mais ainda o comandante insistiu que nos éramos parte de sua tripulação. A mesma resposta dei ao comandante Thaksin quando bebemos juntos e ele tinha terminado de fumar seu cigarro e jogar a ponta na boca do dragão.  

FIM.

Contos alucinantes – Manual de Amorcismo ( Parte 1 )

Parte 1


O gato sobe na mesa e faz um pruuu. Para ele, a longa mesa encostada na parede é uma passarela de vários livros em suportes de leituras. Ele anda pelos livros e começa a mordiscar o de capa amarela com uma mão segurando uma flor. Uma mão se estende até a cabeça do gato e o acaricia. O felino sente o afago e aproveita o máximo do carinho do seu tutor. O gato cinza e branco derruba um livro no chão. Ao perceber o que fez, pula para uma janela de vidro fechada e senta no parapeito, olhando para as pessoas que passam lá embaixo. Seus olhos miram como se já tivesse visto todas as pessoas do mundo.
O homem vê seu gato ir até a janela e fecha um livro que estava lendo, cheio de figuras com estatuetas de uma era antiga, mas que ainda se esconde sob a fina camada dos tempos modernos. Um exemplar do Livro das Horas foi resgatado do piso que estava frio, mas não tanto quanto o frio que estava lá fora. É inverno. Ele coloca o livro ao lado do outro mordiscado pelo gato. O livro amarelo é aberto pelas suas mãos e uma página declara:
“Aquele para quem não existe a outra margem, nem esta margem, ou as margens deste e daquele lado, que é destemido e depreendido -, a este brâmane eu chamo”.
O Dhammapada é fechado. As mãos abrem o Livro das Horas e olhos leem no acaso das páginas:
“ Quando eu chamo, respondei-me…”
O smartphone toca. O homem para de ler e ao ver o nome na tela, se apressa em atender.
– Alô… Sim. Tudo bem. E o senhor… Certo. Posso sim… Qual o nível? O médico está presente na casa? Muito bom… Certo. Isso acelera meu traba… Ok. Tudo bem. Pode enviar para o meu e-mail… Sim, senhor. Farei o que for possível.
De repente, o rosto do homem recebe sua mão pelo rosto com a barba por fazer. Sua face mostra uma ligeira contrariedade. O gato continua a olhar para a janela como um vigia. O homem troca o smartphone de lado do rosto e olha para o notebook. Um e-mail chegou com com um link para uma pasta criptografada em um serviço de armazenamento na nuvem.
– Não sei porque vocês insistem nessa idéia. Gosto de trabalhar sozinho. Onde está aquele…como era o nome dele mesmo… Ah. Isso. Se você lembra o nome dele, deve lembrar também o que aconteceu com ele… É… Espero que esteja melhor… Quem? O senhor está brincando? D. Ezébio que recomendou… – Risinhos escondem um nervosismo crescente no homem que segura o smartphone, enquanto ele abre os arquivos no notebook.
– E o outro? Hum… Certo… Certo… Sim, posso recebe-los, mas eles terão que permanecer sob minhas ordens e tenho direito de dispensá-los… O paciente está em primeiro lugar… Sim… Eu sei… Mas já conversamos sobre isso… Mas são poucos que tem cabeça e estômago para este tipo de trabalho. Não, tudo bem. Vou receber os dois…Certo… Tudo bem. Obrigado…Obrigado. Para o senhor também… Sim. Eu enviarei o relatório com todos os detalhes assim que eu terminar o serviço. Tchau.
O homem desliga o telefone e o deixa ao lado do notebook. Começa a ler na tela sobre o caso. A foto de um jovem rapaz de 16 anos está na tela com outros dados. Lê todo o caso. Existe alguns vídeos e os assiste. Percebe que existe algo novo… Algo que não se enquadra nas dezenas de casos anteriores. Sentiu um ímpeto maior. Assiste os videos novamente. De repente olha para o relógio do sistema e percebe que já se passaram 50 minutos, desde o telefonema. O gato parece pressentir o movimento de seu dono e sai da janela, pula para o chão, faz um puurrr e sai correndo para o quarto.
