Baseado de fatos reais – O Bolo de Privacidade

 

– Ai Quitinia…Foi tão bão conversar com ocê. É… Agora a gente vai ficar de conversê o tempo todo… He, he… Sim, minha filha. O zap, zap, facebook, instagram… Já instalei esses todos que você me falou aí. É… Pode me procurar lá… Tá bom. Lembranças pro Leôncio e pros meninos… Ó, tô com saudade dos seus bolo menina. Hahaha…Tá joiá. Fica com Deus… Tá… Vou te aceitar lá no face…Tchau.

D. Viginilda Souza Gonçalves, 77 anos, aposentada. Estava orgulhosa e feliz por ter comprado seu primeiro smartphone. Foi em uma loja DotHot e perguntou qual era o melhor smartphone que eles tinham. O vendedor apresentou alguns e ela simpatizou com o que tinha o logotipo do abacate. Comprou um Abacatel XII e foi correndo pra casa para começar a usar o mágico aparelho. Excitação desse tamanho só sentiu quando recebeu o primeiro beijo do seu amado e já falecido marido português, João Manuel. Que Deus o tenha. Agora a viúva trocaria a nostalgia pelo virtualismo presente das amigas de perto e de longe pelas redes da internet. D.Quintinia que morava no Amazonas, Manaus. Não parecia estar tão longe agora.

Depois que se despediu de Quintinia, D.Viginilda colocou os óculos que estavam pendurados em volta do pescoço e acessou a loja virtual do smartphone. Era tanto aplicativo. Cada um pra uma coisa. Já tinha instalado os de redes sociais, agora experimentava um com receitas pra cozinha, outro pra contar seus passos nas caminhadas que fazia durante a manhã, uns joguinhos pra pocar uns docinhos na tela. Que maravilha! Que maravilha! E enquanto escolhia os programinhas, ia aparecendo aquelas notificações todas de sms, de face, zap-zap… D.Viginilda estava suando e as pontas dos dedos começavam a ficar vermelhas. Se sentia uma atleta. Estava mordendo os lábios e deslizando o indicador freneticamente na tela quando a campainha tocou. Blim-blom! O som lembrava um comercial de perfurmes da década de 80 do século passado.

Um basset que estava dormindo aos seus pés se levantou e foi correndo para a porta do apartamento. D.Viginilda tirou os óculos do rosto e deixou eles pendurado no cordão em volta do pescoço. Olhou para o relógio e viu que já se passara mais de duas horas, desde que terminou de conversar com Quintinia. Colocou o abacatel na mesinha ao lado. Se ergueu do sófa e antes de se dirigir para a porta, deu uma olhadinha rápida no espelho e ajeitou de leve seu cabelo pintado de lilás. A vaidade de D.Viginilda não tinha envelhecido. Foi para a porta e a abriu. Um sino de vento balançou quando a porta foi aberta. Blim…blim…blom…blim.. blom…blom…

– Tá aqui Viginilda, fica assim na vontade não. Fiz um bolo só prôce…Agora vou ali pegar o Betinho no colégio que Marcinha vai ficar até mais tarde lá na firma. Depois a gente conversa. Tchau.
D.Viginilda recebeu o bolo nas mãos meio desconcertada. Fechou a porta do apartamento. Blim…blom…blim,…blim…blom… O pequeno basset cor de caramelo ia na sua frente, girando o corpo e esperando ganhar um pedaço do bolo, enquanto ia para cozinha. Puxou uma espátula de bolo de uma gaveta do armário da cozinha e cortou um pedaço. Comeu um pedacinho. Era um bolo de fubá com coco ralado. Estava delicioso. Abocanhou um pedaço maior e deu um pedacinho para o basset. Cortou mais um pedaço e comeu. Guardou o resto do bolo na geladeira.
Voltou para a sala, se sentou no sofá e pegou novamente no abacatel. Ficou olhando para o aparelho com a testa franzida. O vendedor disse que aquele aparelho era o melhor do mercado. D.Viginilda começou a pensar que seu abacatel era um realizador de desejos como uma lâmpada de Alladin. Ele ouviu seu desejo de comer bolo, quando tinha conversado com a Quintinia. De repente, a vizinha do lado trouxe um bolo pra ela. E olhe que ela nem tinha amizade assim estreita com D. Jovelina.

