Resenha: De Volta ao Catolicismo – Padre Zezinho

Um livro escrito por um autor que se mostra honesto e sóbrio sobre sua religião e respeitoso com as demais. Apesar do título sugestivo, De Volta ao Catolicismo parece tratar mais sobre a identidade do ser católico e sobre as formas de transmissão da mensagem cristã pela mídia do que uma tentativa de recuperar fiéis para a Igreja Católica.

A leitura é fácil e a todo momento o leitor é convidado a refletir com inteligência sobre os assuntos abordados. Um desses assuntos é sobre a influência do pentecostalismo até mesmo na igreja do autor. Pe.Zezinho questiona se um cristianismo que prima pelo sensacionalismo, pelo sobrenatural e pela teatralidade pode realmente conduzir a uma vida de fé autentica. É válida a transmissão do evangelho usando-se de técnicas de marketing?  Está sendo sadio o desenvolvimento de uma crença que é mais sentimental do que raciocinada?

O caminho mais certo? Não depende nem do tom, nem do volume de nossas caixas de som, nem da altura dos nossos púlpitos, nem da potência das antenas desta ou daquela Igreja.  Só Deus sabe quem está perto da verdade!

Padre Zezinho também discorre também sobre conhecimento científico, história, psicologia e sociologia dentro de sua perspectiva de cristão católico. Reconhece os erros cometidos no passado pela sua Igreja que ele explica como desvios. No entanto, ressalta como a Igreja Católica tem se empenhado em prol da vida e de uma sociedade mais justa nos dias atuais. Elogia o desenvolvimento das tecnologias que promovem a vida e combate as que desumanizam como a utilização de embriões humanos para a retirada de células troncos.

Não me sinto desafiado nem pelos outros crentes nem pelos ateus. Na verdade eles me ajudam, ao me provocar para que me explique. Sei que nem eu, nem eles sabemos o suficiente. Eu erro, e eles erram, eu acerto e eles acertam. Depende do assunto e do tema. Não há nem fé nem ciência perfeitas.

Pede para que todos os cristãos sejam estudiosos de sua religião. Aos católicos que leiam os documentos da Igreja e estudem teologia na medida de suas capacidades. E que estejam abertos a compreender as diferenças e evitar discórdias.

Sei mais do que alguns deles e sei menos do que outros.  Por isso, aceito ouvi- los.  Aos que sabem menos, devo ensinar o que sei, e dos que sabem mais devo aprender o que ainda não sei.

A impressão que tive é que o autor segue uma corrente religiosa contrária ao que é exposta na mídia. Não se apresenta como aquele que tem a resposta certa e nem tão pouco apela para um discurso arrebatador e sensacionalista. A escrita é serena, mas com vigor.  Para  pessoas como eu que não frequentam templos e que não se habituam ao frenesi moderno que as religiões tradicionais se renderam, Padre Zezinho é aquela fonte de paz e tranquilidade, no entanto com aquela  dose necessária de incomodo que faz mover. Particularmente, sou desconfiado dessa nova cepa de padres artistas que mais parecem celebridades do que sacerdotes. Diferente do autor que cantando ou escrevendo, sempre se apresenta coerente com sua fé e religião.

Resenha: Como Jesus se tornou Deus – Bart D. Ehrman

Apesar do título, “Como Jesus se tornou Deus” é um livro que não tem pretensões teológicas. O autor é um pesquisador que faz uma análise histórica sobre como as pessoas compreenderam Jesus no desenrolar do primeiro até o quarto século do cristianismo.
Bart D. Ehrman escreve o livro de maneira acessível ao público, problematizando questões sobre a pessoa de Jesus de Nazaré sem utilizar uma linguagem demasiadamente acadêmica. Isso é seu mérito, pois o assunto já foi motivo de diversos estudos e publicações, mas não com o objetivo de popularizar o debate. O livro conserva as referências bibliográficas das fontes utilizadas pelo autor e o mesmo é honesto quando expressa as suas opiniões mais particulares.
O tema é polêmico. A grande maioria dos crentes e até mesmo dos não crentes, aprendem que Jesus sempre foi entendido como Deus. Segundo Ehrman, do cristianismo primitivo até o século IV, houve várias percepções sobre a divindade de Jesus e estas percepções evoluíram e competiram entre si, até chegar a uma proposição ortodoxa que é a aceita hoje. Bem resumidamente, existiam duas correntes de pensamento: uma dizia que Jesus teria se tornado divino por adoção de Deus e a outra que dizia que Jesus era uma criatura divina por natureza que foi encarnado homem e que foi exaltado tão divino quanto Deus. Atualmente é dogmático o conceito de Jesus como segunda pessoa da Trindade e consubstancial ao Pai, não criado, igual em poder e eterno desde sempre. Um dogma que foi imposto graças à intercessão do Constantino, o imperador convertido que viu no cristianismo a força amálgama que uniria o Império Romano. Se a Igreja continuasse com diferentes interpretações e divisões, a fragmentação do Império não seria contida. Foi escolhida a compreensão aceita pela maioria e os que insistiram no desacordo foram exilados.
A abordagem do livro começa com um estudo sobre a interação entre deuses e humanos na antiguidade, não somente na cultura pagã mais também judaica. Apresenta outros candidatos a “messias” que concorreram com Jesus. Entra nos livros do Novo Testamento ressaltando as diferenças entre os evangelhos canônicos e investiga demoradamente as cartas do apóstolo do Paulo no que se refere ao tema. As cartas dos outros apóstolos não são esquecidas e também são alvo do autor.
Como Jesus se tornou Deus é um livro instigante e despretensioso em determinar qual o melhor conceito sobre a divindade de Jesus. Nem tão pouco quer afirmar se realmente ele era ou não Deus. Não é um livro religioso ou de teologia. No entanto, a pesquisa histórica de Bart D. Ehrman deixa aparecer o humano Jesus. Sábio e humilde rabi que vindo da zona rural, transmitia uma mensagem simples e inovadora de amor para todos que quisessem ouvir. Com o passar do tempo essa mensagem começou a receber múltiplas interpretações e refinamentos, modificando não apenas o evangelho em si como a própria visão sobre a pessoa dele.