Uma vida de 56 anos se ergue da cadeira e sai em direção ao banheiro para fazer a barba. Logo as visitas chegarão. É preciso arrumar também os instrumentos do ofício. Antes de chegar ao banheiro, vê seu gato na cama. Olha para ele e o gato devolve o olhar mexendo devagar as pálpebras. Por um momento ele teve a impressão de ter visto as pupilas do gato se contraírem em slow-motion.
Túlio molha o rosto em frente ao espelho que revela suas rugas. Ele sorri para o espelho e vê o mesmo homem de 25 anos atrás. Se lembrou do primeiro caso. Foi em um bairro humilde de Roma. Logo viu que do seu jeito seria bem melhor. Mas quanto problema isso lhe causou. Mas…Os pacientes… Sim, ele chamava de pacientes e não da maneira como aprendeu na escola do vaticano. Os casos eram resolvidos com um sucesso admirável. Um sucesso que lhe custou um processo. Mas hoje, eles é que o procuram e seu método não é questionado.
Metade do rosto livre dos pelos. Quando começa o outro lado, a campainha da porta do apartamento toca. Deve ser as visitas. Vai para a porta e olha pelo olho mágico. Destranca a fechadura e vê duas pessoas em sua frente.
Um homem vestido de preto, blazer e clerical ao lado de um mais jovem de tênis, jeans e camisa casual e jaqueta com uma letra grega pendurada no pescoço. A cena não poderia ser mais díspare. Túlio pede para que entrem no apartamento e ambos passam ao lado de um homem vestido de moleton com uma camisa surrada e com meias nos pés.
-Quem é o pe.Clécio e quem é o Roberto? – Pergunta Túlio.
-Eu sou o Pe. Clécio Pereira, Ordem dos Pregadores. – Responde o homem de preto, estendendo a mão para Túlio que por sua vez limpa a mão na camisa e aperta a do padre. Durante a saudação, Túlio vê que a outra mão do padre segura uma maleta.
-Prazer. E você é o Roberto. Tudo bem? – Falou Túlio apontando o dedo para o jovem que mostrava alguns riscos de suor na testa. O rapaz abriu um sorriso e recebeu a mão do Túlio com as duas mãos. O rapaz parecia um calouro e carregava uma mochila nas costas.
-Sim, eu sou o Roberto. Sou postulante no Convento da Redenção dos Frades Menores. Muito prazer.
-O prazer é todo meu, Roberto. Eu preciso terminar de fazer a barba. Querem água, café…
-Água seria uma boa. – Falou Roberto com um rosto que confessava sua sede, através dos pingos de suor que minavam de sua cabeça.
-Fique a vontade. Pode ir ali na geladeira e sirva-se. – Túlio apontou para a cozinha no estilo americano.
-Eu estou bem assim. Posso me sentar? – Pe.Clécio deu um sorriso sério e falava com os jeitos dos tribunais.
-Ah sim. Claro. Pode se sentar. Não vou demorar. – Enquanto o padre dava as costas para Túlio, ele se sentiu novamente no Vaticano e teve uma péssima sensação. Aquele homem mais atrapalharia do que ajudaria seu próximo paciente. Conhecia bem aquele tipo. Começava a desconfiar o motivo de sua presença. Mas ficou tranquilo, pois afinal de contas, não era funcionário do Vaticano e quem estava no comando era ele. E era ele que estava prestando um favor a D.Ezébio e não o contrário. Olhou para cozinha e viu o jovem terminando de beber o copo d’agua. Já tinha simpatizado com aquele. A situação não era de todo ruim. Talvez D.Leandro tenha enviado alguém que valesse a pena.
Túlio desapareceu pelo corredor e voltou ao banheiro. O padre estava sentando no sofá da sala com as pernas cruzadas e não mostrava muito interesse por Roberto que saiu de trás da cozinha americana, mirando os quadros pendurados na parede. As paredes seguravam cenas estranhas de seres antropomórficos. Outros de aparência terrível pareciam dançar em nuvens negras, outros em fogo. Anjos e demônios em lutas. Homens e mulheres com aros dourados em torno da cabeça a acenar com as mãos para pessoas de aparência retorcida.