D. Viginilda começou a conversar com o aparelho e foi dizendo todos os desejos dela. Uma viagem de transatlântico para ilhas gregas, roupinhas da Tiffany, perfumes da Victoria’s Secrets, um carrinho Smart Fortwo pra ir no supermercado e na academia de Pilates… E tantas outras coisas. Ai… D.Viginilda já imaginava suas amigas se retorcendo de inveja. Estava apaixonada pelo smartphone. Naquele dia só se levantou do sofá pra dar comida para o seu fiel basset, ir no banheiro ou comer mais um pedaço de bolo. No fim da noite, já cansada de tanto mexer no smartphone, D.Viginilda dormiu ali mesmo no sofá segurando o abacatel XII.

Quando ela acordou já eram 7 da manhã e o pequeno basset subiu até ao seu rosto e começou a lamber suas bochechas e nariz. Olhou para o smartphone que tinha um pop up na tela pedindo que o recarregasse. Atrás da mesinha, ao lado do sofá, ela espetou o cabo de energia na tomada e o magicphone começou a se alimentar. Também sentiu fome. D.Viginilda foi até a cozinha, abriu a geladeira e comeu mais um pedaço de bolo da vizinha. O pequeno basset também pediu um pedaço que recebeu com sua vasilha de ração. D.Viginilda foi cuidar da casa, mas já pensando em mexer no smartphone.

Ao voltar para o sofá, viu que o aparelho já estava 100% carregado e esperou que o mesmo começasse a atender suas solicitações. Pois bem. Em todas as redes sociais, aplicativos e nos buscadores, apareciam todas as ofertas de compras dos produtos e serviços que ela conversou com o smartphone. D.Viginilda já tinha passado um tempão enterrada no sofá e nada de ninguém tocar na campainha oferecendo uma passagem no transatlântico e tão pouco o carrinho inteligente. Mas o abacatel XII continuava a oferecer em propagandas todos os produtos que ela pediu com valores em tantos porcentos de desconto. Aquilo não tinha graça. No final da noite ela cansou de esperar. A gota d’água foi um banner com a Audrey Hepburn jovem apontando o dedo médio para promoções da Tiffany. Lembrou da pensão que recebia do seu amado e finado marido português que nunca pagaria pelos seus luxuosos desejos.

Enfim, colocou o abacatel no carregador e foi dormir. Não sem levar para cama a dúvida sobre o bolo da vizinha. Amanhã ela ia dá um jeito de descobrir. O basset ficou feliz de ir dormir com D.Viginilda na cama que era mais macia do que os pés da dona.

No dia seguinte, voltou a sua rotina diária e deu umas olhadas no abacatel apenas para conferir o zap zap e outras notificações. Na cozinha decidiu fazer umas coxinhas para presentear à vizinha como agradecimento pelo bolo de antes de ontem. Mas seu plano na verdade era saber como a vizinha soube que ela estava com vontade de comer bolo.
Depois que terminou de fritar as coxinhas e coloca-las em um prato bonito, deu outra olhada no abacatel. Nas redes sociais, propagandas ofereciam as melhores ofertas de bolos nas confeitarias da cidade. Deixou o smartphone na mesinha e foi se preparar para visitar a vizinha.

Toda chique casual, a senhora da terceira idade pegou o abacatel e colocou no bolso da calça. Foi para cozinha e pegou o prato de coxinhas lindamente arrumadinhos. Seguiu para porta da sala com o basset na sua cola sentindo o cheiro dos salgados. Saiu do seu apartamento, Blim…blom..blim…blim…blom, e  foi para a porta do apartamento 315. Tocou a campainha. A porta se abriu e mostrou outra viúva na mesma faixa de idade da D.Viginilda.

– Tudo bem, Jovelina? Aqui, eu trouxe uns salgadin prôce. Aquele bolo que você me deu tava tão bão.

– Ocê gostou mesmo Viginilda? Entra aqui e vamo tomar com um café que eu acabei de passar.

– Mas o Tico vai ter que entrar comigo, ocê se importa?

– Só se ele não se importar com a Toinha. A Toinha é toda mansa, capaz nem de querer saber de seu cachorro.

– O Tico é muito brincalhão, vai fazer nada não.

– Entre, entre… – Falou D.Jovelina entre risadas e achando graça do cachorrinho com forma de salsicha, seguindo a dona.