Em outra parede da sala viu um homem que parecia com o Túlio em várias fotografias com pessoas de todos os tipos. Pareciam sacerdotes de religiões de toda parte do mundo. Inclusive viu uma foto do próprio Túlio com uma saia gigante em chapéu de pelo, girando com outros vestidos da mesma maneira.
Os olhos de Roberto foram para as estantes de livro e viu algo que chamou sua atenção. Se agachou em um dos móveis e viu uma coleção colorida de HQ’s e Mangás. Conhecia algumas edições e quando tentou puxar um exemplar, ouviu os passos de alguém que aproximava. Sentiu uma vertigem e caiu no chão.
-Ô… Que é isso assim? – O homem estende a mão para o rapaz sentando no chão e meio sem graça. Roberto aceita ajuda e é erguido. Quando se levanta começa a falar
-Seu Túlio. Eu também uma coleção dessas.
-É mesmo? Talvez seu conhecimento literário seja de grande valor para ajudar nosso paciente. Inclusive eu gostaria de fazer algumas observações prévias. – Neste momento, Túlio e Roberto notaram o pe.Clécio que estava na cozinha cuspindo alguma coisa e lavava a boca na pia.
-Algum problema, pe.Clécio?
-Este café… Parece tinta de caneta… – O padre continuava a levar água para a boca.
-Embaixo…Aí no armário… Tem um um bule e filtro. Você pode fazer seu próprio café se quiser.
-Não…Tudo bem. – O padre continua a lavar a boca. Túlio e Roberto se olham como se entendessem toda a situação. O padre ajeita sua roupa e confere o clerical em um espelho da cozinha e retorna para a sala, onde os outros dois o aguarda. O homem de preto chega perto deles, fazendo um barulho com seus sapatos que incomodariam o teto do inferno.
-Muito bem. A primeira coisa é que vocês precisam usar isso aqui. – Túlio tira de uma sacola duas fraldas geriátricas. – Vocês podem ir lá no banheiro se vestir. Mas por favor não demorem.
-Roberto olha para as fraldas desconcertado e pe.Clécio expressa uma indignação que lhe abre os poros.
-Perdoe-me a franqueza, mas eu não vou vestir isso. É algum tipo de brincadeira? Por que se for eu considero isso algo muito desrespeitoso.
-Pois então, o senhor perdoe a minha franqueza, caro pe.Clécio, de lembrar-lhe que eu sou o doutor aqui. E sei muito bem que tipo de trabalho é este e o que pode acontecer. Se o senhor não quer vestir, o problema é seu. Mas em outras situações ou o senhor obedece as minhas recomendações ou vou pedir que deixe-me conduzir o meu trabalho sem me ocupar com sua presença. Quantas vezes o senhor fez este tipo de trabalho?
-Será minha primeira vez. Acabei de terminar o curso pela pontifícia universidade de Santo Afonso de Ligório. – Falou o padre que tentou conter sua raiva com o orgulho de sua formação e impor respeito a Tulio, apontando para um lugar que ele conhecia muito bem.
-Meus parabéns. Então você vai me fazer um favor. Enquanto você estiver comigo, jogue fora todos os manuais e todo aquele teatro que você aprendeu lá. É do meu jeito ou o senhor esta dispensado.
O padre cerrou um pouco seus olhos e balançou vagarosamente a cabeça para Túlio. Queria utilizar todo o direito canônico contra o homem bem na sua frente que estava vestido de calças jeans, blusa branca, jaqueta e tênis azul listrado nos pés com um boné e óculos esportivos. Mas sabia que aquilo não teria nenhum efeito sobre ele. E o próprio Euzébio pediu para ele paciência diante da ousadia e petulância do excomungado “doutor das almas”.

Clique aqui e continue a ler “Contos alucinantes – Manual de Amorcismo ( Parte 1 )”

Contos Alucinantes – O Mistério da Piscina

 

PARTE 1

A narrativa misteriosa seguinte aconteceu em 1973, em uma cidade próxima de Altolândia, no interior de Minas Gerais. Não darei mais detalhes sobre exatamente em qual cidade ou as pessoas envolvidas por motivos óbvios. Eu estava terminando o curso médio e junto com meus amigos Nelson e Joelson, discutíamos qual curso ingressar na universidade. Estávamos entre Direito e Engenharia, mas levantávamos dúvidas sobre as vantagens e desvantagens dos dois cursos e nunca chegávamos a um consenso. Até que fiz um desafio a nós três: “Vamos construir uma piscina lá em casa”.

O desafio provaria se teríamos jeito com os elementos da engenharia e ainda ganharíamos uma piscina para nos refrescar nas férias. Éramos filhos de fazendeiros. Meu pai era dono de vastas plantações de milho e o pai de Nelson e Joelson de soja. Dinheiro não seria problema. Apenas eu teria que convencer minha mãe a ceder o quintal de casa para construir a piscina. Como eles confiavam em mim, dei o projeto da piscina como certo.

Eu, Nelson e Joelson compramos muitas revistas da época mostrando casas com piscinas e perguntamos aos pedreiros das redondezas algumas informações básicas. Os pedreiros riam da gente quando perguntavam o motivo daquela perguntalhada toda e a gente respondia que iríamos construir uma piscina. Alguns apontavam para minha barriga e outros para os braços e  pernas secas dos irmãos Nelson e Joelson. Um dos pedreitos com o nome de Seu Telônio, ainda ofereceu um preço camarada para fazer a empreitada, mas ele não entendeu o espírito da nossa aventura. Eu sei que com as fotos das piscinas e as informações dos pedreiros, partimos para a compra de todos os instrumentos necessários e encomendamos as areias, cimentos, armação de ferro, etc.

As encomendas foram chegando e a cada caminhão de bloco e cimento ou caçamba de areia, minha mãe, D. Isadora, balançava a cabeça.

– Nandinho, meu filho. Que loucura é essa.

– Deixa o menino, Dora.  Deixa ele fazer a piscina dele. – Falava meu pai com risos nos lábios em frente da minha mãe.  Mas um dia ele veio até a mim e me puxou num canto depois do almoço, segurando um copo de vinho:

– Se essa p**** não der certo, vou lhe dar uns cascudos que ôce nunca mais vai esquecer.

– Você não vai esquecer é da minha piscina e ainda vai brigar com a gente pra deixar você entrar. – Respondi levantando a cabeça e o velho se virou pra esconder o riso por causa da minha ousadia. Seu Saturio não brigou comigo quando não concordei em cuidar das plantações de milho e não brigaria por uma piscina. Na verdade, o velho deixou de ir pras fazendas só pra me ver com os amigos, dando andamento na obra.

Então cavamos um buraco de 8m de comprimento por 4m de largura e 1,80m de profundidade no quintal de casa ao som de Jimmy Hendrix, A Bolha, Barca do Sol, Casa das Máquinas e outros loucos. Os LP’s rodavam numa Telefunken Alegretto que tunei adaptando caixas de som de madeira da Gradiente. Suávamos cerveja com gosto de calabresa, pois era a ração que comíamos enquanto cavávamos feitos loucos. Joelson tinha tomado sua primeiro copo de cerveja e cantava feito um condenado o rock roll. Minha mãe ficou falando pra pai que estávamos drogados e pai respondia com olhos esbugalhados na beira do buraco que era pra deixar a gente em paz. O velho estava impressionado.

Ainda hoje guardo a vitrola na minha casa de férias em Carneirinho-MG.

Depois de 3 semanas, milagrosamente terminamos de construir a piscina com azulejos azuis. Eu tinha perdido 13 quilos e estava todo bronzeado de sol. Nelson e Joelson mostravam uns pintombinhos de músculos nos braços e pernas. Faltava somente encher de água. Terminamos o serviço na quarta-feira e decidimos encher de água no próximo sábado. Assim dava tempo do rejunte e o cimento do azulejo estarem secos e impermeáveis. E também ganhei uma desculpa pra não ir no casamento da minha tia Tininha que era no mesmo dia. Se não fosse pelas obrigações sociais, até o velho Saturio ficaria para inauguração. Pai se mostrou até mesmo chateado e perguntou se não dava pra inaugurar a piscina na sexta. A gente respondeu que não para garantir toda a segurança do projeto. O velho saiu xingando bem baixinho, aceitando o seu destino. Eu tinha me livrado dele.