Então entrou D.Viginilda com o Tico no apartamento de D.Jovelina. E a conversa começou parecendo não ter mais fim. A Toinha desceu de uma prateleira de livros e foi cheirar o Tico que ficou balançando o rabo. Por sua vez, o cachorro também ficou cheirando a gata da vizinha. Depois de uns minutos, a gata ficou se esfregando no cachorro e voltou para a prateleira. O Tico foi para perto da dona na esperança de ganhar umas coxinhas.

Depois de algumas horas de muito café com coxinha, muita conversa animada e risadas, a viúva com o Abacatel na mão, perguntou à viúva que segurava um smartphone Baldonga Plus.

– Vem cá, Jovelina. Comé cocê sabia que eu tava com vontade de comer bolo?

– Viginilda, minha filha, ocê fala alto demais quando tá conversando no telefone.

Fim.

P.S: Esse texto não teve revisão e eu não me importo.

Trabalhando aquela saudade

 

Eu recebi por email este texto do Orkut Büyükkökten em maio do ano passado, quando ele promovia sua nova rede social Hello. É um ótima reflexão sobre o comportamento das pessoas nas redes sociais e o aparente processamento de desumanização e enfraquecimento das relações sadias entre todos nós. Na época, Orkut Büyükkökten estava inaugurando a rede social Hello. Por fim, seu texto tornou-se mais uma declaração do que uma promoção da plataforma.

Eu tenho muitas considerações sobre o texto abaixo e o considero muito óbvio. Mas prefiro que ele seja o destaque neste post. Mais tarde posso escrever um texto sobre minhas impressões, seguindo o rastro do autor.

Ei sr. Büyükkökten! Obrigado por tudo que aprendi e toda diversão que tive com o Orkut.

 

Por que o mundo precisa do hello

Quando falo sobre o hello para as pessoas, às vezes, elas me perguntam: “Realmente precisamos de outra rede social?” Eu acredito que precisamos de uma nova rede social agora mais do que nunca. Veja por que:

Estamos no meio de uma revolução de reformulação de tudo o que fazemos: como jogamos, como compramos, como nos comunicamos e compartilhamos. As redes sociais deveriam nos unir e nos deixar mais felizes, mas, em vez disso, elas trazem ansiedade, depressão e infelicidade. Temos receio de sermos nós mesmos online. Olhamos para os destaques de nossos amigos e nos preocupamos se fazemos parte deles. Tememos não sermos bons o bastante, porque não nos encaixamos nas expectativas irreais da sociedade de que cada momento é um momento perfeito, por isso, nós nos mascaramos de pessoas que não somos.

Vivemos em uma cultura de narcisismo, não uma cultura de união. Nossos “eus” significam mais para nós do que os sentimentos das outras pessoas. Nossos filtros significam mais para nós do que os nossos valores. A forma como parecemos se tornou mais importante do que como tratamos as outras pessoas. Nós nos esquecemos de que tudo o que importa está no nosso interior? Que o que importa mais é o que podemos ver apenas com o coração? Paramos de seguir os nossos corações, e eu estou preocupado. Estou preocupado com uma geração que acompanha as Kardashians. Estou preocupado com os jovens que preferem assistir reality shows superficiais em vez de programas que nos ensinam como ser melhores pessoas, programas como o The Leftlovers que nos fazem refletir sobre o nosso propósito e nos dá imagens fiéis da vida em toda a sua complexidade.

Apesar do que as ações de nossos amigos egoístas podem nos dizer, ainda vivemos em um mundo com outras pessoas. Nós ainda vivemos em um mundo onde todos os dias interagimos com nossos familiares e amigos, nossos vizinhos e colegas de trabalho, nossos professores, advogados e médicos, com os atendentes da mercearia e os motoristas de táxi, com as nossas babás e os políticos. Como a televisão, que celebra o narcisismo, pode nos ensinar sobre como tratar outras pessoas? Como podemos aprender a encontrar amor e companheirismo quando nossa cultura honra o egoísmo?

Estou aqui para dizer que ainda podemos. Podemos encontrar pessoas para conversar e para nos apoiar. Podemos ainda fazer amigos para compartilhar momentos de alegria. Podemos encontrar amor, empatia e comunidade online se realmente quisermos. Podemos preencher o mundo com nosso calor e amor, em vez de nossas inseguranças e incertezas. Tenho certeza que podemos se apenas dissermos “oi”.