Bom. Sábado chegou. Lembro ainda a data. Era dia 13 de janeiro de 1973. Umas 17h. Abri a válvula de água e a piscina foi enchendo devagar. Ficamos os três cerimonialmente em silêncio, sentados na beira da piscina. Quando a água encheu toda a piscina e molhou nossos joelhos, me levantei e fechei a válvula. Nelson e Joelson deram uma volta na piscina, fazendo uma espécie de vistoria. Eu perguntei se encontraram algum problema e eles balançaram negativamente a cabeça. Foi quando eu quebrei o gelo com um grito:

– É engenharia!!!!!

– Conseguimos. Nóis é da roça, mas nóis é f****… – Gritaram os irmãos que tiraram as camisas e se jogaram na piscina. Na região de Altolândia a gente podia até ser os f***es, mas em BH éramos considerados nerds da roça.

Saí correndo pra dentro de casa e peguei a vitrola com as caixas com um disco dos Beatles. Montei a aparelhagem toda na beira da piscina e voltei pra casa pra invadir o bar de pai e pegar um whisky escocês que tio Raimundo trouxe do tour que ele fez na Europa. Era um Chivas Regal que o velho Saturio nunca tinha aberto, esperando por um momento muito especial. Abri a garrafa na certeza que pai concordaria que o sucesso do projeto merecia o Chivas Regal.

A noite foi chegando e uma lua crescente decorava um manto negro celeste, pintado de estrelas cintilantes. Os irmãos continuavam na piscina, enquanto eu apenas ficava na espreguiçadeira, bebericando o whisky com gelo. Apenas levantava para pegar mais tira-gostos.

 A vitrola continuava a tocar o rock de liverpool. Sentia-me realizado e feliz. Da minha espreguiçadeira, assistia os amigos que eram alguns anos mais novos do que eu. Crescemos juntos na região de Altolândia e estávamos completando três anos juntos no Colégio Loyola em Belo Horizonte. Eu estava com 18 anos, Nelson com 17 e Joelson com 16 anos. Os irmãos continuavam a salpicar água para todo canto e eu olhei para meu relógio que marcava 19:20. Olhei para a linda lua crescente e fechei os olhos depois de terminar um copo de Chivas. Depois disso começou o mistério.

Acordei na manhã de domingo. O braço da vitrola estava no final da faixa do LP Axis: Bold as Love e ainda girava. Olhei para meu relógio e vi que já eram 06:30. Levantei o tórax rapidamente da espreguiçadeira e me assustei. A piscina estava completamente vazia. Vazia mesmo. Seca, seca. Sem Nelson e Joelson e toda água que animava a festa. Levantei e fiquei olhando para piscina com as mãos na cabeça e puxando minha cabeleira.

Do jeito que eu estava, saí correndo para a casa dos irmãos. Camisa polo azul, bermuda branca e descalço. Eles moravam uns 500 metros da minha casa. Quando cheguei na porta deles, comecei a gritar pelos nomes de Nelson e Joelson. Desesperado, pulei o portão e caí do outro lado todo estrebuchado. Quando me levantei, com as mãos nos rins e rosto sofrido vi o pai dos irmãos com uma espingarda em punho.

– Rapaz o que tá acontecendo com você? Ficou maluco. – Falou comigo Seu Davi me segurando pela gola, mas tentando me manter em pé por causa da tremedeira de dor que eu tava por ter caído do alto do portão do que pra me segurar e me dá uma sova. Eu com cara de dor e quase sem voz, fiquei falando.

– Os meninos… Nelson e Joelson… Cadê… Onde eles tão…

– Estão dormindo. O que aconteceu com você, Fernando? Eu vou te levar pra Matilda de Gomes… Dalva, ô Dalva, socorre aqui. – Seu Davi estava ficando tão desesperado quanto eu e quando começou a chamar pela mãe dos meus amigos, soltou a mão da minha gola e fui correndo pela casa e entrei nos quartos dos irmãos.

Pois bem. Estavam os dois dormindo lado a lado, em camas separadas por um criado mudo com um abajur em forma de milho. Um presente de meu pai no aniversário de 16 anos de Joelson. Apoiei minhas mãos nos joelhos e comecei a respirar fundo. Senti um alívio mas que não diminuiu a dor nas costas devido a queda. Fiquei nessa posição por alguns minutos, quando ouvi a D. Dalva.

– Meu filho o que aconteceu com você? Que é isso tudo? Nó Senhora!

Olhei para o casal. Seu Davi já não segurava mais a espingarda e estava de pijama segurando as chaves de uma Ford Rural. D. Dalva com mil bobs na cabeça, tinha os olhos marejados e estava uma das mãos nos fartos peitos, já um tanto decaídos.

– Vamo. Vou te levar pro Matilda Gomes é agora. De lá, ligo pros seus pais. – Falou seu Davi que sabia que meus pais estavam em outra cidade devido ao casamento da Tia Tininha. Matilda Gomes era o nome do hospital que atendia toda a região. Ficava quase uma hora de carro.

– Não precisa, seu Davi. Desculpe…Eu acho que bebi demais. Desculpe, mesmo. Pra senhora também D. Dalva. Eu já vou andando… Desculpe.

Saí da casa sem conversar com Nelson e Joelson, mas tinha certeza que eles estavam bem. Estavam bem melhores do que eu com certeza. Eu sentia dor pelo corpo todo e estava muito confuso, sem saber o que aconteceu na noite anterior.

Quando o portão foi fechado e meus pés sentiram o asfalto, lembrei que não tinha afagado o cachorro da família, um fila com o nome Pongo. Sempre fiz isso e eu gostava muito do Pongo. Algo em mim insistia em ver o cachorro. Mas não queria voltar a apavorar os pais de Nelson e Joelson. Então decidi dar a volta na casa e fui para os fundos. O muro era baixo e subi dessa vez com muito cuidado e fui descendo do outro lado de costas. Quando desci no chão, senti um dor lombar e me apoiei no muro. Foi quando ouvi o gemido de um cachorro e me virei rápido. Lá vem um fila todo gordo e desajeito se jogando em mim e me lambendo, me agachei e fiquei ali sendo todo beijado.

Pongo me fez sentir muito melhor e coloquei o dedo nos lábios pedindo para que ele não latisse e ele me entendeu. De repente me dei conta que o cachorro estava todo molhado. Pior, me levantei e vi que o terreno do fundo da casa estava todo molhado como se tivesse acontecido uma enchente. Aí me apavorei novamente. E a coisa piorou mais ainda, quando um gato pulou do muro pra baixo e ficou roçando nas minhas pernas com o pelo todo úmido. Eu não aguentei aquilo. Dei umas afagadas no Pongo e pulei o muro pra rua.

Fui andando devagar pra casa, meio que olhando pra baixo e pensando naquilo tudo sem ter nenhuma resposta lógica. Talvez eu ainda estava sonhando. De repente, tive a impressão que estava sendo seguido. Acelerei os passos e a sensação não passou. Quando tomei coragem e me virei, vi que o mesmo gato todo molhado me seguia. Era tipo um frajola, preto e branco. O bichinho acelerou o passo e deu uma miada na minha frente. Olhei ele por um tempinho e depois continuei a ir pra casa com o gato me seguindo. Quando cheguei em casa, sentia-me fadigado. Mas fui até a cozinha, peguei um pratinho e enchi de leite pro gatinho que bebeu sedento. Depois peguei uma toalha e sequei ele. O bichinho olhava pra mim com as pupilas dilatadas e ronronava sem parar. Enquanto alisava ele, decidi encher a piscina de água novamente e lidar com aquilo da melhor maneira. Iria dizer que fiquei bêbado e pronto. Mas aquilo não iria funcionar como eu saberia mais tarde. Peguei um copo de leite e fui para a piscina, abri a válvula de água e me deitei na espreguiçadeira. Então olhei para o meu relógio que marcava exatamente 16:01. Adormeci em seguida, fatigado pelos últimos acontecimentos.

Parte II

Acordei com vários respingos de água e me levantei assustado. Quando olhei para a piscina estavam meus pais fazendo a maior barulheira na piscina. Estavam jogando água um no outro e fazendo brincadeiras como mineiro quando vai a praia pela primeira vez. Quando mãe viu que eu tinha acordado, subiu a escadinha da piscina, veio correndo na minha direção e me pegou no colo e ficou girando. E quase se joga comigo na piscina, quando gritei que eu tinha acabado de acordar e poderia ter um choque anafilático, ela me largou no chão e pulou de volta pra piscina. Foi quando meu pai falou: Clique aqui e continue a ler “Contos Alucinantes – O Mistério da Piscina”