No mundo real, conhecemos pessoas por que temos amigos em comum, vivemos nos mesmos lugares, vamos às mesmas escolas, trabalhamos nas mesmas empresas ou temos interesses em comum. Paixões são, muitas vezes, o início de nossas conversas na vida real. Compartilhar o que amamos é como nos conectamos com outras pessoas. Mas, às vezes, sentimos que precisamos romper com nossos círculos sociais atuais. Podemos estar sentindo solidão ou simplesmente procurando ampliá-lo e fazer novos amigos onde vivemos. Todos desejamos encontrar diversão, pessoas legais com quem sair na vida real. Mas vamos encarar uma coisa: é extremamente difícil conhecer novas pessoas e não é divertido se não soubermos por onde começar. Supostamente, a Internet deveria fazer isso melhor, mas tentar fazer amigos online, às vezes, nos deixa frustrados e abatidos. As pessoas online podem ser más e estranhas. As pessoas online se tratam de forma totalmente diferente de como elas se tratam pessoalmente.

A vida é complicada, confusa, maravilhosa, estranha, incrível e, acima de tudo, completa de paixão. Estamos todos em uma viagem para satisfazer nossas paixões na vida. Estamos todos tentando encontrar significado e propósito na agonia das incertezas. Todos queremos encontrar amizade e amor. Todos queremos nos encaixar. Meu chamado na vida tem sido trazer comunidades online de volta às raízes, de volta a um tempo quando o software era sobre fazer conexões genuínas com outras pessoas, quando os membros de comunidades online realmente se importavam com os outros. Eu quero criar uma rede social onde compartilhar paixões e momentos com novos e velhos amigos e onde criar comunidades cheias de amor e felicidade seja tão fácil como dizer oi.

Tudo começa com oi. Um gesto simples é o começo de algo novo e lindo. O hello é a faísca de uma vida online mais feliz. O hello conecta você com pessoas que compartilham de seus interesses. Concebemos o hello para ajudá-lo a fazer conexões no mundo real. É uma rede social construída em amor não em curtida.

A tecnologia deveria nos conectar, não nos dividir. A tecnologia deveria nos ajudar a sermos mais compreensíveis, mais otimistas, a sermos pessoas mais bondosas e melhores. Se acredita nesta visão, queremos que você diga “hello”. Se deseja construir um mundo digital melhor, queremos que você diga “hello”. Se quiser encontrar amor e amizade com pessoas que realmente se importam, que compartilham suas paixões, queremos que você diga “hello”. Você não tem mais motivos para estar triste e deprimido online. Seu coração é um espelho que reflete o seu eu verdadeiro, tanto o interior como o exterior, online ou offline. Abra-o e deixa a luz brilhar em tudo que é bom dentro de você. Nós vemos isso. Nós acreditamos em você. Junte-se a nós.

Fique bem,
Orkut

 

Auto de fé do sonho de bits – Parte 1

 

 

Essas
pessoas dos sonhos com bits que se mostram tão livres e modernas. E
julgam e culpam fantasmas inquisidores. O tempo as contempla e diz:
mais do mesmo.
A
sutileza do proselitismo – às vezes não tão sutil – com suas
armas de silício em barcos de rios virtuais. Em alucinações
mornas que abraçam novos adeptos, transformadas em tentáculos
inflamantes aos que fogem e rejeitam prisões de falsos afetos. Este
proselitismo… Este proselitismo o tempo contempla e diz: mais do
mesmo.
Todos
dormem, estão todos com sono, é preciso acordar a todos, dizem os
vigilantes da nova fé dos sonhos. Senão… Dedos gosmentos sobre
teclados físicos e virtuais, transformando a web em uma teia
pegajosa, capturando a diversidade desavisada, natural e
despretenciosa.
É precisa acreditar nestes simulacros para que eles
possam exercer a missão de “acordadores”. Aceite e acorde com a
boca empaturrada de chocolate, enchendo uma privada de disenteria
mental. Fios invisíveis a conduzir sua vontade. Mas..ah. Como é
doce a liberdade de ser igual! O tempo assiste a este repetido teatro
de novos atores e diz: mais do mesmo, mas é até engraçado.